
O projeto de extensão “Vivência Ubuntu de Educação Antirracista”, metodologia desenvolvida na Unicamp e uma das frentes de pesquisa do grupo Uhayle, vai chegar a novas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) de Campinas. O projeto esteve entre os temas apresentados na abertura do Fórum Permanente Saúde da População Negra, Vidas Negras Importam, realizado nesta quarta-feira (20 de maio), no Centro de Convenções da Unicamp.
A idealizadora e coordenadora do projeto, Débora de Souza, professora da Faculdade de Enfermagem (Fenf), coordenadora da Comissão de Diversidade Étnico-Racial da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DEDH) e uma das organizadoras do fórum, destaca que a metodologia, já aplicada em três turmas da rede municipal de saúde, entrará em uma nova fase. “Vamos fazer mais duas turmas este ano e outras três ou quatro no ano que vem. A ideia é expandir para chegar às redes SUS do Estado e, quem sabe, do país”, conta.

Baseada nos chamados “4 Rs” — reconhecer, romper, resistir e reparar —, a metodologia, inspirada no conceito africano Ubuntu, associado à coletividade, ao cuidado e à interdependência entre as pessoas, propõe uma formação antirracista voltada a estudantes e profissionais da saúde. A vivência já foi aplicada em setores do complexo hospitalar da Unicamp, incluindo o Hospital de Clínicas (HC), o Hospital da Mulher (Caism) , o Hemocentro, o Gastrocentro e o Centro de Saúde da Comunidade (Cecom), com foco no enfrentamento ao racismo institucional e outras formas de opressão nos ambientes de saúde.
Para Souza, o processo é fundamental para enfrentar práticas discriminatórias naturalizadas dentro dos próprios serviços. “Como esses profissionais vão trabalhar essas questões se eles próprios naturalizam essas práticas?”, questiona. “É preciso reconhecer determinadas ideologias, preconceitos, ideias limitantes e práticas institucionais. Depois, resistir por meio do trabalho coletivo, das ações afirmativas e das políticas públicas, para então reparar e reconstruir.”
O grupo Uhayle, ressalta, conquistou recentemente financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Somos um dos poucos projetos do país que conseguiram a aprovação dessas duas fontes de financiamento”, comemora.
A terapeuta ocupacional Mariana Rossi Avelar, que representou a Secretaria Municipal de Saúde no evento, explicou que a parceria começou dentro do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde Equidade), iniciativa do Ministério da Saúde voltada à formação em equidade e interseccionalidade, iniciada em 2024. “Nós, trabalhadores do SUS, também fomos socializados nesse contexto estrutural. Não à toa, muitos usuários relatam violências e constrangimentos nos serviços”, ressaltou.
Resiliência
O evento reuniu pesquisadores, profissionais da saúde, estudantes e representantes de movimentos sociais para discutir estratégias de promoção da equidade racial na saúde pública e fortalecer a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), contou com a participação online da professora e pesquisadora Chyrell D. Bellamy, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

Referência em estudos sobre saúde mental, cuidado comunitário e população negra, Bellamy destacou a importância de reconhecer a diversidade e construir políticas de cuidado conectadas às realidades das comunidades atendidas. “Pessoas negras não são uma coisa só”, destacou. Bellamy defendeu que universidades e profissionais da saúde precisam desenvolver práticas mais próximas das populações vulnerabilizadas. “A pesquisa deve ir aonde as pessoas estão.”
A pesquisadora acrescentou um quinto “R” para ser pensado, o da “resiliência”. Ela chamou a atenção para a expectativa social de que mulheres negras sejam “sempre fortes e resilientes”, sem que suas próprias necessidades de cuidado sejam consideradas.
Novos passos
O fórum, organizado pelo Instituto Negras em Ação em parceria com setores da universidade e da rede pública de saúde – iniciativa que integra os Fóruns Permanentes da Pró-Reitoria de Extensão Esporte e Cultura (Proeec) – teve como objetivo ampliar a visibilidade do debate sobre racismo na saúde e fortalecer espaços de discussão voltados à população negra.“Temos tido avanços, mas em passos muito pequenos. Por isso, precisamos continuar promovendo esse tipo de debate”, destacou Lais Helena Cardoso, que comanda o instituto.
A pró-reitora Sylvia Furegatti, da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec), defendeu que a saúde da população negra seja tratada como uma questão urgente dentro das universidades e das políticas públicas. “Eu represento uma pró-reitoria que tem a diversidade no seu DNA. Essa representatividade cultural precisa ser fortalecida, e a gente só vai conseguir fazer isso a partir da urgência, com gestores, pesquisadores, professores e colegas.”

“Eu venho da área artística e cultural e acredito que uma das primeiras formas de representação da população negra se dá pela arte e pela cultura. A cor negra é extremamente importante em variadas culturas. Precisamos fazer com que essa simbologia seja mais reconhecida e espalhada, para que ela não seja confundida com aquilo que não queremos no nosso cotidiano simbólico e estético. E que esse simbólico passe imediatamente para o sentido estrutural, para as urgências que nos trazem até esse momento”, completou.
A professora Elisdete Santos, que comanda a Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DEDH) da Unicamp, destacou ainda a importância da criação de redes de acolhimento e fortalecimento da população negra dentro da Universidade. “É muito importante conhecer, como mulher negra nordestina, uma comunidade onde eu possa ser acolhida”, afirmou. “Isso faz parte de entender que a minha vida importa.”
O médico sanitarista Pedro Tourinho, que também participou da mesa de abertura, destacou que “a saúde da população negra é atravessada por questões genéticas e biológicas, mas, antes de mais nada, pelas consequências do racismo, da exclusão social e da segregação histórica”.
“Precisamos garantir que as nossas mães negras não morram mais do que as demais mulheres neste país. Precisamos garantir acesso a medicamentos e serviços de saúde e reconhecer que a própria ciência que praticamos também é atravessada por recortes de raça e classe”, completou.
Foto de Capa
