Edição nº 558

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Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 22 de abril de 2013 a 29 de abril de 2013 – ANO 2013 – Nº 558

A agropecuária, de vilã do efeito estufa
a sequestradora de carbono

Cepagri e Embrapa indicam que a recuperação de 19 milhões de hectares de pastagens degradadas diminuiria a emissão de 132 milhões de tCO2eq

Acusada de ser uma das vilãs do aquecimento global, a agropecuária pode reverter totalmente esse papel e se tornar uma grande sequestradora de carbono da atmosfera, contribuindo de maneira significativa para que o Brasil cumpra a proposta que apresentou na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15), em Copenhagen: a de reduzir, voluntariamente, a emissão de gases de efeito estufa (GEE) entre 36% e 39% até 2020 – índices que representam algo em torno de 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2eq). A simples recuperação de 19 milhões de hectares de pastagens degradadas diminuiria a emissão de carbono em 132 milhões de tCO2eq até o final desta década, ou 13% do total prometido na COP 15.

A previsão vem de um estudo pioneiro iniciado em 2010 e que está sendo desenvolvido pelo Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura) da Unicamp, com a coordenação do professor Hilton Silveira Pinto; pela Embrapa Informática Agropecuária, onde a coordenação é do pesquisador Eduardo Assad; e com a cooperação da Embrapa Cerrados. O projeto denominado “Mitigando emissões de gases na agricultura: bases para o monitoramento do Programa ABC” é financiado pela Embaixada Britânica e envolve mais de 60 pesquisadores e técnicos dos três centros de pesquisa. O primeiro relatório foi encaminhado em 1º de março aos ministérios do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O professor Hilton Silveira Pinto, diretor associado do Cepagri e coordenador do projeto, explica que o Programa de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (ABC) foi instituído por lei federal de 29 de dezembro de 2009, pregando a adoção de boas práticas agrícolas para diminuir a emissão de GEE. As ações de mitigação previstas na lei são o plantio direto sobre a palha; a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura-pecuária (ILP) e lavoura-pecuária-floresta (ILPF); a substituição de fertilizantes nitrogenados pela fixação biológica do nitrogênio em culturas como de soja, cana-de-açúcar, milho e feijão; e o reflorestamento.

“O plantio direto faz com que o solo absorva 500 quilos de carbono por hectare ao ano. E com as bactérias nitrogenadas, ao invés da utilização do adubo com nitrogênio, eliminamos a emissão de óxido nitroso, que é 300 vezes pior que o carbono na atmosfera”, exemplifica Silveira Pinto. “Por outro lado, temos hoje 50 milhões de hectares de pastagens degradadas no Brasil: não é um pasto cultivado, o gado é simplesmente levado para outro lugar quando acaba a grama natural. Recuperando essas áreas teremos o sequestro de meio quilo de carbono por quilo de grama alta.”

Outro aspecto realçado pelo diretor do Cepagri é que o país possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com 205 milhões de animais ocupando 20% da área continental. Segundo ele, as tecnologias já conhecidas de fertilização, plantio de espécies adequadas e manejo de solo e de pastoreio podem promover a elevação da produtividade vegetal e animal. “Atualmente, na maioria das pastagens, a relação é de 0,4 cabeças por hectare. Com a recuperação, o propósito é chegar a 1,4 cabeças por hectare, utilizando a mesma área e sem interferir no meio ambiente.”

Hilton Silveira Pinto lembra que o Brasil aumentou a produção de alimentos em 154% nos últimos 20 anos, enquanto a área expandida foi de apenas 25%, mostrando um avanço tecnológico sem precedentes no mundo. É um fato que credencia o país a utilizar esse conhecimento para diminuir as emissões de GEE. “No momento, nós do Cepagri e da Embrapa estamos indo a campo para colher os resultados da implantação das tecnologias propostas pelo ABC. Pegamos o trado, perfuramos o solo e trazemos as amostras para o laboratório – são de pastagens degradadas, de pastagens já recuperadas e de integração pecuária-lavoura-floresta. O monitoramento será repetido a cada cinco anos.”

Nesta primeira fase do projeto, as equipes percorreram as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, entre novembro de 2011 e dezembro de 2012. Coletaram 4 mil amostras de 232 áreas de pastagens mapeadas por imagens de satélite, a fim de quantificar seus estoques de carbono no solo e calcular a capacidade de sequestro do gás em pastagens produtivas. Uma das estimativas é de que o manejo adequado e a adubação em 15 milhões de hectares degradados corresponderão à redução de emissões de 83 a 104 milhões de tCO2eq até 2020 – um ganho adicional viria de 4 milhões de hectares da ILPF, com a recomposição de áreas de preservação permanente e implantação de agricultura orgânica e florestas comerciais.

