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"Universidades precisam se unir"

CLAYTON LEVY

As universidades públicas da América do Sul precisam se unir para criar um fórum regional capaz de discutir as políticas de ciência e tecnologia e ensino superior. A análise é do uruguaio Jorge Brovetto, secretário executivo da Associação de Universidades do Grupo de Montevidéu (AUGM), entidade que congrega 15 universidades sediadas no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. No último dia 11, ele foi um dos destaques do seminário "Políticas e Estratégias em Ciência e Tecnologia nos Países do Mercosul", realizado na Unicamp, como parte da 35ª reunião do Conselho de Reitores da AUGM. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Brovetto falou da situação das universidades sul-americanas e das estratégias necessárias para o fortalecimento do ensino superior público e para o desenvolvimento tecnológico.

JU – Quais os principais contrastes entre as universidades públicas da América do Sul?

Brovetto – Primeiro, vale a pena assinalar a situação das universidades latino-americanas em relação ao resto do mundo. Há um importantíssimo problema de financiamento. Talvez a América Latina seja uma das regiões do planeta que menos investe em educação superior. Em relação, por exemplo, aos países desenvolvidos, as universidades latino-americanas investem quatro ou cinco vezes menos. A média que a América Latina investe por estudante é da ordem de mil e quinhentos dólares por ano. Nos países desenvolvidos chega-se a doze mil dólares.

JU – E quanto às diferenças entre as universidades da América do Sul?

Brovetto – Há muitas diferenças. A Argentina, por exemplo, vem decaindo de uma maneira muito forte. A Argentina é um país que tem uma estrutura de educação superior muito importante, mas nesse momento essa estrutura está em perigo devido ao declínio. Isso está provocando a grande imigração de pesquisadores e técnicos, que vão para países desenvolvidos onde podem ganhar mais. Estamos falando de jovens cientistas, que são a promessa de futuro. Em contrapartida, há o caso do Brasil, que tem sido visto pela América Latina como um país que tem uma política de estado para educação superior e ciência e tecnologia. Entretanto, nos últimos anos tem havido uma queda, talvez por um aumento na demanda. Isso pode ter sido conseqüência de uma explosão na educação secundária. Essa demanda não foi acompanhada por um incremento de aportes e acabou sendo absorvida pela educação privada, que não têm o mesmo nível técnico e científico das universidades públicas.

JU – Essa proliferação das universidades privadas ocorre de maneira generalizada na América Latina ou trata-se de um fenômeno restrito a alguns países como o Brasil?

Brovetto – Está havendo uma explosão na América Latina. Em países como Colômbia e Equador fala-se que são universidades de garagem porque bastaria uma pequena garagem para instalar uma universidade. Além disso, nos últimos anos essa explosão foi impulsionada por organismos internacionais de financiamento. Em particular, o Banco Mundial impulsionou fortemente as universidades privadas. Isso não ocorreu de uma forma direta, através de financiamentos diretos, mas na forma de decisões políticas que alavancaram a privatização da educação superior.

JU – Alguns observadores acham que a proliferação das universidades privadas é um sinal de que as universidades públicas teriam fracassado em sua missão. O senhor concorda com esse ponto de vista?

Brovetto – Isso não tem fundamento. Os dados obtidos por organismos internacionais demonstram que as universidades particulares têm sido fundamentalmente instituições com carreiras de baixo custo. Além disso, essas universidades, segundo dados do Banco Mundial, apresentam um nível muito mais baixo que o das universidades públicas. Então a proliferação não resulta do fracasso das instituições públicas. Esse quadro é resultado de uma política para diminuir o compromisso do estado com a educação superior. E isso tem sido muito nocivo para nossos países.

JU – Em que medida o desnível entre as economias dos países da América Latina e a dos países desenvolvidos afetam a perspectiva para pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico na América do Sul?

Brovetto – Essa diferença está aumentando. Apesar de haver esforços e crescimento, estamos crescendo numa velocidade muito menor do que nos países desenvolvidos. Creio que a maneira de se enfrentar essa situação seria estabelecer políticas em níveis nacional e regional. Creio que países com o potencial do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai devem pensar na região para agregar valor aos seus produtos, desenvolver inovação tecnológica e inserir-se de maneira competitiva no mercado internacional. Isso requer decisão política.

JU – Como é possível estabelecer estratégias regionais se os países do Mercosul, por exemplo, passam por momentos econômicos e políticos bastante diversos?

Brovetto – Sem dúvida, as diferenças políticas entre os países do Mercosul influem sobre todas as decisões e não apenas nas questões de ciência e tecnologia. Mas na área de ciência e tecnologia, creio que há a consciência sobre a necessidade de impulsionar a ciência e tecnologia como única maneira de conseguir uma massa crítica e uma capacidade de negociação em nível internacional.

JU – Como as universidades públicas da América do Sul poderiam participar desse processo?

Brovetto – Justamente esse é um dos temas que estamos discutindo entre os membros do Grupo de Montevidéu. Estamos criando uma espécie de espaço comum e coordenado. Estamos discutindo, por exemplo os avanços científicos e tecnológicos na área da genômica. A América do Sul é uma das regiões do planeta com maior riqueza biogenética. Os estudos genômicos podem ser de extrema importância para o desenvolvimento da agricultura e da produção industrial. Não estou falando de genoma humano. Em 2001, por exemplo, o Grupo Montevidéu firmou um acordo com o Instituto Max Plank, da Alemanha, para instalar na Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, um centro regional de estudos genômicos. Este centro irá beneficiar toda a região tanto em relação às linhas de investigação como sua aplicação posterior.

JU – Há outras iniciativas desse tipo?

Brovetto – Há também um acordo do Grupo Montevidéu com o Instituto Pasteur, de Paris, para desenvolver pesquisas conjuntas na área de segurança alimentar. Há algumas áreas estratégicas que as universidades estão impulsionando, mas também é necessário um acordo no campo das políticas nacionais para ampliar esse potencial.

JU – O governo brasileiro elaborou no ano passado a Lei de Inovação, que entre outras coisas prevê a possibilidade de professores e pesquisadores passarem a atuar também na iniciativa privada sem perder o vínculo com a universidade pública. Esse tipo de iniciativa poderia ser discutida regionalmente para favorecer o desenvolvimento tecnológico na América do Sul?

Brovetto – Sim. Existem algumas experiências similares em outros países. Na Argentina, por exemplo, há um acordo da Universidade de Buenos Aires com a Federação das Indústrias para que os trabalhos desenvolvidos na universidade possam ser aplicados na iniciativa privada. A Universidade de La República, no Uruguay, nos últimos anos tem tentado vincular o conhecimento à aplicação. Isso requer acordos com empresas privadas, com os organismos do estado e com a sociedade.

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