Edição nº 648

Nesta Edição

1
2
3
4
5
6
8
9
10
11
12

Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 04 de março de 2016 a 11 de março de 2016 – ANO 2016 – Nº 648

Telescópio


Dieta das
crianças medievais

Uma técnica desenvolvida por pesquisadores britânicos e americanos, descrita no periódico Journal of Archaeological Science, permitiu reconstituir e comparar as dietas de crianças pobres e ricas que viviam na região britânica de Canterbury entre os séculos 11 e 16. Os cientistas usaram uma tecnologia de imageamento em três dimensões para mapear, em detalhes, a topografia da superfície dos dentes, registrando os padrões microscópicos de desgaste. A técnica tem a vantagem de não destruir as amostras em que é aplicada.

Os autores encontraram sinais de que as crianças já começavam a ser desmanadas entre 1 e 2 anos de idade, passavam a consumir alimentos mais duros a partir dos quatro anos, e ainda mais duros a partir dos seis. Os resultados indicam ainda que a variação de dieta, segundo status socioeconômico, era menor entre as crianças do que entre os adultos da época.

Conversa no
fundo do mar

Pesquisadores dos Estados Unidos e da Europa conseguiram usar as vocalizações produzidas por baleias e golfinhos que vão se alimentar no Golfo do Maine, no Atlântico Norte, para mapear a distribuição espacial e as relações entre as espécies – baleias-comuns, azuis, jubartes, sei, minke, cachalotes, piloto e orcas, além de golfinhos – durante um período de caça intensa, na temporada de reprodução de arenques.

Os autores determinaram que a área de cerca de 100 mil quilômetros quadrados é dividida pelos predadores marinhos em setores de caça específicos de cada espécie, ainda que com alguma sobreposição. Esses setores se mantêm por até duas semanas. O ciclo de vocalização dos animais é de 24 horas, com algumas espécies mais “falantes” durante o dia e outras, à noite. O trabalho que descreve a captura e análise dos sons das baleias foi publicado na revista Nature.

Pele
para robôs

Pesquisadores da Itália e dos Estados Unidos apresentam, na revista Science, a criação de uma pele artificial capaz de esticar-se, reagir à pressão e emitir luz. O produto final consiste de finas folhas de borracha que mudam algumas de suas propriedades ópticas e elétricas quando deformadas. Segundo nota divulgada pelo periódico, a tecnologia poderá ser adotada em equipamentos eletrônicos flexíveis ou como “pele” para robôs que mudam de forma e cor.

A base da invenção é um capacitor elástico emissor de luz criado pela equipe de Chris Larson, do Departamento de Engenharia Mecânica e Aeroespacial da Universidade Cornell, que assina o artigo como autor principal. Esse capacitor usa eletrodos de hidrogel integrados a uma matriz de silicone.

Adaptação para mudança
climática protege o capital

Uma análise dos gastos de dez grandes cidades – Londres, Paris, Nova York, Cidade do México, São Paulo, Pequim, Mumbai, Jacarta, Lagos e Adis-Abeba – em ações de adaptação para a mudança climática, mostra que as cidades localizadas em países ricos vêm investindo uma proporção maior de seus PIBs do que os municípios de países em desenvolvimento, e sugere que o esforço de adaptação está mais voltado para proteger riquezas do que pessoas.

O trabalho, de autoria de pesquisadores britânicos, determinou que as cidades ricas gastaram 0,22% de seus PIBs em ações para se adaptar aos efeitos do aquecimento global, entre 2014 e 2015, sendo Nova York a que mais investiu globalmente (1,6 bilhão de libras, ou R$ 9 bilhões). Paris fez o maior investimento por habitante (398 libras, ou R$ 2,2 mil), enquanto que Adis-Abeba teve o menor gasto global (15 milhões de libras, R$ 83 milhões) e o menor gasto por habitante (4,71 libras, ou R$ 26).

“A evidência sugere que as respostas de adaptação atuais têm sido amplamente influenciadas por reações para proteger o capital físico, em vez das populações em perigo”, diz o artigo, publicado no periódico Nature Climate Change. “Em particular, o gasto em preparação para desastres é muito baixo”.

Aniquilação
de pósitrons

Radiação produzida pela aniquilação mútua de elétrons e de pósitrons – a partícula de antimatéria correspondente ao elétron – foi detectada na emissão de energia do microquasar  V404 Cygni, localizado na constelação do Cisne, a cerca de 8 mil anos-luz do Sistema Solar.

