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......ANO XV -Nº 161 - Abril 2001

unicamp

Livres da ‘prisão’
Retirada de medicamento melhora
qualidade de vida de portadores de HIV
CARLOS LEME PEREIRA
 


ntes, eu me sentia condenado duas vezes: a primeira, por ter Aids e a segunda, por ser obrigado a vir todo santo dia ao hospital, pra me medicar. Era como se eu fosse um prisioneiro. Agora, voltei a ter vida pessoal e até consigo trabalhar”. O desabafo é do garçom M.S.I.G., 26 anos, e reflete os benefícios que já se esboçam de uma pesquisa em desenvolvimento no Departamento de Clínica Médica da FMC/Unicamp, pelo infectologista Luís Fernando Waib.

Há quase um ano e meio Waib monitora um grupo que chegou a 33 pacientes com Aids, voluntários para seu projeto multicêntrico de mestrado, que propõe a retirada do medicamento Ganciclovir da chamada “profilaxia secundária vitalícia”, ou seja, prevenção às doenças oportunistas. A droga, embora indicada para combater o Citomegalovirus (um herpes-vírus bastante perigoso para pacientes imunodepressivos, capaz até de comprometer o sistema nervoso central), tem efeitos colaterais extremamente agressivos, pela sua toxidade.

“Até agora, os resultados têm sido muito animadores, pois só tivemos duas recidivas”, diz o médico, referindo-se aos poucos casos de reaparecimento dos efeitos oportunistas algum tempo depois da convalescência (veja quadro nesta página). Waib destaca ainda outras duas vantagens dessa abordagem terapêutica: “Além de não ser mais acometido pelas reações adversas do medicamento, o paciente passa a experimentar uma melhora substancial em sua qualidade de vida, pois a administração do Ganciclovir tem que ser intensiva, exigindo a presença quase diária do doente à unidade de tratamento, o que o impede de trabalhar e de exercer outras atividades. Sem contar que trata-se de uma substância cara, que onera em muito o sistema público de saúde”.

Apesar das vantagens, a proposta é restrita àqueles doentes de Aids que já recuperaram um grau satisfatório de imunidade, graças ao uso do chamado “coquetel”.
Tanto, que o título da tese de mestrado é Retirada da terapia de supressão para Citomegalovirus em pacientes com SIDA com resposta à Terapia Antirretroviral Altamente Eficaz (HAART). “Neste mês, 21 pacientes do grupo arrolado já terão completado um ano de experiência, período pré-fixado no protocolo do projeto”, diz Waib. O pesquisador estima concluir o trabalho até o final do ano. Com verba já em estágio de liberação pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) – foram requisitados R$ 40 mil – o projeto envolve quatro centros: Hospital das Clínicas da Unicamp, Ambulatório Municipal de DST/Aids de Campinas, Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Centro de Referência e Treinamento em Aids (CRTA) de São Paulo. Do grupo de 33 voluntários arrolados, 13 são pacientes do Hospital das Clínicas da Unicamp.

Waib situa sua motivação para se lançar nessa pesquisa no início de 1999, a partir de sua experiência médica com pacientes do Hospital-Dia do HC. “Comecei a perceber que um número cada vez maior deles apresentava uma boa recuperação, por causa do coquetel. Mas o que me convenceu mesmo foi a propriedade com que eles mesmos questionavam o fato de serem submetidos a um tratamento secundário tão tóxico, a ponto de o benefício preventivo não suplantar o impacto físico. Por fim, era impossível ficar impassível ante as queixas relativas aos prejuízos na vida pessoal, principalmente no tocante à impossibilidade de geração de renda para subsistência”.

Obviamente, não foi apenas a emotividade que guiou os passos de Waib. “O tratamento de Aids sofreu mudanças qualitativas nos últimos 6 anos, devido à composição de um conjunto de drogas capaz de inibir de forma eficaz o HIV. Dessa forma, houve aumento considerável da sobrevida dos pacientes”, afirma.
Com a recuperação do sistema imunológico, proporcionada por esse tratamento, “algumas doenças oportunistas, principalmente aquelas que acometem pacientes com imunossupressão grave, tiveram suas incidências bastante reduzidas”, observa Waib.

Ele ressalta que antes desse avanço do esforço mundial de combate à Aids, pacientes que apresentavam doenças oportunistas como as provocadas pelo Citomegalovirus – mais referido na literatura médica pela sigla CMV – tinham indicação sempre inquestionável de profilaxia secundária vitalícia.

Vírus híbrido – O CMV se enquadra entre os oito tipos de herpesvirus patogênicos para o homem. Na verdade, explica Waib, trata-se de um vírus híbrido - DNA + RNA -, como publicado recentemente. Estudos norte-americanos situam sua prevalência entre recém-nascidos de 0,2% a 2,2%. “Em se tratando de adultos, quando os infectados são saudáveis, raramente ocorre a eliminação de quantidades consideráveis de partículas virais”, frisa o pesquisador. “No caso de pacientes com Aids, o vírus pode afetar órgãos nobres, como o sistema nervoso central e retina. Temos aí, portanto, uma população para a qual a reativação do vírus representa alto risco, desde perda de visão a déficit neurológico”.

