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Educação é ferramenta de mobilidade social para mulheres, destaca ministra

Painel com ministra interina da Mulher, Eutália Barbosa, discutiu barreiras estruturais e representatividade durante congresso internacional

A educação é uma importante ferramenta de mobilidade social para as mulheres, mas ainda não tem sido suficiente para solucionar as desigualdades estruturais de gênero. Essa foi uma das questões discutidas no painel “Mulheres e Educação”, realizado nesta quarta-feira (26/8), no Centro de Convenções da Unicamp, como parte da programação de um evento internacional de três dias, que reúne 214 participantes e tem como tema “Comparar é preciso – Análises comparativas e o futuro da educação ibero-americana”.

Uma das participantes do painel foi Eutália Barbosa, secretária-executiva do Ministério das Mulheres, que representou a pasta na condição de ministra substituta, durante as férias da ministra Márcia Lopes. Em sua fala, Barbosa destacou que, embora as mulheres apresentem desempenho expressivo na produção acadêmica e científica e sejam maioria em diversos espaços educacionais, essa presença ainda não se traduz proporcionalmente na ocupação de cargos de maior poder, salários mais altos e posições de decisão.

Pessoa usando óculos de armação escura e camisa azul jeans, segurando microfone com fita amarela e preta na mão direita, sentada à mesa com copo de água transparente à frente, em ambiente com parede azul ao fundo e cortina marrom à esquerda.
A secretária-executiva do Ministério das Mulheres, Eutália Barbosa, que representou a pasta na condição de ministra substituta: mulheres fora do espaço de poder

“A educação é de fato uma política pública que permite mobilidade social, mas ainda vivemos numa realidade em que as mulheres se sobrecarregam com o trabalho de cuidado e permanecem fora dos espaços de poder”, afirmou. Para ela, a desigualdade não pode ser atribuída à falta de capacidade das mulheres, mas às estruturas sociais que historicamente limitam sua participação.

A ministra chamou a atenção ainda para a relação entre gênero e democracia. Segundo ela, enfrentar a desigualdade estrutural é uma tarefa que passa pela ampliação da participação feminina nos espaços públicos, mas também pela defesa das instituições democráticas. “Sem democracia e sem soberania, os primeiros corpos, as primeiras vidas, as primeiras pessoas que serão afetadas são as mulheres”, disse. Barbosa também relacionou a discussão sobre gênero às desigualdades raciais e às diferentes formas de violência que atingem as mulheres e ressaltou que o feminicídio é “um fenômeno mundial”.

A discussão sobre as barreiras enfrentadas pelas mulheres também foi abordada pelas pró-reitoras Cláudia Morelli, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG), e Sylvia Furegatti, da Pró-Reitoria de Extensão, Esportes e Cultura (ProEEC), que representaram a Reitoria.

Três retratos lado a lado de pessoas em ambientes internos: à esquerda, pessoa com cabelo grisalho curto, óculos de armação transparente, blusa vinho com lenço estampado; ao centro, pessoa com lenço branco na cabeça, óculos de armação azul, brincos dourados circulares e batom roxo; à direita, pessoa com cabelo castanho ondulado até os ombros, óculos de armação preta, colar com pedras verdes e blusa azul.
As pró-reitoras Cláudia Morelli (à esquerda) e Sylvia Furegatti (à direita); ao centro, a diretora da FE, Débora Jeffrey: barreiras enfrentadas pelas mulheres

Morelli destacou a importância de redes de apoio para que mulheres consigam conciliar a trajetória acadêmica com as responsabilidades de cuidado. “Essa desigualdade de gênero persiste. Muitas vezes as discentes não têm essa rede de apoio quando, por exemplo, um filho fica doente”, afirmou. Para ela, é necessário também sensibilizar orientadores e professores para situações que possam exigir a ampliação de prazos e maior flexibilidade no percurso acadêmico.

Furegatti destacou iniciativas de incentivo à participação feminina em editais culturais e apontou outra dimensão dessa desigualdade. Segundo ela, mulheres frequentemente assumem papel central na articulação entre a Universidade e as comunidades, justamente por estarem mais disponíveis para receber estudantes e professores nos territórios. “A mulher está ali em nome do bairro, em nome de uma comunidade”, observou. Para a pró-reitora, essa atuação também evidencia a necessidade de reconhecer o tempo e o trabalho dedicados pelas mulheres à construção coletiva.

