Edições Anteriores | Sala de Imprensa | Versão em PDF | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 299 - 29 de agosto a 4 de setembro de 2005
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Pesquisa relaciona compulsão alimentar e estado de ansiedade
As muitas vantagens do uso do gás natural nas indústrias
Surge uma nova língua: o "português-tapirapé'
Nas placas comerciais, a história de São Tomé

Pesquisa relaciona compulsão alimentar a estado de ansiedade

A psicóloga Ione Magarida de Souza Coletty: "Sensação de angústia e culpa" (Foto: Antoninho Perri)Pouco estudado, mas invariavelmente presente em grande parte dos casos de obesidade, o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), começa a ser desvendado por especialistas. Estudo recente realizado na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp pela psicóloga Ione Margarida de Souza Coletty acrescentou mais uma peça ao quebra-cabeça. A psicóloga relacionou o transtorno ao estado de ansiedade de adolescentes obesos e com sobrepeso, e constatou que os indivíduos do grupo identificado com o distúrbio apresentaram níveis significativamente maiores de ansiedade e de obesidade. “Supõe-se que exista um círculo vicioso, pois a pessoa ansiosa pode desenvolver o TCAP e, conseqüentemente, a obesidade, que por sua vez pode levar à ansiedade”, explica.

Como integrante de um grupo de medicina preventiva da Unimed regional Baixa Mogiana, Ione perseguiu sua teoria de que a ansiedade estaria diretamente relacionada ao transtorno. E conseguiu. Em sua dissertação de mestrado “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) e ansiedade em adolescentes obesos”, orientada pelo professor Francisco Baptista Assumpção Júnior, observou que os graus maiores de ansiedade mostraram-se associados à compulsão alimentar, abrindo caminho para muitas outras abordagens. Embora ainda não conste dos manuais, trata-se de um distúrbio pertencente à família dos transtornos como anorexia e bulimia – também relacionados à alimentação (no primeiro ocorre a perda do apetite e, no segundo, há um exagero mórbido do apetite seguido por comportamentos compensatórios inadequados).

O TCAP caracteriza-se, principalmente, pela ingestão recorrente de alimentos – doces e salgados ou alternando um e outro – por um período limitado em uma quantidade maior do que a pessoa consumiria em estado normal, acompanhado de uma perda de controle sobre os impulsos para comer. “Depois de comer muito, a pessoa tem a sensação de angústia e culpa. Se isto ocorre pelo menos duas vezes na semana, já se pode diagnosticar o transtorno”, argumenta a psicóloga. Na população obesa, a incidência do TCAP está entre 30 e 40% e, na população em geral, também se observa a anomalia entre 2 e 3%.


As muitas vantagens do uso do gás natural nas indústrias

Quarenta e um milhões de metros cúbicos de gás natural são o volume anual necessário para substituir completamente o uso do óleo combustível e da lenha em 30 indústrias – dos mais variados setores – do Estado do Mato Grosso do Sul, segundo apontou estudo realizado pelo físico Conrado Augustus de Melo. Por outro lado, a redução de emissões de CO2 (gás carbônico) com esses investimentos representariam 146 mil toneladas por ano. Os cálculos dão a dimensão exata da necessidade de políticas de expansão para o setor que cresce a cada ano, embora seja considerado ainda em fase embrionária.

O físico fez as estimativas para sua dissertação de mestrado “A expansão do sistema de distribuição de gás natural no Brasil: a dinâmica dos investimentos, da renda e das emissões de CO²”, orientada pelo professor Sinclair Mallet-Guy Guerra, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp. Segundo apurou, o consumo do gás natural praticamente dobrou em dez anos. No Balanço Energético Nacional de 2004, consta que o consumo saltou de 2,9% em 1996 para 6% em 2003. Isto por conta do aumento da disponibilidade, principalmente pela entrada do gás boliviano por meio do gasoduto Bolívia-Brasil, e com a descoberta na bacia de Santos – cuja exploração será iniciada em 2007.

Para a simulação dos investimentos, o físico utilizou o software Stella Research que permite a realização dos cálculos — com um caráter de sistema dinâmico — de forma simples, além de possuir funções já programadas nas quais as equações são colocadas de maneira implícita. No período de análise, Melo tomou como base o início de investimentos em 2005, e término em 2020.

O gás natural é um gás inodoro e incolor, não-tóxico e mais leve que o ar. É uma fonte de energia limpa, que pode ser usada nas indústrias, substituindo outros combustíveis mais poluentes, como óleos combustíveis, lenha e carvão. Desta forma ele contribui para reduzir o desmatamento e diminuir o tráfego de caminhões que transportam óleos combustíveis para as indústrias.


Surge uma nova língua: o ‘português-tapirapé’

Adeia tapirapé e desenhos feitos por crianças: fusão de elementos (Fotos: Divulgação)Ensinar a Língua Portuguesa aos índios sem interferir nos costumes e na cultura do povo é um dos grandes desafios atuais na formação educacional indígena. Desafio que a lingüista Maria Gorete Neto sentiu na pele. Convidada a lecionar a disciplina de Língua Portuguesa, como segunda língua, na aldeia dos Tapirapé, no Mato Grosso, Maria Gorete acabou permanecendo três anos em contato direto com este povo, de 1999 a 2001. O resultado da experiência levou a pesquisadora a analisar os textos escritos em português dos adolescentes e jovens de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental e chegar à conclusão de que existe um “português-tapirapé”. “Embora sejam totalmente compreensíveis a qualquer falante do português, os índios carregam uma marca de identidade muito forte nos textos”, explica.

