Pioneiro do IEL, Antonio Arnoni Prado morre aos 79 anos

Integrante de um dos primeiros grupos de docentes do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, o professor Antonio Arnoni Prado morreu neste domingo (11) aos 79 anos. Professor titular aposentado do Departamento de Teoria Literária do IEL, Arnoni é considerado um dos intelectuais mais respeitados do país. Ele tratava um tumor no cérebro, doença devido a qual teve de ser submetido a três cirurgias – a última delas no ano passado. O corpo foi velado por cerca de três horas na manhã desta segunda-feira (12) em Paulínia (SP) e, no meio da tarde, foi levado para ser cremado na cidade de Itatiba (SP). Nascido em São Paulo em 1943, Arnoni deixa dois filhos – Ricardo e Mariana. O IEL distribuiu uma nota de pesar. “Registramos nosso profundo pesar aos familiares e amigos pela perda, desejando força neste momento de luto”, diz a nota da direção do Instituto.

Arnoni era mestre e doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP), com pós-doutorado na Fondazione Feltrinelli, de Milão (1986). Ingressou em 1979 no Departamento de Teoria Literária da Unicamp, onde foi professor titular até 2012, quando se aposentou.

Foto de um homem que aparece do peito para cima e de perfil. Ele é branco, tem o cabelo grisalho, curto e está usando terno.
Arnoni foi um dos principais nomes da crítica literária no Brasil (Foto: Antonio Scarpinetti)

Entre seus trabalhos mais importantes estão a edição da crítica literária dispersa de Sérgio Buarque de Holanda e a publicação de uma coletânea de ensaios críticos reunidos em “Trincheira, palco e letras”. Também publicou “Itinerário de uma falsa vanguarda: os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo”, de 2010, que ganhou o Prêmio Mário de Andrade da Fundação Biblioteca Nacional. Organizou ainda “Lima Barreto: uma autobiografia literária” (2012) e escreveu “Dois letrados e o Brasil nação” (2015), este vencedor do Prêmio Rio de Literatura na categoria ensaio.

Arnoni faz parte da história do IEL. Chegou à Unicamp no final dos anos 1970, pelas mãos do professor Antonio Candido – fundador do Instituto do qual foi também diretor, escolhido por Zeferino Vaz. Ex-aluno de Candido, Antonio Arnoni se juntou ao grupo inicial do IEL, formado por João Lafetá, Berta Waldman, Vera Chalmers, Suzi Sperber, Edda Arzua Ferreira, José Miguel Wisnik e Adélia Bezerra de Meneses.

Na segunda leva de professores trazidos por Candido, além de Arnoni, vieram Roberto Schwarz e Marisa Lajolo. Em seguida, foram trazidos Alexandre Eulálio, Modesto Carone, Luiz Dantas, Iumna Maria Simon, Maria Eugenia Boaventura, segundo consta dos registros de “O Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada: primórdios”, de Adélia Bezerra de Meneses. “Arnoni foi um estudioso – desses que gostavam de frequentar bibliotecas; um grande pesquisador”, disse o professor Alcir Pécora, colega de Arnoni no IEL. “Foi ele que descobriu, por exemplo, inéditos de Sérgio Buarque. Foi importantíssimo na crítica do anarquismo; levantou material sobre Oliveira Lima [Manuel de Oliveira Lima, autor de ‘D. João VI no Brasil’ (1908)]”, afirmou Pécora.

De acordo com ele, Arnoni foi um trabalhador, sobretudo em temas associados à literatura social. “Tinha um interesse grande, variado, pelas coisas. Era um erudito. Poucos conheciam a crítica literária como ele”, avalia. O professor Pécora destaca também a importância de Arnoni para o IEL. “Era uma pessoa cordial, um colega afetivo, de relações pessoais intensas”, afirma. “Para o departamento, significava a presença do legado de Antonio Candido”, resumiu.

“Era uma dessas pessoas que a gente não esquece”, disse a professora Raquel Salek Fiadi, do Departamento de Linguística Aplicada. “Além de um grande intelectual, era uma pessoa de convivência boa”, acrescenta ela. “Embora não tivéssemos uma aproximação muito grande, porque trabalhávamos em departamentos diferentes, era um colega por quem eu tinha muita admiração. Era brilhante”, conta. Segundo ela, além de grande pesquisador, Arnoni também gostava de dar aulas e do contato com os estudantes.

“O que fica para nós é o ‘seo’ Antonio. Um coração gigante e um pai amoroso”, disse o filho dele, Ricardo. “Um homem que nunca deu valor ao dinheiro, que viajava e lia muito. Trazia caixas de livros de cada uma das viagens. Ou seja, nestes últimos anos, fazia o que sempre fez ao longo da vida: lia e estudava muito”, contou o filho.

Reinventar

Em entrevista ao Jornal da Unicamp em 2015, quando do lançamento de dois livros (“Dois letrados e o Brasil nação – A obra crítica de Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda” e “Cenário com retratos – Esboços e perfis”), Arnoni falou sobre o papel da crítica literária nos dias de hoje e alertou que era preciso reinventá-la. “Onde está a crítica hoje? Um dos momentos únicos da discussão destes dois livros talvez tenha ocorrido no debate aqui na Unicamp. Não há especificamente um diálogo entre a crítica e a produção atual, par e passo. Os cadernos de cultura dos jornais tratam hoje de bandas de rock, de cantores, pintores etc. Você não tem mais um nome abalizado da crítica literária escrevendo nos jornais. O espaço que ainda resta está na universidade. Aqui é o lugar”, disse o intelectual.

 

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Imagem de capa

Foto de um homem do peito para cima. Ele é branco, tem o cabelo curto e grisalho e está apoiando o rosto em uma das mãos.
Arnoni chegou à Unicamp no final dos anos 1970, pelas mãos do professor Antonio Candido.