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Jornal da Unicamp - 10 a 16 de junho de 2002
Agora semanal


Raios cósmicos e astros humanos
Filme conta trajetória de César Lattes e José Leite Lopes, físicos que atuaram na fronteira da ciência

Luiz Sugimoto

Méson Pi é uma subpartícula do núcleo do átomo, fundamental para as pesquisas nucleares. Sua descoberta, em 1947, causou grande impacto na comunidade científica mundial e seu descobridor foi o brasileiro César Lattes, que mais tarde viria a atuar no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp, escolhendo Campinas para viver até hoje. Ele e José Leite Lopes, outro notável físico compatriota, atuaram na fronteira do conhecimento e participaram da implantação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF, em 1949) e do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq, em 1951).

Lattes e Leite Lopes integraram uma geração brilhante de cientistas, oriunda da criação da USP e da Universidade do Distrito Federal (UDF), e responsável, simplesmente, pelo surgimento da ciência e da universidade modernas no País. Ambos são os astros de Cientistas Brasileiros, documentário de 52 minutos que se pretende o primeiro de um projeto abordando a história de outros expoentes da ciência brasileira. O filme é dirigido por José Mariani, com narração do músico Arnaldo Antunes, música de Aluisio Didier e fotografia de Guy Gonçalves.

“Não é um filme científico, é um filme sobre história da ciência”, ressalta Mariani, que vem negociando a transmissão por canais pagos e também por emissoras estatais como a TV Educativa e TV Cultura. De fato, a linguagem é televisiva. O conteúdo mescla a narração de Antunes com depoimentos dos professores Simon Schwartzman, Alfredo Marques, Fernando de Souza Barros, Marcelo Damy, Henrique Lins de Barros, Amélia Império Hambúrguer, Edson Shibuya e Humberto Brandi, além dos próprios César Lattes e Leite Lopes. E o resultado é uma história linear, simples e atraente, na qual até mesmo nós, mortais, podemos compreender o que é um Méson Pi.

Cinema e ciência – “A ciência não exclui a poesia”, disse em certa ocasião o cineasta Glauber Rocha. José Mariani, diretor de Cientistas Brasileiros, antes da exibição de seu documentário no auditório do Instituto de Física ‘Gleb Wataghin’ (IFGW) da Unicamp, em 15 de maio, permitiu-se complementar com o reverso: “O cinema não exclui a ciência”.

Mariani percebeu que existem poucos filmes sobre ciência do Brasil – e sobre cientistas brasileiros –, principalmente da chamada área de “ciências duras”, como Física, Química ou Biologia, de difícil compreensão pelos leigos. Ele explica que a idéia de um filme documentário é muito genérica, ampla, e que esta idéia, na verdade, surge somente à medida que se começa a estudar, a pesquisar os temas.

“Lendo, descobri esta geração que começou a fazer ciência no pós-guerra aqui no País. Uma geração brilhante, a primeira que se formou na USP (1934) e, no caso do Rio, com Leite Lopes, a primeira que se formou na Universidade do Distrito Federal (1935). Essas duas instituições criaram a universidade moderna no Brasil”, ressalta o diretor.

Mariani, a partir do percurso biográfico desses cientistas, coloca o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron como um legado simbólico da geração que fundou instituições hoje existentes de ciência e tecnologia, como Unicamp, UnB, CNPq e CBPF. “A própria história do CBPF possui um paralelo com o Cinema Novo: Glauber, muito jovem, obteve êxito internacional (conquistou o Prêmio de Cannes) e em cima de seu prestígio se implantou um movimento de cinema moderno. Quero dizer, com isso, que no Brasil as artes independentes (artes, ciências) têm de descobrir e criar seus espaços. No caso do cinema, temos de inventar a viabilização do cinema. Esta geração de cientistas nasceu nesse ambiente”.

Cinco filmes – José Mariani e sua equipe levaram exatamente dois anos para concluir Cientistas Brasileiros (de janeiro de 2000 a janeiro de 2002). “Na construção de um documentário, leva-se muito tempo buscando recursos e é preciso transformar esse tempo em capital. Isso acabou ajudando na maturação do processo de edição”, explica o diretor.

Professor de cinema na PUC do Rio de Janeiro, Mariani já foi assistente de direção de Tizuka Yamasaki, Eduardo Escorel e David Neves, e adianta que seu projeto engloba cinco documentários sobre cientistas brasileiros. O segundo deverá fazer justiça aos outros físicos da geração que encantou o diretor: Mário Schoemberg, Marcelo Damy, Jayme Tiomni e Maurício Peixoto. Biólogos e botânicos provavelmente serão astros dos filmes seguintes.

FRASES

DE CÉSAR LATTES

* A história é a mais importante das ciências. Sei que sem história não há realidade objetiva.

* A ciência não pode prever o que vai acontecer. Só pode prever a probabilidade de algo acontecer.

* As grandes descobertas da ciência foram feitas, até há pouco tempo, por acaso. Por gente que queria saber como era feita a natureza. Segui então um conselho de Leonardo da Vinci: “Vá aprender suas lições na natureza”.

* (Optar por voltar ao Brasil depois do sucesso alcançado no exterior) foi só uma gratidão de devolver o que a gente ganhou.


DE LEITE LOPES

*A Universidade de Princeton é uma beleza e deixou em mim traços fantásticos. Além disso, tinha em Princeton os maiores cientistas da época, como Einstein. Então, a gente aprendeu como é que se fazia a Física, como é que se fazia a pesquisa e como isso contribuía para o desenvolvimento do país.

*Rainer Maria Hilke habitava um castelo solitário e, ali, solitário, ele inventava as poesias dele. Ouçam:
"
Terra, não é isto que queres? / Ressurgir em mergulho em nós / Não é o teu sonho uma vez se transformar em invisível?/ Eu acho que aqui é a Terra invisível / Nós te construímos com as mãos trêmulas / E nós levantamos as tuas torres, átomo sobre átomo / Assim te pode completar, ó catedral!”.

Isso que ele diz à catedral se aplica ao conhecimento, à ciência. Quem poderá completar? Nunca será completado. E, com as mãos trêmulas, você vai construir.