Jornal da Unicamp 182 -  29 de julho a 4 de agosto de 2002
Jornais anteriores
Unicamp Hoje
PDF
Acrobat Reader
Unicamp
2
 
Capa
Fragrâncias
Hormônio
Secador Ciclônico
Petróleo
Empresas Virtuais
Aids
Prêmio
Vida Acadêmica
Violência
Dança
Na Imprensa
Malária
Saúde
Embraer
Software

Literatura

Fragrâncias da floresta

Unicamp coordena projeto no Amazonas para extrair,
sem derrubar
o pau-rosa, a essência do mitológico Chanel nº 5

JOSÉ PEDRO MARTINS

Pau-rosa é a madeira que produz linalol e fragrâncias para a indústria de perfumaria, incluindo o mitológico Chanel nº 5. As técnicas tradicionais de extração são baseadas no corte do tronco da árvore. Estima-se que meio milhão de árvores da espécie já foram abatidas desde o início da exploração predatória na década de 30.

Um projeto coordenado pelo professor Lauro E. S. Barata, do Laboratório de Química de Produtos Naturais da Unicamp, estipula o uso de técnicas sustentáveis de extração e processamento do óleo essencial do pau-rosa (Aniba rosaeodora Ducke). Pelo método inovador, o óleo é obtido de folhas, não sendo necessária, então, a derrubada das árvores.

A equipe promoveu a prospecção de óleos essenciais de folhas de pau-rosa de cultivos existentes nos estados do Pará e Amazonas, com o apoio do Banco da Amazônia e da Bioamazônia. Os resultados da pesquisa, que teve a participação de João Ferraz, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), foram apresentados no Workshop Internacional IFEAT, em Buenos Aires, em novembro de 2001. O encontro reuniu representantes da indústria de perfumaria da França, Alemanha e Estados Unidos. De acordo com o pesquisador, a indústria aguarda apenas a produção do óleo extraído das folhas para aplicá-lo nas fragrâncias.

Em função dos resultados obtidos, o professor Barata apresentou um projeto ao Fundo Nacional do Meio Ambiente, prevendo a extração do óleo a partir do cultivo experimental em três áreas do Amazonas, nos municípios de Nova Aripuanã, Presidente Figueiredo e Parintins. O projeto será desenvolvido com produtores tradicionais de óleo de pau-rosa, que plantariam, em áreas de 30 hectares cada, 10 mil mudas da espécie, em consórcio com mandioca e 2.500 mudas de outras espécies aromáticas. O óleo essencial será obtido por poda das folhas e extração tradicional por arraste a vapor. A idéia é a de que, comprovada financeiramente a sua eficácia, a técnica de extração seja difundida em toda a Amazônia.

Os resultados econômicos e sociais esperados são significativos. Em função dos métodos insustentáveis de exploração, a produção anual de óleo de pau-rosa caiu de 450 toneladas em 1950 para as 50 toneladas atuais, o que representou o declínio de pessoal empregado de 30 mil para os 2 mil de hoje. Lauro Barata observa que, das cerca de 1.000 espécies conhecidas de plantas aromáticas existentes na Amazônia, somente uma, justamente o pau-rosa, é comercial.

As técnicas sustentáveis desen-volvidas, com a extração do óleo das folhas, poderão, segundo o pesquisador da Unicamp, ser aplicadas no caso de outras espécies aromáticas da região, como a copaíba, a preciosa e a oriza, aliás plantadas em consórcio com o pau-rosa nos cultivos experimentais propostos. Como acrescenta o professor, a principal conseqüência esperada, além do aumento substancial da participação brasileira no mercado mundial de perfumaria e cosméticos, que movimenta US$ 150 bilhões/ano, é finalmente a exploração sustentável da Amazônia, em benefício do planeta e da humanidade, como pede a Agenda 21 (veja texto nesta página).

Projeto do pau-rosa cumpre a Agenda 21
Entre o final de agosto e início de setembro a cidade de Johannesburg, na África do Sul, vai sediar a
Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. O encontro foi batizado de Rio + 10, porque será uma oportunidade para fazer o balanço dos dez anos da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro em 1992 e que aprovou, entre outros documentos, a Agenda 21.

Uma das constatações feitas por cientistas e órgãos públicos e privados de pesquisa, e que será ratificada na cúpula de Johannesburg, é que prosseguiu em escala mundial o desmatamento, ao contrário do que pedia o Capítulo 11 da Agenda 21 – “Combate ao desflorestamento” – com o apelo para que houvesse o “aumento da proteção, do manejo sustentável e da conservação de todas as florestas e provisão de cobertura vegetal para as áreas degradadas por meio de reabilitação, florestamento e reflorestamento, bem como de outras técnicas de recuperação”.

Um relatório da ONU, a ser apresentado em Johannesburg, confirma que a taxa de desflorestamento continuou nos anos 90, a um ritmo de 14,6 bilhões de hectares por ano, significando o desaparecimento de 4% dos bosques e florestas do mundo no período. O caso mais preocupante é o da Amazônia, a maior floresta tropical do planeta. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que 569 mil quilômetros quadrados, correspondendo a cerca de 15% da Amazônia, já foram destruídos, sendo urgente, portanto, a aceleração de políticas prevendo métodos sustentáveis de manejo na região.

Esta é exatamente a proposta contida no projeto coordenado pelo professor Lauro Barata, da Unicamp, estimulando o uso de técnicas sustentáveis de extração e processamento do óleo essencial de pau-rosa para a indústria de perfumaria.