Edição nº 560

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Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 06 de maio de 2013 a 12 de maio de 2013 – ANO 2013 – Nº 560

Tese sugere inventário turístico
para o município de São Simão



A atmosfera das poucas ruas só não surpreende quem passou a vida nas pequenas cidades. Típica do interior paulista, São Simão traz as heranças dos bons tempos do café com seus casarões e, mais do que isso, a aura de uma promessa não cumprida. Assolada por três epidemias, perdeu boa parte da população no final do século 19 e início do século 20, o prestígio de cidade sede da comarca e, mais tarde, a possibilidade de avançar no desenvolvimento que tiveram as cidades mais próximas à rodovia Anhanguera. No lugar de São Simão, Ribeirão Preto se estabeleceu como pólo regional.

Mal nenhum. A cidade manteve as paisagens e principalmente o sossego que hoje é patrimônio, verdadeiro tesouro. Peculiar, São Simão tem um pequeno teatro com características de teatro de ópera, inaugurado em 1890. É uma das poucas cidades brasileiras que conhecem e vivenciam a arte japonesa do Butoh, por meio de um centro instalado na cidade desde 1997. Foi o local onde o gravador e desenhista Marcelo Grassman nasceu e passou a infância. As belezas naturais também são muitas e duas se destacam: a praia do rio Tamanduá e o Morro do Cruzeiro.

O que o município tem em comum a outros do Brasil que acreditam ter vocação turística, é um projeto de lei para que seja classificado como estância turística, em tramitação na assembléia do Estado desde 2011. Se esta é a vontade dos moradores e, principalmente, se a cidade está sendo planejada para receber quem vai a passeio são questões levantadas na tese de doutorado “Turismo Sustentável: uma proposta para São Simão”, de Viviane Panzeri. A turismóloga elabora um plano de desenvolvimento sustentável do turismo levando em consideração as premissas da Organização Mundial do Turismo.

De acordo com Viviane, hoje são mais de 60 estâncias no Estado de São Paulo e a classificação rende ao município vantagens na captação de recursos. São Simão estaria em uma fase embrionária do turismo, com a necessidade de elaboração de uma proposta que seja desenvolvida por uma equipe multidisciplinar a partir de um inventário tanto do município como de seu entorno. As entrevistas com os habitantes feitas ao longo da pesquisa sugerem que os moradores não estão envolvidos com a ideia e muitos sequer sabem do projeto em tramitação.

“A cidade não tem potencial para desenvolver os tipos de turismo que estão relacionados no pleito que seriam mais de 10”, observa. As possibilidades apontadas incluem: o turismo de aventura, ecológico, ecoturismo, turismo climático, paisagístico, histórico/cultural, religioso, desportivo, folclórico e artesanal, e para a terceira idade. O texto apresenta São Simão da seguinte forma: “O clima é privilegiado, em virtude das serras que a cercam. Água potável e cristalina é encontrada em abundância, o que a faz ter potencial para estância hidromineral, climática ou turística”.

Para Viviane, a começar da citação sobre a condição climática o equívoco do projeto é sem tamanho. “A proximidade ao Aquífero Guarani não pode servir de motivação para o turismo hidromineral porque faltam estruturas turísticas para tanto e, se na década de 1970 São Simão foi chamada de ‘Vale da Saúde’ pelo clima mais ameno, hoje por conta da cultura da cana-de-açúcar a cidade convive com as queimadas”.

A pesquisadora complementa que há apenas um hotel e uma pousada na cidade e que as grandes fazendas que poderiam servir aos visitantes foram transformadas em canaviais. “Também não há o que justifique o turismo folclórico ou artesanal já que em São Simão não há nenhum produto que seja típico a não ser a geléia de mocotó”, reitera.


Planejamento

Com a pesquisa, Viviane não quer dizer que o turismo não pode acontecer na cidade. Ela quer sim chamar a atenção para a necessidade de um planejamento. “No caso do ecoturismo, por exemplo, isso significa usufruir da natureza a partir de um estudo de impacto. Quanto ao turismo histórico/cultural é possível estabelecer uma rota da hospitalidade e lazer ou mesmo uma rota ‘dos pintores paulistas’ incluindo Cândido Portinari em Brodósqui e Bassano Vaccarini em Ribeirão Preto, mas falta a integração com as outras cidades. Da mesma forma ocorre com a modalidade de turismo religioso que precisaria ser estabelecido em conjunto com outros municípios”.

Em São Simão a agricultura além da canavieira é de eucalipto. O turismo também deveria estar relacionado com essas culturas, diz a pesquisadora. “Como seria desenvolver o turismo ao lado das culturas próprias da região?”, questiona. Viviane sugere a realização de um inventário turístico aprofundado e atualizado com a descrição de tudo o que há na cidade e em seu entorno. “A cidade tem áreas de proteção bastante interessantes para a criação de parques para visitação, mas faltam as políticas municipais e ambientais. Além do mais, o município precisa melhorar os índices de qualidade de vida, investir em capacitação da população por meio de cursos na área de turismo que podem ser realizados em redes de cooperação”.

Enquanto o projeto de Lei ressalta a consciência da comunidade local dos benefícios do desenvolvimento do turismo e “uma postura de incentivo à prática da atividade”, a tese aponta a direção oposta. “A população dos 13 bairros foi questionada sobre o turismo e identifiquei que a cidade não está envolvida. Hoje muitos moradores são migrantes que vieram para o corte de cana e se estabeleceram em bairros periféricos. O contato com a história, com a cultura, com o desenvolvimento da cidade por parte dessa parcela da população não é o mesmo. No geral os habitantes até gostam da ideia, mas o turismo não é uma prioridade. Por isso é tão importante envolver os habitantes que precisam ter vontade de participar de um projeto em que eles também são responsáveis”.

Publicação

Tese: “Turismo sustentável: uma proposta para São Simão – SP”
Autora: Viviane Minati Panzeri
Orientação: Carlos Roberto Espindola
Unidade: Instituto de Geociências (IG)