Edição nº 558

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Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 22 de abril de 2013 a 29 de abril de 2013 – ANO 2013 – Nº 558

As variadas dimensões dos
Jogos dos Povos Indígenas

Estudo da FEF conclui que os JPIs contemplam
questões esportivas, culturais, sociais e políticas

Os Jogos dos Povos Indígenas (JPIs), como diz o nome, são eventos que se prestam à prática de jogos e à divulgação de manifestações esportivas e culturais. Em sua concepção, os objetivos para os quais foram criados não eram muito claros e nem os irmãos Terena – Mariano e Carlos – imaginavam o impacto que isso produziria na sociedade, nem como idealizadores que foram do projeto, em parceria com o Ministério do Esporte. Neste ano, em agosto, deve ocorrer a sua 12ª edição, em Cuiabá (MT), quando são esperados perto de 1.600 indígenas brasileiros de 40 etnias e dois representantes de 16 países.

Um estudo de doutorado da Faculdade de Educação Física (FEF) sobre esses Jogos, feito pesquisador Deoclecio Rocco Gruppi, conclui que, além de promoverem o encontro entre os povos indígenas e ‘brancos’, eles hoje atuam como uma celebração e reconhecimento de alteridade. É inclusive um momento de discussão dos problemas surgidos na aldeia. Também o reconhecimento dos Jogos já estava presente no artigo 217 da Constituição Brasileira de 1988, ao delinear que “é um dever do Estado proteger, resgatar, registrar e divulgar as manifestações culturais de caráter esportivo que se vinculem às raízes étnico-históricas”.

Carlos Terena, em entrevista a Deoclecio, apresentou-lhe o processo pelo qual a atividade passou até chegar à sua instituição. Segundo ele, há uma estreita relação entre as comunidades indígenas com o esporte e a realização de um sonho, bem como um espírito de lideranças que perpassou quase duas décadas expondo como é “mover as coisas para frente”. A criação de uma equipe de futebol, formada por estudantes indígenas, foi um marco para começarem a discutir outras questões políticas e a se politizarem, garante o líder indígena. Foram oportunidades de dar visibilidade a esse esporte perante as comunidades não indígenas e criar inter-relações com dirigentes políticos do Ministério do então Instituto Nacional de Desenvolvimento do Esporte (Indesp).

A primeira edição dos JPIs tornou-se realidade em 1996. Algumas das modalidades esportivas tradicionais da competição envolvem Jikunahati (futebol de cabeça), Kopü-Kopü (jogo de peteca), Rokrá ou Rõkrã (semelhante ao jogo de taco) e Tihimore (semelhante ao boliche), entre outras.

Ao falar dos significados dos Jogos, Carlos Terena afirma que hoje se percebem as novas relações que os indígenas podem ter com a sua sociedade e com as não indígenas. “Com isso, houve um fortalecimento da cultura dos povos indígenas.”

Os JPIs acontecem em âmbito nacional e já foram sediados em Goiânia (GO) em 1996, em Guaíra (PR) em 1999, em Marabá (PA) em 2000, em Campo Grande (MS) em 2001, em Marapanim (PA) em 2002, em Palmas (TO) em 2003, em Porto Seguro (BA) em 2004, em Fortaleza (CE) em 2005, em Recife/Olinda (PE) em 2007, em Paragominas (PA) em 2009 e em Porto Nacional (TO) em 2011. Não obstante serem organizados Jogos Regionais como os Jogos Interculturais de Campos Novos do Pareci (MT), Jogos Indígenas do Pará e Festa do Índio em Bertioga (SP), também os Jogos Culturais Indígenas de Rio das Cobras (PR) e a Semana Cultural Indígena da Terra Indígena de Marrecas – (PR) são outros exemplos dessas práticas corporais no país.

Nesse aspecto, Deoclecio apurou ser possível levar em conta as estruturas sociais no processo pelas quais passaram a ser relacionadas aos Jogos dos Povos Indígenas, que têm como característica a celebração, o encontro, o conhecimento de outros povos e o reencontro com outros, fazendo com que sejam reconhecidos por suas diversidades culturais.

Agora, tal reconhecimento pela comunidade não indígena, salienta o pesquisador, traz novas maneiras de relação, e questões como saúde, demarcação de terra e alimentação começam a ter outras dimensões nos debates. As suas condições de vida já são discutidas por lideranças indígenas e não indígenas, pelas novas configurações sociais, o que traz uma melhor interlocução para manifestações culturais amparadas pela Constituição.

“Esses Jogos refletem a diversidade de povos e de línguas faladas no país, demonstrando que não somos um povo uno e não temos só uma língua falada por este povo plural”, realça o doutorando. Atualmente, são catalogadas 305 etnias indígenas e 274 línguas diferentes no país. A língua ainda com a qual se comunica majoritariamente é a portuguesa.


História

A pesquisa de Deoclecio aconteceu no período de 1996 a 2011 das edições dos JPIs, ao passo que o trabalho de campo desenvolveu-se em Porto Nacional em 2011. Mas as primeiras aproximações do autor com a temática foram em sua carreira como professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste, em Guarapuava-PR.

Em 2007, ele participou de um projeto de extensão das Universidades Públicas do Paraná, dentro do projeto Universidade sem Fronteiras, intitulado “Integração, educação e ensino superior: educação para a saúde”. A iniciativa, financiada pela Fundação Araucária, buscou a ressignificação dos Jogos ‘Tradicionais’ da etnia Kaingang.