Um microquasar é um sistema binário formado por uma estrela e um pequeno buraco negro.  À medida que matéria da estrela cai em direção ao buraco negro, as partículas ganham energia, a ponto de passarem a emitir radiação. Microquasars são conhecidos por produzir jatos de plasma que se deslocam quase à velocidade da luz.

O mecanismo de origem desses jatos ainda não é bem compreendido, mas modelos teóricos previam a produção intensa de plasma de elétrons e pósitrons nesses sistemas. A nova observação, descrita na revista Nature, confirma essas conjecturas.

Viés
racial

Autores de pequenos crimes, onde o dano para a vítima não é grande e o juiz tem maior flexibilidade para determinar a sentença, correm mais risco de acabar presos por mais tempo se forem negros, conclui análise de 17 mil decisões judiciais do Estado da Carolina do Sul (EUA). No entanto, os mesmos registros mostram que, no caso de crimes graves, acusados brancos tendem a pegar sentenças mais duras que os negros.

O trabalho, publicado no periódico Journal of Quantitative Criminology, testa a hipótese de que, na ausência de fatores objetivos determinantes – como a gravidade da ofensa ou uma história de reincidência por parte do acusado – juízes acabam permitindo que considerações extrajudiciais, incluindo raça, afetem a formulação da sentença.

A maior diferença detectada nesse estudo diz respeito às sentenças dadas a réus primários: nesse caso, negros tinham 43% mais chance de pegar cadeia que brancos. A disparidade desaparece, no entanto, quando tanto negros e brancos já têm fichas criminais extensas.

Espontaneidade sob
regras estritas

Uma equipe de físicos alemães desenvolveu um modelo matemático cujo comportamento, embora baseado em regras precisas, é capaz de apresentar mudanças imprevistas, radicais e aparentemente espontâneas. Esse tipo de modelo, dizem os autores, pode ajudar no estudo de fenômenos como surtos epiléticos.

O modelo é uma rede de milhares de elementos individuais interconectados, que se comunicam com os vizinhos, mas também com elementos mais distantes. Embora as regras de interação entre os nodos dessa rede sejam perfeitamente determinadas, as diferentes conexões e o grande número de elementos impõem uma complexidade extra ao comportamento do conjunto. O artigo está disponível na base ArXiv (http://arxiv.org/abs/1602.02177) e será publicado no periódico Physical Review X.

Checando
experimentos em economia

A ciência deve ser reprodutível: diferentes cientistas, realizando um mesmo experimento com materiais equivalentes, deveriam obter os mesmos resultados. É a confiança na reprodutibilidade que permite transformar resultados científicos em tecnologia. Além disso, o esforço de reprodução é importante para testar e confirmar descobertas. No entanto, a pressão do sistema acadêmico por trabalhos originais e achados espetaculares vem reduzindo os incentivos para esse tipo de iniciativa, o que traz a preocupação de que a literatura esteja sendo contaminada por resultados inválidos, porque irreprodutíveis, mas que se perpetuam porque nunca são checados.

Esse temor levou ao lançamento de algumas iniciativas para tentar reproduzir grandes quantidades de estudos em áreas consideradas especialmente vulneráveis a resultados falsos positivos, como ciências sociais e pesquisa médica. Ano passado, o Projeto Reprodutibilidade: Psicologia (RPP, na sigla em inglês) publicou na revista Science o resultado de um esforço para reproduzir 100 importantes experimentos da área. O trabalho só obteve alguma medida de sucesso em cerca de 50% dos trabalhos visados.

Agora, a Science publica os resultados de um trabalho semelhante, tratando da tentativa de reprodução de 18 experimentos laboratoriais de economia. Esse número representa a totalidade dos artigos sobre resultados experimentais publicados nos periódicos American Economic Review e Quarterly Journal of Economics entre 2011 e 2014.

A taxa de reprodutibilidade, definida como a proporção de estudos onde a tentativa de reprodução gerou um efeito significativo consistente com o trabalho original, ficou em 61%, ou 11 estudos replicados de 18. Outras três tentativas de reprodução chegaram perto de atingir significância, informam os autores, o que levaria a taxa de sucesso a 78%. “Temos todas as razões para sermos otimistas e acreditar que a ciência em geral, e as ciências sociais em particular, emergirão muito melhor depois deste período atual de autorreflexão”, escrevem os autores.