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Jornal da Unicamp - Novembro de 2000

Página 19

MÚSICA

Violeiros a bordo

Aula sobre viola caipira foi um dos destaques do Festival de Artes do IA

Antonio Roberto Fava

Ao contrário do que muitos imaginam, a viola, tão usada por duplas de música sertaneja, não tem sua origem na roça, mas em Portugal: foi introduzida no Brasil pelos jesuítas, principalmente por José de Anchieta, servindo como mais um instrumento de catequese dos índios. Isto ocorreu por ocasião do descobrimento do Brasil. Acredita-se que a esquadra de Pedro Álvares Cabral já contava com alguns violeiros a bordo.

Um workshop sobre viola caipira fez parte da programação do 1º Festival do Instituto de Artes (Feia) da Unicamp, idealizado pelos alunos de graduação e pós-graduação dos cursos de Artes Cênicas, Artes Corporais, Artes Plásticas, Multimeios e Música. A proposta foi a de promover o intercâmbio dos artistas com a comunidade e a troca de experiências entre os eles próprios. Durante oito dias (de 8 a 15 de outubro), a arte extrapolou os limites do campus e ganhou as ruas da cidade e o Centro Cultural Evolução, levando emoção para um público que dificilmente teria acesso a essas atividades.

A exemplo das demais oficinas e workshops, o professor de viola Ivan Vilella tinha uma platéia basicamente de leigos. Contou que, nesses 500 anos, a viola evoluiu a ponto de existirem, hoje, modelos com mais de vinte afinações diferentes, acompanhando inúmeros gêneros de música. Predomina no País, evidentemente, a viola caipira. Os redutos de violeiros são as regiões Centro-Sul e Nordeste.

"É um instrumento que pode ser classificado de idiomático. Sob o ponto de vista rítmico, é bastante complexo em virtude da variedade de afinações, como se fosse uma outra língua. Possui linguagens muito próximas, embora diferentes", explicou o professor, mestrado pelo Departamento de Música do IA.

O número de cordas e a afinação variam de região para região do Brasil. Ela é afinada seguindo critérios rigorosos, como uma quinta abaixo da afinação do violino e uma oitava acima do violoncelo. É um instrumento extremamente melodioso. Há grandes talentos brasileiros, mas Vilela lembra que "jovens sem estudos musicais, muitas vezes, revelam enorme habilidade com o instrumento, dependendo do esforço e dedicação".

Abençoado Caruru, cateretê ou catira, pagode (não esse que está aí, massificado pela mídia) e Folia do Divino (ou de Reis) são alguns dos gêneros musicais ou manifestações folclóricas onde a viola tem papel preponderante, segundo o professor. Pode ser em solo ou com acompanhamento de outros instrumentos, principalmente de percussão. Dizem que o violeiro é uma pessoa abençoada, pois seu instrumento costumeiramente integra eventos religiosos. Também integra eventos profanos, sobrando ao tocador a acusação de pacto com o diabo. "Mas diz a lenda que, quando um violeiro morre, não há nada que o impeça de entrar no céu, tem livre acesso", conta Vilela.

A Festa do Divino, que acontece cinqüenta dias após o Domingo de Páscoa, celebra a descida do Espírito Santo para os cristãos. Ela é muito antiga, realizada em Portugal desde o ano de 1240. Considerada uma celebração meio profana, aos poucos foi sendo incorporada à religiosidade do povo brasileiro. Em Paraty (RJ), grupos de violeiros executam músicas sacras e do folclore regional para festejar o Boi Divino, com procissões e distribuição de comida aos pobres. O cateretê ou catira, ritmo indígena, é outro gênero de música e dança praticado principalmente no interior de São Paulo e Minas Gerais, onde a viola determina a evolução do espetáculo. "É o instrumento-mestre do evento", ressalta Ivan Vilela.

Outras lendas – Robert Johnson, possivelmente o maior blues man de todos os tempos, teria vendido a alma ao demônio para receber talento e habilidade ao violão. No supersticioso sul dos Estados Unidos do início do século, eram comuns os mitos demoníacos e este já faz parte da tradição do gênero. O fato é que Johnson, morto aos 27 anos, criou um estilo imitado até hoje por ícones do blue e também do rock, como Elmore James, Muddy Waters, Eric Clapton e Keith Richards, apenas para citar alguns.

No Brasil a superstição não alcança tal dimensão. Conta-se, contudo, que para aumentar seu talento o violeiro costuma "mexer os pauzinhos" com o diabo. E o talento lhe é conferido de acordo com o número de fitas coloridas que o instrumentista amarra no braço da viola.

Modelos de viola

É grande o número de modelos de viola no Brasil. Material de fabricação, quantidade de cordas e afinação variam de acordo com as regiões. As mais populares são a viola caipira e a viola-de-cocho. A de cocho, de fabricação caseira, tem cinco cordas e seu bojo é abaolado, sendo muito tocada em danças folclóricas como caruru e catira. A viola burguesa, muito difundida em Portugal, Açores, Madeira e também no Brasil, é montada com cinco ou seis pares de cordas de aço ou arame e sua afinação é a mesma do violão. Há também a viola de gamba, tocada com arco, como o violoncelo.

Como surgiu a trilha sonora

Adriana Miranda

No Feia debateu-se de tudo um pouco, permitindo que estudantes de artes ou leigos soubessem, por exemplo, que já na primeira sessão pública de cinema, patrocinada pelos irmãos Lumière em 1895, havia um pianista na sala. Que o célebre E o Vento Levou (1939), com Clark Gable e Vivien Leigh, em 220 minutos de duração, possui apenas 20 sem fundo musical. Ou que Cidadão Kane, de Orson Welles, significa um grande momento de transformação do cinema.

"O cinema surgiu como uma técnica que permite registrar e entender o movimento", explicou Ney Carrasco, coordenador de graduação do IA, durante o workshop "A música no cinema industrial norte-americano". O tema foi a trilha sonora.

As primeiras sessões públicas, segundo o professor, apresentavam imagens de operários em portas de fábrica, trens chegando na estação ou apenas situações cotidianas. Em 1915, vinte anos depois do evento dos Lumière, ocorreu outro grande marco: a consolidação do cinema enquanto imagem, com o filme O Nascimento de uma Nação, abordando a guerra civil americana em 165 minutos.

Este filme tem de muito importante – além de um enredo com começo, meio e fim – as músicas compostas para os personagens. "Ele é indispensável para a história do cinema por causa da inovação técnica, pois pelo roteiro teria sido jogado fora", afirmou Carrasco, lembrando que o autor preconceituosamente responsabiliza os negros americanos pela guerra naquele país.

A passagem do cinema mudo para o sonoro acontece em 1927, quando os irmãos Warner, à beira da falência, lançam de uma hora para outra O Cantor do Jazz. "Foi uma revolução. Como não houve um período de transição, o som provocou um choque, gerando problemas sérios", explicou Carrasco. Os atores não sabiam falar direito, músicos foram postos na rua e donos de salas que exibiam apenas filmes mudos, faliram. Foi inevitável que os "talking pictures" (as fitas faladas) se estabelecessem definitivamente, ainda que com pouca música.

O ápice da manipulação do som é atingido em 1933, com King Kong, quando enfim se pode falar em trilha sonora. "É o momento em que o som adquire no cinema o mesmo status da imagem. A partir daí surgem os trabalhos de edição sonora, dublagem e mixagem", finalizou o professor do IA.


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