Era um grupo interdisciplinar. Nele, Deoclecio ficou responsável pela área de Educação Física. Os trabalhos foram feitos na Escola da Terra Indígena Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, a cerca de 100 km de Guarapuava. O contato com as lideranças indígenas de Rio das Cobras, o conhecimento da cosmologia Kaingang, seus rituais e os jogos ‘tradicionais’ inspirou o pesquisador a estudar mais aquela etnia, cuja população chega a 34 mil pessoas (um dos cinco povos mais numerosos do Brasil).

Em 2009, o projeto finalizou e Deoclecio foi aprovado no doutorado da FEF da Unicamp, com orientação da professora Maria Beatriz Rocha Ferreira. “A intenção era voltar-me às práticas corporais dos Kaingang”, relata. Em 2010 foi convidado para um projeto de pesquisa selecionado pelo Ministério do Esporte – “Jogo, celebração, memória e identidade: reconstrução da trajetória de criação, implementação e difusão dos jogos dos povos indígenas”. Nesse ano, dedicou-se à temática dos Jogos dos Povos Indígenas e suas práticas corporais.

O projeto era coordenado por Maria Beatriz (do Laboratório de Antropologia Biocultural – Labantropo da FEF) e pelas professoras Olga von Simson (do Centro de Memória Unicamp) e Vera Regina Toledo Camargo (do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo). De outra ponta, tinha como coordenadores indígenas os irmãos Terena (do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena). Foi então que conseguiu criar um acervo de memória dos JPIs, o qual chamou Banco de Dados e Imagens dos Jogos dos Povos Indígenas (www.labjor.unicamp.br/indio/galeria), que reúne material sobre o seu processo de constituição.

 

São cerca de quatro mil fotografias, recortes de jornais de época sobre os Jogos, transcrições de entrevistas feitas pelo Labantropo, Labjor e TV Unicamp com os dirigentes indígenas e não indígenas durante os Jogos Interculturais de Campo Novo dos Pareci-MT e os Jogos dos Povos Indígenas de Recife. O intuito era estudar as figurações e relações de poder.

Esse projeto incluiu a concepção de um site (www.labjor. unicamp.br/indio) com as edições dos JPIs, as práticas corporais nos Jogos, as etnias participantes, o grupo de trabalho, a indicação de sites sobre os JPIs e uma bibliografia das pesquisas. O grupo ainda organizou um Fórum Permanente na Unicamp e publicou o livro Jogo, Celebração, Memória e Identidade: Reconstrução da Trajetória de Criação, Implementação e Difusão dos Jogos dos Povos Indígenas (1996-2009).

A coordenadora do Labantropo elaborou em 2011 um projeto de pesquisa de campo para os XI Jogos dos Povos Indígenas de Porto Nacional, quando foram atualizadas informações do banco de dados e imagens, que pode ser acessado por pesquisadores com senha de acesso cadastrada previamente.

 

Censo

Conforme Deoclecio, os Jogos dos Povos Indígenas ainda são pouco difundidos. O que há são mais relatos antigos abordando “práticas corporais” na aldeia, tidas como ‘tradicionais’ (lutas, danças e jogos) – os Jogos Indígenas. Já os Jogos dos Povos Indígenas iniciaram com as primeiras publicações pela mídia em 1996.

As pesquisas acadêmicas começaram em 2001, com a professora Maria Beatriz. E o que tem publicado parte do seu grupo de pesquisa. Há, porém, alguns trabalhos isolados produzidos na UnB, UEMT, Ufam, Ufes e Uepa.

O Censo Demográfico de 2010, no que tange ao indígena, aborda o quesito cor ou raça. Então foi possível comparar e analisar três referências censitárias: 1991, 2000 e 2010.

Os primeiros resultados do último Censo revelaram que 817 mil pessoas se autodeclararam indígenas e que o crescimento no período 2000 a 2010 – 84 mil indígenas, representando 11,4% – não foi tão expressivo quanto o verificado entre 1991 e 2000, que foi de 440 mil indígenas (150%).

Para o doutorando, isso denota a falta de comprometimento do Estado com as questões indígenas. Ainda não há informações sistematizadas sobre o indígena brasileiro, como a diversidade de povos, as línguas faladas e a cultura. “Essa ausência também pode ser notada na educação escolar”, garante ele.

O seu estudo situa-se em um processo interdisciplinar ligando as áreas de Antropologia, História, Sociologia e Educação Física. A investigação levou em consideração a população atendida a partir de critérios como idade, sexo, número de participantes, modalidades estabelecidas, tanto nos Jogos Escolares Brasileiros quanto nos Jogos dos Povos Indígenas, além de várias outras questões.


Publicações
Tese: “Jogos dos povos indígenas: traje- tória e interlocuções”
Autor: Deoclecio Rocco Gruppi Orientadora: Maria Beatriz Rocha Ferreira
Unidade: Faculdade de Educação Física
Financiamento: Capes
Livro: Jogo, Celebração, Memória e Iden- tidade: Reconstrução da Trajetória de Criação, Implementação e Difusão dos Jo- gos dos Povos Indígenas (1996 – 2009)
Autores: Rocha Ferreira, M. B.; Camar- go, V.R.T; Sinsom, O. R. Von. (orgs.) 
Editora: Curt Nimuendajú, 2011