Pelo menos três características identificadas nas 30 redações livres e desenhos analisados pela lingüista estão descritas em sua dissertação de mestrado “Construindo interpretações para entrelinhas: cosmologia e identidade étnica nos textos escritos em português, como segunda língua, por alunos indígenas Tapirapé”, orientada pela professora Marilda do Couto Cavalcanti. Uma das questões abordadas pela pesquisadora é aquela que chamou de “etnicização” do português. Ela explica, por exemplo, que a mobilidade sintática no “português-tapirapé” é flexível, assim como ocorre na língua Tapirapé. As frases “Estou com fome muita” ou “Índio muito joga bola animado” são perfeitamente aceitáveis dentro dos padrões de escrita e oralidade dos índios.

Outro aspecto foi a presença incisiva de elementos da cosmologia Tapirapé nos textos. “As relações de partilha e a alegria associada à abundância de comida e de terra – características do povo – aparecem a todo instante na escrita”, comenta Maria Gorete. Os relatos das invasões de terra, discussões sobre direitos indígenas, ameaça de morte pelos posseiros, enfim, questões relacionadas às necessidades de sobrevivência dos índios, e os conflitos com os não-índios, são assuntos recorrentes nas redações.

A terceira marca, e talvez a mais importante observada nos textos, refere-se à identidade indígena. “Por um lado, os aspectos da cosmologia constantes nos textos apontam para um modo Tapirapé de ver e agir no mundo. Tais aspectos os diferenciam e auxiliam a construir sua identidade étnica em contraste a outros povos. De outro lado, as características aparentes nos textos denotam um português-tapirapé com uma função identitária, diferente do português considerado ‘padrão’ e de outras variedades desta língua. É um português específico que traz à tona o fato dos povos indígenas apropriarem-se e moldarem a Língua Portuguesa ao invés de aceitá-la passivamente. Apesar de utilizar a língua historicamente imposta, os alunos ‘preservam’ suas especificidades”, esclarece. Neste sentido é que a lingüista defende políticas lingüísticas que garantam o ensino e a valorização das múltiplas variedades do português sem que haja discriminação para com nenhuma delas.


Nas placas comerciais, a história de São Thomé

Aspectos da cidade mineira de São Tomé: esoterismo e religião (Fotos: Divulgação/Wagner Magalhães)Cidade mística, famosa por suas pedras, São Thomé das Letras, em Minas Gerais, carrega em sua história elementos com variadas conotações. Na década de 1970 – quando foi emancipada – a cidade mineira ganhou projeção por conta de sua ligação com o esoterismo – segundo os ufólogos, o município seria o “portal de entrada do cosmos”. A partir das notícias veiculadas na mídia nesse período, o perfil da cidade teria sido reconfigurado. Contudo, a dissertação de mestrado “Nas letras de São Thomé: uma análise semântica histórico-enunciativa dos nomes dos estabelecimentos comerciais de São Thomé das Letras”, apresentada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, indica um contexto diferente.

Ao percorrer a cidade e analisar os nomes de estabelecimentos comerciais, a lingüista Jocyare Cristina Pereira de Souza não comprovou a hipótese de que a entrada do comércio esotérico, nos anos 1980, resultaria em um enfraquecimento da Igreja Católica e, conseqüentemente, da fé de seus habitantes. Deu-se o contrário. “Na verdade o embate não era religioso, mas econômico, uma vez que a exploração e preservação do ambiente natural seriam as causas do confronto entre barões da pedra, comerciantes e microempresários do turismo ecoesotérico”, constatou.

O trabalho da lingüista se baseia na teoria denominada “semântica do acontecimento”, preconizada pelo orientador da pesquisa, professor Eduardo Guimarães. A teoria permite compreender a história por meio da linguagem e dos nomes de estabelecimentos comerciais atuais. Jocyare chegou a pesquisar desde meados do século XVI. “A história de formação e ocupação de São Thomé das Letras é de certa forma a história do Estado de Minas Gerais durante o ciclo do ouro. Neste momento, configura-se o Estado brasileiro e se definem as relações humanas entre índios, negros e brancos”, explica.

A pesquisadora examinou nomes de 97 pontos de comércio entre hospedagens, alimentação, serviços gerais, vestuário e artesanato – no espaço compreendido entre a Praça Barão de Alfenas e a Praça do Rosário, nas ruas laterais e transversais – e constatou 13 nomes com a temática católica, 42 enunciando o esotérico, e 45 identificando a história local ou da pátria.

Mesmo em quantidade menor, os estabelecimentos de cunho católico surgem em reação ao comércio esotérico, iniciado entre o final da década de 1970 e os anos 1990, seu apogeu. Apenas entre 1990 e 99 foram abertos 22 estabelecimentos esotéricos, e sete dos 13 católicos. É neste período que a mídia projeta o caráter esotérico de São Thomé das Letras para o mundo.

A pesquisa relata ainda que o esotérico é elemento preservado na nomeação e, depois, na renomeação da cidade. O nome “Letras” sustentaria o aspecto esotérico, vinculado ao misticismo. Anteriormente, a cidade era chamada de Serra das Letras. Nos estabelecimentos cujos nomes são esotéricos, predominam comerciantes vindos do Estado de São Paulo e um número menor oriundo de outros Estados e até de outros países.




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