Nessa margem de risco, é formalmente indicado o uso de Ganciclovir como terapia de supressão. “Porém, sempre se constatou o quanto as conseqüências dessa abordagem eram desastrosas do ponto de vista clínico”, relata o médico. “Na maioria dos casos, as doenças oportunistas se sobrepunham e a quantidade de drogas usadas em profilaxia secundária também”.

O infectologista destaca alguns dos efeitos colaterais – “aumento da toxidade em diversos tecidos, como medula óssea e sistema nervoso, intolerância gástrica”, para apontar um fator tão recorrente quanto preocupante dentro deste quadro: “Tudo isso contribui fortemente para a falha de adesão ao tratamento”.

Riscos – O médico reconhece ser irrefutável o potencial do Ganciclovir de inibir a replicação do CMV. “Mas como o Ganciclovir inibe a síntese de DNA, pode provocar também alterações medulares, como aplasias e anemia”, adverte. Waib cita ainda que a associação do Ganciclovir com a Zidovudina, um dos mais importantes antiretrovirais usados na terapia combinada, pode até provocar mielotoxidade grave, com risco de vida.

“Outro aspecto a ser ponderado é o custo geral da medicação, que inclui os gastos com a compra, sua administração, a infra-estrutura exigida, além dos exames laboratoriais de controle, necessários na monitorização dos efeitos colaterais”, acrescenta.

Insistindo no impacto na qualidade de vida dos pacientes, Waib explica que, mesmo sendo feita em leitos-dia e, na maioria das vezes, sem demanda de internação, “a administração diária do Ganciclovir implica na necessidade de locomoção, disponibilidade de tempo e dificuldade de compatibilização com uma atividade remunerada por parte do paciente”.

 

 

‘A Aids deixou de ser um jogo perdido’

Luís Waib, monitor do estudo com 33 pacientes: apenas duas recidivas

A menos de um ano de concluir sua pesquisa, o infectologista já consegue articular com convicção seu sentimento em relação aos doentes a que vem proporcionando um ganho na qualidade de vida: “Lidar com esses pacientes, à medida que se torna perceptível a melhora deles, me demonstra que, cada vez mais, a Aids está deixando de ser um jogo perdido, como se considerava até pouco tempo atrás”.

“Hoje, mesmo quem chega à rede de saúde pública em mal estado, tem possibilidades de obter uma sobrevida razoável”, atesta o médico. Ele não esconde a esperança de que, mantendo os pacientes vivos por mais tempo, estes venham até mesmo se beneficiar de alternativas mais eficazes que o coquetel. “Daqui a alguns anos, acredito, teremos disponíveis desde vacinas a terapias genéticas, cujos agentes poderão ser enzimas capazes de entrar no código genético do paciente e cortar o vínculo com vírus HIV. Se não couber a nós tais façanhas, alguém as cumprirá; afinal cada pesquisa tem seu tempo próprio para resultar em aplicações práticas”, afirma. (CLP)

 
 
Martírio de um garçom


O garçom M.S.I.G., 26 anos, descobriu que era soropositivo em 1998. E pior: começou a se tratar já num estágio avançado da contaminação pelo HIV, ou seja, arcando com o peso do acometimento por uma série de doenças oportunistas, incluindo as provocadas pelo Citomegalovirus. Por isso, na época não lhe restou outra saída que não se submeter à profilaxia secundária por Ganciclovir.

“Era um martírio. Eu tinha que ‘bater ponto’ quase todo dia no hospital e, incluindo as drogas do coquetel, era obrigado a engolir de 12 a 20 comprimidos diariamente”, lembra. “Ao mesmo tempo em que sentia o quanto o coquetel me favorecia, esse remédio específico me deixava imprestável, com o corpo mole. Sem contar que mal conseguia conviver com a família, que é tão importante numa situação dessas, e muito menos manter um emprego que suprisse pelo menos as minhas necessidades básicas”.

Em 15 de novembro do ano passado o garçom aceitou integrar o grupo de voluntários que o infectologista Luís Fernando Waib estava monitorando. “No começo, cheguei a sentir medo de deixar de tomar o remédio, pois a gente que sofre de Aids sabe muito bem o estrago que esse vírus oportunista pode fazer”, confessa.
“Mas hoje, eu me sinto ótimo; acredito que meu estado geral de saúde melhorou em 80%. Agora, minha necessidade de vir ao hospital passou a ser quinzenal, o que me dá oportunidade de trabalhar e conviver direito com a família. E só o alívio psicológico de não se sentir mais um ‘prisioneiro’ de hospital já conta muitos pontos nas chances de conviver melhor com a Aids”, conclui o paciente. (CLP
)

 

 
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