Amazônia

Silveira Pinto afirma que no relatório entregue à Embaixada Britânica e ao governo federal ainda não consta a Amazônia, onde o trabalho de campo será iniciado agora em maio, com financiamento da CLUA (Climate and Land Use Alliance). “Em estudos anteriores do nosso grupo, restringimos as informações sobre a Amazônia por conta da polêmica de que a pecuária está invadindo a região e abrindo caminho para a soja – não realizamos o zoneamento agrícola, por exemplo, para não facilitar esta invasão. No caso dos gases de efeito estufa, a demora é por que se trata de um trabalho muito difícil, envolvendo veículos para transporte de toneladas de amostras de solo a serem trazidas para Campinas. Mas já temos uma equipe montada no Acre e depois estaremos em Roraima, Rondônia e faixa norte do Pará.”

De acordo com o coordenador, este projeto é contínuo, seguindo as metas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e, determinada a emissão de gases de efeito estufa pela agricultura regionalmente, a meta é levar esse controle ao nível das propriedades. “Queremos chegar à fazenda para observar a quantidade de tratores, caminhões, combustível consumido e também de adubos, num controle local que chamamos de nível três, ou Tier 3, de acordo com o IPCC. Há uma finalidade principal: o agricultor que se dedicar à produção com baixa emissão, usando novas tecnologias, poderá vir a ter acesso ao crédito de carbono, cujo valor é bastante razoável.”

Hilton Silveira Pinto admite que um grande problema para a aceitação das medidas de mitigação pelos produtores é o custo da recuperação da pastagem. “Já propusemos ao governo um financiamento inicial de 8 bilhões de reais para essa finalidade, mas houve pouca procura. Os grandes produtores se interessam mais em comprar gado, já que possuem áreas imensas. Por isso, estamos direcionando o programa para os pequenos produtores, que hoje fornecem entre 60% e 70% da alimentação básica do brasileiro e para os quais o crédito de carbono seria uma ótima fonte de renda alternativa. A ideia é introduzir novas tecnologias em quase 5 milhões de unidades de agricultura familiar, visando dobrar sua produtividade e diminuir a emissão de gases. Com isso, não teremos problemas com alimentos básicos no horizonte de 30 ou 40 anos.”

Plano Setorial ABC

O Plano Setorial ABC, idealizado pela Embrapa, surgiu a partir do inventário de gases de efeito estufa feito em 1996 e 2006 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que evidenciaram que uma parcela importante das emissões vinha das atividades da agropecuária. Neste inventário são computadas emissões em diversos setores da agricultura, notadamente de gases por fermentação entérica dos bovinos; de metano pelo cultivo de arroz irrigado; de variados gases pela queima da cana; de dióxido de carbono e de óxido nitroso (CO2 e N2O) pelos solos agrícolas a partir da aplicação de fertilizantes sintéticos e de resíduos agrícolas, etc. Estava bem sinalizado que, diante dos métodos de inventário determinados pelo IPCC (2006), as emissões da agricultura brasileira eram significativas.

Entre as ações já adotadas, destaca-se a criação pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) do Programa ABC e sua inclusão no Plano Agrícola e Pecuário 2010-2011. O objetivo é financiar os agricultores que adotem práticas adequadas e tecnologias e sistemas produtivos eficientes que contribuam para a mitigação dos gases de efeito estufa. O valor disponibilizado para 2010-2011 foi de R$ 2 bilhões de reais; para 2011-2012 chegou-se a R$ 3,15 bilhões; e para 2012-2013, R$ 3,4 bilhões.

O Programa ABC financia a recuperação de áreas e de pastagens degradadas; implantação e ampliação de sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta; correção e adubação de solos; implantação de práticas conservacionistas de solos; implantação e manutenção de florestas comerciais; implantação de agricultura orgânica; e recomposição de áreas de preservação permanente ou de reserva legal, dentre outras práticas que envolvam uma produção sustentável.

Comentários

Comentário: 

A ADUBAÇÃO VERDE PODE SER UTILIZADA NA RECUPERAÇÃO DE SOLOS DEGRADADOS NOS SEUS ATRIBUTOS FÍSICOS, QUÍMICOS E BIOLÓGICOS, ALÉM DAS ESPÉCIES LEGUMINOSAS FIXAREM NITROGÊNIO GRATUÍTAMENTE DA ATMOSFERA, SEQUESTRAR CARBONO, RECICLAR NUTRIENTES LIXIVIADOS, DESENTOXICAR O SOLO (FITORREMEDIAÇÃO), PROTEGER O SOLO DA EROSÃO, QUEBRAR O CICLO DE PRAGAS/DOENÇAS/NEMATÓIDES, REDUZINDO O USO DE DEFENSIVOS. ENFIM O USO DOS ADUBOS VERDES É A MELHOR SOLUÇÃO PARA O PROGRAMA ABC.