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Programa Professor Especialista Visitante amplia diversidade de saberes

Edição mais recente da iniciativa da Pró-Reitoria de Graduação incorporou bonificação para pessoas pretas, pardas e indígenas

A diversidade tem muitas maneiras de chegar à sala de aula. Pode vir da experiência acumulada por quem passou décadas fora da universidade, dos conhecimentos construídos em comunidades tradicionais, da trajetória de um jovem doutor que acaba de concluir sua formação, ou ainda de saberes que atravessam as fronteiras entre ciência, tecnologia, arte e sociedade. É essa multiplicidade que o Programa Professor Especialista Visitante em Graduação (PPEVG) busca ampliar ao levar aos cursos de graduação profissionais, professores, mestres e pesquisadores com diferentes percursos e experiências.

Coordenado pela Pró-Reitoria de Graduação (PRG), o programa está em sua 27ª edição e seleciona, a cada semestre, 16 propostas apresentadas pelas unidades da Universidade. As vagas são distribuídas entre as quatro grandes áreas do conhecimento — Humanidades e Artes, Biológicas e Saúde, Exatas e Tecnológicas —, com reserva de quatro vagas para cada uma delas. Na edição mais recente, foram recebidas 25 propostas. Na edição anterior, foram 30 candidaturas.

“São propostas belíssimas, que visam e vislumbram o que nós temos de carente nos currículos da Universidade hoje”, afirma o professor Silvio Consonni, coordenador do Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem [ea]² e presidente da comissão responsável pela seleção do programa.

Pessoa sentada à mesa usando polo cinza com crachá de identificação, óculos de armação escura e barba, com as mãos gestuculando enquanto fala, diante de uma xícara com estampa colorida, em ambiente de escritório com estantes de madeira ao fundo repletas de livros e materiais organizados.
O professor Silvio Consonni, presidente da comissão responsável pela seleção do programa: candidatos concorrem dentro de suas respectivas áreas

Nas duas últimas convocatórias, o programa incorporou dados de diversidade para fomentar políticas de equidade. Em caso de propostas igualmente qualificadas, a PRG passou a dar prioridade a candidatos que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas. “Não se trata de uma reserva de vagas: os candidatos concorrem dentro de suas respectivas áreas, mas podem receber a bonificação prevista nos critérios de seleção. Também há critérios de desempate relacionados a gênero, acessibilidade e inclusão”, explica Consonni.

É nesse contexto que se insere a participação da professora Maíra Rodrigues da Silva, primeira quilombola selecionada pelo programa. Bióloga de formação, ela construiu sua trajetória acadêmica na área de geociências e desenvolve pesquisas relacionadas a contaminação ambiental, mudanças climáticas, biodiversidade e impactos de desastres sobre comunidades e territórios tradicionais.

A relação de Silva com a Universidade, no entanto, começou muito antes de sua formação acadêmica. Ainda criança, ela acompanhava as atividades desenvolvidas pela Unicamp em comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sul do estado. Mais tarde, voltou por meio da extensão e, posteriormente, da pesquisa, até chegar ao mestrado e ao doutorado. Foi nesse percurso que passou a aproximar os conhecimentos científicos dos saberes construídos pelas comunidades tradicionais. “Eu costumo dizer que a Unicamp já estava na minha vida. Eu vim de dois mundos”, conta.

Em sua trajetória de pesquisa, ela passou a investigar a relação entre o meio físico e as comunidades que vivem nos territórios afetados por processos de contaminação e desastres ambientais. O trabalho também a levou ao tema das mudanças climáticas e à participação em projetos voltados à formulação de políticas públicas. Essa experiência ampliou sua forma de compreender a própria produção de conhecimento. “Os saberes ancestrais também são sofisticados, só que não dentro da nossa metodologia científica”, afirma.

Para ela, aproximar esses conhecimentos não significa substituir a ciência, mas criar possibilidades de diálogo entre diferentes formas de observar e compreender o território. É essa a perspectiva que ela leva agora à graduação como professora especialista visitante. Sua proposta está vinculada a uma disciplina interdisciplinar ligada à Comissão de Justiça Ambiental, que reúne estudantes de diferentes áreas para discutir impactos ambientais, ciência climática, saúde, justiça climática e resiliência das comunidades.

A disciplina já começou a ser ministrada e, depois de uma primeira chamada que reuniu 29 estudantes, chegou a cerca de 70 inscritos, oriundos de diferentes cursos, incluindo Engenharias, Física e Geociências. A proposta é que cada área contribua para a discussão a partir de seus próprios conhecimentos, em um movimento de troca que também permita olhar para as práticas desenvolvidas nos territórios tradicionais.

