A extensão universitária ocupa cada vez mais espaço no centro da formação acadêmica. É a partir dessa percepção que representantes da Unicamp, da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) debatem, em um evento de dois dias, aberto nesta segunda-feira (4 de maio), temas como a curricularização das atividades extensionistas e a busca de novas formas de articulação entre universidade e sociedade.
Na abertura da quarta edição do “Encontro de Cultura e Extensão das Universidades Estaduais Paulistas”, realizado no Centro de Convenções da Unicamp, Sylvia Furegatti, pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec), destacou o caráter coletivo da iniciativa e o papel das universidades estaduais paulistas na consolidação das políticas de extensão. “A proposta é compartilhar experiências e fortalecer esse campo dentro das universidades”, afirmou.


Segundo Furegatti, o encontro também representa a continuidade de um processo iniciado em 2023, quando a primeira edição foi realizada na própria Unicamp. Depois, o evento passou pela Unesp e pela USP antes de retornar a Campinas. “A extensão universitária tanto está consolidada nas suas bases quanto precisa o tempo todo ser ratificada e reinventada”, ressaltou.
Furegatti também defendeu uma compreensão ampliada do conceito de cultura. “A Unicamp é a única das três universidades que reúne esporte, cultura e extensão na mesma pró-reitoria. Acho isso fundamental, porque políticas de cultura e de extensão sempre caminharam muito próximas. O esporte também está imbuído dessa dimensão cultural. Quando falamos de cultura, não estamos falando apenas das artes, mas também de cultura científica, acadêmica e do esporte. Então, ter esse ‘E’ a mais nos diferencia e mostra que a Unicamp tem a intenção de consolidar uma política própria para o esporte. Essa é a nossa diretoria mais jovem, ela tem cinco anos”, completou.
A curricularização da extensão, exigência que determina a inclusão de atividades extensionistas nos currículos da graduação, apareceu como um dos principais temas do encontro. Para a pró-reitora da Unicamp, essa mudança na concepção da formação universitária “pode ser lida como a maior revolução na formação acadêmica dos estudantes do Brasil”.”
O pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira, destacou que o processo ainda enfrenta desafios conceituais e institucionais e que um dos principais problemas está na própria heterogeneidade das concepções de extensão dentro das universidades. “Existem correntes que associam a extensão ao assistencialismo, e outras que defendem uma abertura conceitual maior, incluindo empreendedorismo e inovação.” Para ele, essa diversidade dificulta tanto o debate acadêmico quanto a formulação de políticas institucionais mais consistentes.

Oliveira também chamou a atenção para o risco de uma curricularização meramente burocrática, feita apenas para cumprir exigências formais. “As universidades ainda precisam construir mecanismos mais sólidos de incentivo, financiamento e avaliação das atividades extensionistas”, afirmou. Entre os desafios apontados pelo pró-reitor estão a ausência de métricas capazes de medir o impacto social da extensão universitária e a dificuldade de ampliar a escala das ações desenvolvidas pelas universidades. “O que vemos muitas vezes são projetos locais extremamente importantes, mas ainda pouco escaláveis”, observou.
O pró-reitor de Extensão Universitária e Cultura (Proec) da Unesp, Raul Borges Guimarães, defendeu que a extensão universitária deve ser entendida também como produção de conhecimento e não apenas como atividade complementar. “A extensão é uma forma de fazer ciência, não é uma via de mão única. Ela produz conhecimento compartilhado.”
Segundo Guimarães, a curricularização impulsionou fortemente o crescimento das ações extensionistas na Unesp. “Quadruplicamos o número de projetos e ações desde a implementação da curricularização”, afirmou. Até o final de 2026, destacou, cerca de 30 mil estudantes da universidade deverão participar de atividades extensionistas.
A programação do evento, que termina nesta terça-feira, inclui debates sobre internacionalização da extensão, acessibilidade, inserção curricular, cultura, esporte, divulgação científica e inovação social, além de uma mostra de projetos extensionistas desenvolvidos pela Unicamp. O encerramento contará com o lançamento de um livro da professora Marli Quadros Leite, ex-pró-reitora de Cultura e Extensão da USP.
Foto de capa:
