Como parte da celebração do Mês das Mulheres, a Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec) da Unicamp homenageou nesta quinta-feira (19) a antropóloga Sandra Benites, a primeira indígena a comandar uma diretoria na Fundação Nacional de Artes (Funarte). Pesquisadora e ativista do povo Guarani, Benites destacou os desafios de ocupar um espaço institucional pouco familiarizado com a realidade indígena. “O desconhecimento sobre a questão indígena é marcante, então o processo de acolher e ser acolhida é contínuo”, afirmou a diretora, que comanda a área de Artes Visuais.

Benites ressaltou ainda a importância do diálogo entre diferentes saberes dentro da gestão pública. “Eu levo outro olhar, mas também aprendo com o conhecimento técnico das pessoas que já estão ali. É uma troca constante”, afirmou a antropóloga, que construiu uma trajetória marcada pela defesa dos direitos dos povos indígenas, especialmente nas pautas de território e educação.
Ao longo de sua história, Benites atuou como professora em escola indígena, integrou a Associação Indígena Guarani e Tupinikin (AITG), em Aracruz (ES) e foi coordenadora pedagógica de Educação Indígena em Maricá (RJ), desenvolvendo projetos junto a aldeias guaranis. Formada pela Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), concluiu o mestrado e o doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A diretora destacou que sua trajetória é resultado de um processo coletivo, construído a partir da escuta e da troca com outras mulheres. “A minha força para chegar até aqui vem dessa busca de escutar outras mulheres, indígenas e não indígenas, e de construir alianças, sem perder a minha base, que é a educação que recebi da minha avó e a minha ancestralidade”, ressaltou.


Para Benites, a educação deve ser entendida como um processo de união. “Para se somar com outras mulheres, é preciso pesquisar, compreender e, principalmente, escutar”, enfatizou. Segundo ela, esse caminho envolve também o desafio de transitar entre diferentes línguas e mundos. “Eu sempre busco formas de utilizar a minha língua e, ao mesmo tempo, compreender outras.”
Durante a homenagem, ela também refletiu sobre os desafios enfrentados pelas mulheres, especialmente as indígenas, para acessar os espaços acadêmicos e neles permanecer. “Estar na universidade não é uma tarefa fácil. Muitas vezes, a nossa presença é invisibilizada”, afirmou. “E, no caso das mulheres indígenas, isso se intensifica.” Segundo ela, ocupar esses espaços não pode ser encarado como uma conquista individual. “A nossa presença não é só para nós. É para os nossos filhos, para a nossa comunidade. A gente carrega o nosso povo junto”, disse.
Na abertura do evento, que contou com apresentação do coletivo Arte Indígena do Povo do Alto Rio Negro (AM), a pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura, Sylvia Furegatti, destacou que a homenagem vai além do reconhecimento individual e aponta para a necessidade de mudanças estruturais. “Queremos que essas presenças em lugares de decisão provoquem transformações reais, para além do discurso”, afirmou.

A homenagem foi estendida simbolicamente a todas as mulheres presentes, em reconhecimento às trajetórias, aos desafios e às conquistas que marcam o cotidiano feminino dentro e fora da Universidade.
No dia 26, às 10h30, no Auditório do GGBS, o Mês da Mulher da Proeec vai homenagear Maria Alice Setubal, conhecida como Neca Setubal, doutora em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). Autora de diversos livros, artigos e resenhas, recebeu o Prêmio Jabuti em 2006, na categoria Didático ou Paradidático do Ensino Fundamental e Médio, pelo livro “Cortes e Recortes da Terra Paulista”.
A pró-reitora destacou que, embora atuem em campos distintos, as homenageadas compartilham uma mesma perspectiva sobre o papel da educação. “Há um ponto comum, que é a valorização de uma educação que combina tradição e inovação como premissa cidadã, algo que dialoga diretamente com o papel da Universidade e da extensão.”
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