Edições Anteriores | Sala de Imprensa | Versão em PDF | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 303 - 26 de setembro a 2 de outubro de 2005
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Um pioneiro da videoarte

LUIZ SUGIMOTO

Masrco do Valle, que expõe com jovens talentos na CPFL: falando de sua trajetória, de Niemeyer e do sonho de um prefeito (Foto: Antoninho Perri)O crítico de arte Agnaldo Farias, que traz na bagagem experiências como a curadoria nacional da 25ª Bienal Internacional de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea do Rio Janeiro, selecionou trabalhos de dez artistas plásticos contemporâneos que atuam em Campinas para a exposição Afinidades Eletivas, aberta de 21 de setembro a 25 de novembro na sede da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). Nove artistas pertencem a uma nova geração de talentos e cinco deles são ex-alunos do Instituto de Artes (IA) da Unicamp; o outro expositor é Marco do Valle, professor do IA, do curso de arquitetura e do programa de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Afinidades Eletivas é um título que resume a proposta do projeto: se Farias escolheu os artistas expositores, cada um deles escolheu um nome de projeção nacional que guarda como referência e inspiração.

Entre os homenageados estão Daniel Acosta, Osvaldo Goeldi, Edouard Frapoint, e não-artistas como Clarice Lispector e Gil Vicente. O professor Marco do Valle, que a pretexto da exposição foi convidado a falar sobre sua trajetória artística e acadêmica, homenageia o poeta, artista gráfico e videomaker Walter Silveira. “Somos parceiros desde que montamos um ateliê (o único que eu tive) na garagem do pai dele em São Paulo. A primeira exposição de nossas vidas se chamava Poéticas Visuais, de 1977, fruto da influência dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, poetas concretistas, e de artistas como John Cage, Grupo Fluxus e Joseph Beuys”, conta.

Marco do Valle e Walter Silveira foram pioneiros da vídeo-arte no Brasil. A Performance da Santa, instalação de 1979, mostrava Nossa Senhora Aparecida dançando um bolero. Valle explica que a inspiração veio de um souvenir de plástico bastante popular de Aparecida do Norte, que era a imagem da santa dentro de um televisor com pés tipo “palito”. “Para a mostra, trabalhei imagem por imagem da santa, dando a idéia do movimento, e exibi um vídeo com a padroeira performática em um televisor da marca Colorado”, recorda o professor. Em seguida, quando a imagem foi despedaçada por um espectador revoltado e precisou ser restaurada, Walter Silveira lançou “A Virgem Reconstruída”. “Não havia desrespeito. Queríamos pensar a questão da arte popular ligada a mídia. Já paguei promessa em Aparecida e sou devoto da Imaculada Conceição”, assegura.

A primeira exposição individual de Marco do Valle em Campinas aconteceu em 1979 e se chamou Três pontos não colineares determinam um plano (Euclides) – um conjunto de esculturas feito de canos de PVC colocados sobre o plano. Outra individual em 1984, Vórtice, era uma referência a The Tub (1886), a mulher na bacia de Edgar Degas. Em 1985, veio sua primeira Bienal Internacional de São Paulo, relendo A Portadora de Perfume, de Victor Brecheret. “Na escultura que está na Pinacoteca do Estado, uma mulher carrega o vaso de perfume que vai ungir o corpo de Cristo. No meu trabalho, construí um vaso semelhante, com designer Arte Deco, a certa distância da escultura. Na instalação, com um tubo de latão e um vaporizador, espalho perfume na frente da escultura”, explica.

O artista destaca também sua participação na Sky Art Conference, em 1986, primeira comunicação via satélite de artistas brasileiros com colegas CVS-MIT (Boston e Toronto). Em 1987, Valle construiu a estrutura metálica que fica na praça central da Unicamp, que denominou Eixo paralelo ao eixo de rotação da terra. “É uma escultura que aponta para o centro de rotação das estrelas no céu”, esclarece. Como artista convidado da Bienal de 1989, Marco do Valle foi um dos quatro brasileiros que mereceram elogios do New York Times, com Topografias Artificiais – simuladas com chapas de aço onduladas formando um plano e construções de lençol de borracha. “O trabalho também fazia uma referência a Willys de Castro e Lygia Clark, era um pós-concreto-neoconcreto brasileiro”, define.

Sobre a produção mais recente, Marco do Valle cita Melancolia 3 (1995), projeto baseado na obra de Albrecht Dürer, e Zellig/Hiroshima (1997), lembrando os 50 anos do lançamento da bomba atômica. “É um vídeo em que apareço sendo maquiado, misturando-se essa imagem com o filme original da soltura da bomba. Tive a colaboração dos professores Hélio Sôlha e Carlos Fernandes. Ainda pretendo enviar esse trabalho para o museu de Hiroshima”, adianta. O artista menciona, ainda, A Gaiola de Faraday (1997), a respeito do cientista que descobriu que a tela impede a passagem de ondas eletromagnéticas. “A idéia foi criar isolamentos mentais impedindo a propagação de ondas. A vídeo-instalação tinha um televisor dentro da gaiola, transmitindo imagens de operações de laparoscopia (uma colaboração do professor Paulo Palma), e o outro aparelho do lado de fora, mostrando cenas de filmes eróticos”, descreve.