Três fotografias apresentando uma pessoa em diferentes ângulos e momentos: na primeira, de perfil à esquerda, usando óculos de armação preta, blusa branca, lenço estampado em laranja e bege preso ao cabelo, brincos dourados e pulseiras em tons metalizados; na segunda, de frente, com mesma indumentária e acessórios, com mão direita levantada em gesto de fala; na terceira, de perfil à direita, em ambiente com plantas verdes ao fundo, mantendo óculos, blusa clara, lenço laranja, brincos e pulseiras metalizadas, com expressão frontal e sorriso.
A professora Maíra Rodrigues da Silva, primeira quilombola selecionada pelo programa: criar possibilidades de diálogo entre diferentes formas de observar e compreender o território

Diferentes portas de entrada

Segundo Consonni, a diversidade buscada pelo programa não se limita à origem ou à formação acadêmica dos candidatos. O professor especialista visitante não precisa necessariamente ter título de doutor: também pode ser selecionado um profissional de notório saber, desde que atenda aos critérios estabelecidos pelo programa.

Essa abertura permite, por exemplo, receber profissionais que atuam na indústria, especialistas ligados ao agronegócio, artistas e pessoas que construíram suas trajetórias em diferentes campos de atuação. Também pode representar uma oportunidade para pesquisadores em momentos de transição na carreira, como os que concluíram recentemente o doutorado ou um pós-doutorado.

A proposta apresentada pelas unidades precisa estar necessariamente vinculada a uma disciplina de graduação, que pode ser obrigatória ou eletiva. O professor especialista visitante também deve oferecer pelo menos uma atividade aberta à comunidade, que pode ir além dos limites da Universidade. A contratação tem duração de até cinco meses e é feita em regime temporário.

A professora Rosa Chaves representa outra dessas possibilidades de entrada. Aos 62 anos, ela chega à graduação da Unicamp depois de uma trajetória que passou pela educação infantil, pela coordenação pedagógica na rede municipal de São Paulo e pela pesquisa acadêmica. Doutora em Educação pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Chaves atua principalmente em questões relacionadas a infância, adolescência, gênero, relações raciais e violência.

Sua aproximação com a Unicamp teve início antes da participação no PPEVG. Em 2024, ela ministrou um curso de extensão voltado a professores da educação infantil, a convite de docentes da Faculdade de Educação (FE). Agora, pela primeira vez, está na Universidade como professora de uma disciplina de graduação.

“É uma oportunidade até para a gente flertar com a carreira acadêmica”, afirma. Para ela, a experiência representa um desafio e, ao mesmo tempo, a possibilidade de colocar em prática um estilo de docência que vinha sendo construída ao longo de sua trajetória.

A professora Rosa Chaves: objetivo da disciplina é discutir o corpo e as subjetividades negras sem restringir a abordagem à questão racial
A professora Rosa Chaves: objetivo da disciplina é discutir o corpo e as subjetividades negras sem restringir a abordagem à questão racial

“Eu me aposentei como coordenadora pedagógica em 2017, mas eu continuo na ativa”, conta a professora, que concluiu o doutorado em 2023. Para ela, a participação no programa mostra que a docência universitária pode ser uma possibilidade mesmo para quem chega a essa etapa da carreira por caminhos diferentes. “É uma oportunidade muito boa para os recém-doutores. É bem interessante ter essa oportunidade de ministrar uma disciplina eletiva.”

A disciplina Corpo, Gênero e Sexualidade, vinculada à Faculdade de Educação Física (FEF), reúne estudantes de diferentes cursos e propõe uma abordagem interseccional para discutir a violência, as relações de poder e as diferentes formas de opressão. Na segunda aula, a turma já reunia cerca de 28 estudantes, vindos de áreas como Química, Matemática, Ciências Sociais, Pedagogia e Educação Física.

A diversidade da turma também dialoga com a proposta da professora. O objetivo é discutir o corpo e as subjetividades negras sem restringir a abordagem à questão racial, articulando-a a outras dimensões, como gênero, sexualidade e diferentes relações de poder. Para desenvolver as discussões, Rosa aposta no diálogo entre textos acadêmicos, cinema e outras linguagens artísticas.

A experiência também tem levado Rosa a estabelecer novas conexões na Universidade. Durante sua participação no programa, ela pretende dialogar com outras disciplinas e docentes, ampliando a discussão para temas como capacitismo e inclusão. Mais do que ocupar uma sala de aula, Chaves vê no programa uma possibilidade de ampliar as trocas entre a Universidade e a sociedade e aproximar diferentes experiências de formação. A mesma perspectiva aparece em sua proposta de extensão, que pretende alcançar não apenas estudantes da Unicamp, mas também profissionais e comunidades de municípios da região.

Um calendário permanente

O calendário do programa mantém-se em movimento contínuo. Enquanto os especialistas de um semestre desenvolvem suas atividades, a comissão já começa a trabalhar na seleção dos professores que atuarão no semestre seguinte. O próximo edital deve ser lançado em setembro, com um período de inscrições de aproximadamente 30 a 40 dias. A avaliação ocorre até o final de outubro, para que os resultados sejam divulgados antes do fechamento do caderno de horários do primeiro semestre de 2027.

Foto de capa:

Duas pessoas em ambientes externos distintos: à esquerda, pessoa em blusa branca de manga curta com gola franzida, em pátio com estrutura metálica ao fundo; à direita, pessoa em blusa branca de manga comprida com óculos e brincos laranja, próxima a plantas verdes, ambas sorrindo para a câmera.
As professoras Rosa Chaves (à esquerda) e Maíra Rodrigues da Silva (à direita): diferentes percursos e experiências

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