Desafios da representatividade

Diretora da Faculdade de Educação (FE), Débora Jeffrey participou do painel e abordou o papel das mulheres negras na construção do conhecimento. Sua apresentação tratou dos desafios de representatividade e da contribuição das mulheres negras para a construção de epistemologias, considerando também a realidade brasileira e ibero-americana.

Para a diretora, a perspectiva comparada permite identificar aproximações e diferenças entre países e sociedades e compreender como questões culturais, históricas e sociais interferem nos sistemas educacionais. “A proposta da Sociedade Ibero-Americana de Educação Comparada é estender essa agenda, que é uma agenda global de pesquisadores e pesquisadoras que convergem nessa análise comparativa da educação”, explicou.

Segundo ela, comparar experiências educacionais de diferentes países é também uma forma de reconhecer as especificidades de cada sociedade e, ao mesmo tempo, identificar problemas comuns. “Precisamos nos redefinir e nos reconhecer enquanto grupos coletivos em países que têm suas convergências e suas divergências”, afirmou.

Também participaram do painel as professoras Regina Cortina, da Columbia University (EUA), Patrícia Vieira Duarte, da Universidad de la Republica (Uruguai), e Maria Cecília Leite Lorea, da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul (RS).

Encontro internacional

O evento reúne a 5ª edição do Congresso Ibero-Americano de Educação Comparada, o 9º Encontro Internacional da Sociedade Brasileira de Educação Comparada (SBEC), o 2º Congresso da Sociedade Uruguaia de Educação Comparada e Internacional e a 7ª edição do Seminário do Grupo de Estudos e Pesquisas em Política e Avaliação Educacional (Gepale).

Presidente da Sociedade Brasileira de Educação Comparada e docente da FE, Luis Enrique Aguilar afirmou que o evento, realizado pela primeira vez na Unicamp, dá continuidade a uma trajetória iniciada em 2014. “A primeira reunião ibero-americana ocorreu em Madri, na Espanha, e, desde então, passamos a reunir diferentes sociedades de educação comparada.”

Pessoa usando óculos de armação vermelha e blusa de manga comprida em tons de vinho com textura canelada, usando colar de contas em cores quentes, posicionada de perfil olhando para a direita, com cabelo preto ondulado, em frente a um painel branco com múltiplas fotografias pequenas dispostas em grid.
A secretária-geral da Sociedade Brasileira de Educação Comparada, professora Eliacir Neves França: abrir espaço para discutir o papel feminino

A programação inclui debates sobre políticas educacionais, história da educação, decolonialidade, gênero, meio ambiente e educação comparada no contexto ibero-americano. Segundo Aguilar, a realização conjunta dos congressos permite ampliar o diálogo entre pesquisadores e aproximar diferentes experiências educacionais.

A secretária-geral da Sociedade Brasileira de Educação Comparada e integrante da comissão organizadora, professora Eliacir Neves França, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), destacou que a perspectiva comparada permite lançar luz sobre as experiências de diferentes países e identificar práticas que podem contribuir para o aprimoramento das políticas educacionais.

Para França, o painel dedicado às mulheres foi pensado justamente para abrir espaço, dentro de um congresso internacional de educação, para discutir o papel feminino na sociedade contemporânea. Ela considera que a universidade tem papel fundamental nesse debate, especialmente por reunir diferentes perspectivas e experiências. “Eventos como esse, que reúnem pesquisadores de toda a Ibero-América, abrem esse espaço para as mulheres. É de fundamental importância porque lança luz não só sobre políticas públicas, mas também sobre a perspectiva da pesquisa.”

Foto de capa:

Pessoas sentadas em fileira atrás de uma mesa comprida coberta por toalha branca com texto em português referente a congressos de educação comparada, em auditório com parede azul e revestimento de madeira, tendo à frente público parcialmente visível e uma pessoa em primeiro plano fotografando o evento.
O painel “Mulheres e Educação”, foi realizado como parte da programação de um evento internacional que tem como tema “Comparar é preciso – Análises comparativas e o futuro da educação ibero-americana”
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