Bordadeira – Foi a mãe Antonia Lopes, bordadeira de alto nível, que bordava inclusive para o costureiro Clodovil, quem iniciou Marco do Valle na arte. “Ela me ensinou a desenhar e quis que eu aprendesse pintura. Meu primeiro quadro foi a reprodução de uma imagem da Praça dos Três Poderes em Brasília, com a escultura Os Candangos, de Bruno Giorgi. Depois de adulto, veria que minha história está um pouco resumida naquele quadro”, revela. O artista conta que até então sua vida era confortável – o pai tinha uma oficina e revenda de tratores –, mas a família passaria por dificuldades financeiras no início dos anos 70. Foi graças ao talento cultivado pela mãe que ele conseguiu empregos como desenhista mecânico e depois num escritório de arquitetura. “O estudo era uma preocupação distante”, recorda.

No entanto, uma visita ao Masp, quando viu exposições de José Resende e Rubens Gerchman, influiria decisivamente no destino de Marco do Valle. “Acabei conhecendo artistas como o próprio José Resende, Bavarelli, Carlos Fajardo e Wesley Duke Lee, meu avô artístico. Passava noites vendo Bavarelli pintar em seu ateliê e ele me aconselhou a fugir dos exercícios da escola de artes e optar pela arquitetura. Prestei vestibulares para arquitetura não com pretensão de elaborar projetos, mas porque queria viver como eles, dando aulas para sobreviver e com tempo para a arte”, afirma.

Como José Resende era professor da PUC de Campinas, Valle optou por vir para esta cidade, onde construiria também uma trajetória acadêmica. “Fiz três anos de história também e conclui o curso de arquitetura. Tinha perdido meu emprego como estagiário numa distribuidora de gasolina (ajudei a fazer projetos de vários postos da cidade), quando, em 1983, fui convidado pelo professor Bernardo Caro a participar da fundação do Instituto de Artes da Unicamp”, relembra.

Niemeyer – Mesmo sendo orientador de doutorados, Marco do Valle possui apenas o mestrado em artes, por uma decisão de foro intimo. “No Brasil, o docente só sobe na carreira somando títulos. Mas a tradição das artes diz que podemos chegar no máximo a mestre. Michelangelo era um mestre”, observa. Daí, sua opção pelo doutorado em arquitetura, quando decidiu entender porque Oscar Niemeyer, que faz um projeto como o da Pampulha, em seguida projetaria a arquitetura de Brasília. “Apesar do discurso de que Niemeyer sempre cria novas formas, a hipótese de minha tese é de que ele redesenhava as formas, trabalhando em cima de um repertório iniciado por Le Corbusier e por ele mesmo”, afirma.

A afinidade com as obras de Oscar Niemeyer fez com que Marco do Valle conseguisse certa proximidade com o arquiteto. O que levou outro arquiteto, Antonio da Costa Santos, a convidar o professor da Unicamp para assessorá-lo na Prefeitura de Campinas. O artista é responsável, por exemplo, pelo restauro do Palácio dos Azulejos, mas a principal missão delegada pelo prefeito foi a de convencer Niemeyer a projetar um novo teatro para a cidade. Costa Santos foi assassinado em 10 de setembro de 2001.

Valle guarda todos os detalhes da conversação com Niemeyer. O arquiteto chegou a fazer um desenho do teatro (publicado em seu último livro), mas em local diferente daquele pretendido pelo prefeito, pois a medida do terreno não permitia o distanciamento para que se observasse a forma externa da obra. “Depois da morte do prefeito, Niemeyer chegou a estabelecer em contrato o preço de R$ 700 mil pelo projeto, mais para testar a disposição dos sucessores em executar a obra. Nada aconteceu”, acusa. Há uma passagem que Marco do Valle nunca esquecerá: “Eu e Toninho passamos a manhã daquela segunda-feira conversando sobre o teatro, pois Niemeyer viria na quarta-feira a Campinas. O prefeito estava feliz e certo de que convenceria o arquiteto quanto ao local. Morreu naquela noite”.

Afinidades Eletivas

O professor Marco do Valle apresenta na exposição Afinidades Eletivas, na CPFL, a vídeo-instalação Scanner/Memory. Nela será apresentada a imagem de uma mulher nua, como um scanner que passa sobre o corpo projetado na pedra de mármore. Já o trabalho de seu homenageado, Walter Silveira, é uma recíproca, a tractana eletrônica intitulada Nervos de Aço para Marco do Valle.

Os jovens talentos escolhidos pelo curador Agnaldo Farias, ex-alunos da Unicamp, são Marcelo Moscheta, Fábio de Bittencourt, José Roberto Shwafaty, Pedro Hurpia e Vânia Mignone. Também participam da exposição os artistas Del Pilar Sallum, Ana Almeida, Luana Veiga e Cecília Stelini. A mostra fica aberta das 8h às 21h nos dias úteis, e das 10h às 22h nos finais de semana e feriados. A entrada é gratuita.

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Foto: Antoninho PerriFoto: Neldo CantantiFoto: Antoninho PerriFoto: Gustavo Miranda/Agência O GloboFoto: Antoninho Perri