

O professor Fernando Cerdeira, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), morreu aos 83 anos, no dia 22 de agosto. Referência na área de física da matéria condensada, especialmente nos estudos sobre física de semicondutores e propriedades ópticas de sólidos, Cerdeira dedicou mais de três décadas à pesquisa, ao ensino e à formação de cientistas na Unicamp.
Cerdeira ingressou na Universidade em 1974 como professor titular do IFGW, vinculado ao Departamento de Física da Matéria Condensada (DFMC), e participou do processo de consolidação da pesquisa na área, com destaque para estudos realizados por meio de espectroscopia. Também atuou na implantação e na modernização dos laboratórios e na coordenação de projetos.
Graduado em Física pela Universidade de Buenos Aires, em 1966, Cerdeira obteve doutorado em Física pela Brown University, nos Estados Unidos, em 1971. A tese de doutorado, defendida naquele ano, permanece preservada no IFGW. O documento, que registra uma etapa inicial de sua trajetória científica, hoje também ajuda a contar a história de um pesquisador cuja atuação se estendeu por décadas dentro do Instituto.

Para o professor Amir Caldeira, do IFGW, a história de Cerdeira se confunde com parte da própria trajetória da pesquisa em Física na Universidade. Caldeira chegou à Unicamp em 1980 e Cerdeira foi a primeira pessoa que ele conheceu no Instituto. Segundo o físico, a relação se tornou próxima desde os primeiros dias, e foi Cerdeira quem o ajudou a se instalar em Campinas.
Mais do que a amizade, no entanto, Caldeira destaca a atuação de Cerdeira na construção de um ambiente acadêmico de excelência. Segundo ele, o professor não tinha um perfil voltado para a atuação política ou administrativa, embora tenha ocupado funções como chefe de departamento e coordenador da pós-graduação. “Sua atuação estava principalmente ligada à pesquisa, à formação e à defesa de padrões acadêmicos elevados. Fernando sempre teve como meta a preservação do alto padrão acadêmico”, afirma Caldeira.
Na avaliação do professor, Cerdeira tinha conhecimento amplo e profundo em Física. Sua contribuição científica esteve concentrada principalmente no estudo das propriedades ópticas de materiais semicondutores, fundamentais para a eletrônica moderna. Por meio de técnicas como a espectroscopia Raman, o pesquisador investigava como a luz interage com esses materiais.
O professor Alex Antonelli, também do IFGW, conheceu Cerdeira no final de 1993, quando ingressou na Universidade. Como físico teórico, Antonelli não trabalhava diretamente nos mesmos laboratórios, mas se aproximou do colega pela convivência no Instituto.


Antonelli guarda uma lembrança concreta da convivência com Cerdeira: herdou parte de suas notas de professor, que ainda hoje utiliza como referência. Além da sólida formação científica, ele ressalta a curiosidade intelectual do colega, que se estendia para muito além da Física. “Ele era um sujeito de múltiplos interesses. Não era só a parte profissional. Lia muito, era muito culto, conhecia muita coisa. Conversar com ele era sempre muito bom”, conta.
Mesmo após a aposentadoria de Cerdeira, em 2011, Antonelli manteve contato com o professor, o que incluía conversas e jantares ocasionais. “Ele era uma pessoa muito querida, vai fazer muita falta”, afirma Antonelli.
O professor Odilon Couto Junior, atual responsável pelo grupo de Propriedades Ópticas do IFGW, conheceu Cerdeira em 2000. Ele lembra que inicialmente procurou Cerdeira para pedir uma bolsa de iniciação científica, e foi então encaminhado ao trabalho no laboratório. “Ele sabia muito”, ressalta. Nas reuniões do grupo, destaca, Cerdeira era frequentemente procurado pelos colegas quando surgiam questões sobre os experimentos. “Era uma pessoa que enxergava muito à frente.”

Para Couto Junior, embora as linhas de pesquisa tenham se transformado ao longo dos anos, parte importante da herança de Cerdeira permanece na maneira como o trabalho científico é realizado no laboratório. “Hoje a gente faz coisas bem diferentes do que ele fazia, apesar de usar os mesmos equipamentos. Mas o que ficou dele é a forma como a gente trabalha, a forma como a gente faz os experimentos, a seriedade com que a gente busca fazer nosso trabalho”, afirma.
A própria evolução tecnológica da área ajuda a dimensionar a trajetória de Cerdeira. Quando o docente iniciou seus estudos, os pesquisadores trabalhavam principalmente com materiais semicondutores em escala macroscópica. Com o avanço das tecnologias, a pesquisa passou a incorporar estruturas cada vez menores, chegando aos materiais em escala nanométrica. “A pesquisa envolve investigar como os átomos interagem com a luz e como os elétrons se comportam nesses materiais, conhecimentos fundamentais para tecnologias como lasers, LEDs e outros dispositivos eletrônicos”, explica.
A trajetória acadêmica de Cerdeira foi marcada também pela atuação internacional. Foi pesquisador convidado do Instituto Max Planck de Pesquisa dos Sólidos, da Alemanha, e cientista convidado dos Laboratórios Bell, nos Estados Unidos, entre 1990 e 1991. Na Espanha, atuou como professor convidado na Universidade Autônoma de Madri e na Universidade de Valência, além de ter sido pesquisador convidado do Instituto de Ciência de Materiais de Barcelona, ligado ao Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (ICMAB-CSIC), entre 2000 e 2002.
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