Em busca de mais interação

Ilustração: Luis Paulo SilvaA segunda fase do Programa se encerra em 2020. “Essa é umas das metas para discutirmos na avaliação de 2017. Iremos novamente avaliar a possibilidade e a necessidade de continuidade”, afirma Joly, referindo-se aos próximos passos. Para o coordenador, os trabalhos não estão finalizados. “É preciso ainda, por exemplo, estabelecer relações com os saberes tradicionais, que considero uma base de conhecimento fantástica. O que desejamos é resgatar esse conhecimento e integrá-lo. Não é só reconhecer que ele existe, mas compartilhar essas informações, respeitando o direito de quem a detém. Nós não tivemos grandes avanços nesse sentido e precisamos retomar essa conversa”, afirma. Dentre outros pontos, o pesquisador levanta a necessidade de ampliar a interação entre o conhecimento já adquirido, a conservação da biodiversidade e as áreas de ciências humanas e sociais.

 

Foto: Elisa Herkenhoff
O professor André Freitas, membro da coordenação do Biota desde 2013 “Novas espécies continuam sendo descritas em todo lugar, até mesmo dentro do campus da Unicamp. Isso só mostra que ainda precisamos manter o foco na pesquisa básica, na descrição de espécies, listas de espécies por localidades, distribuições e padrões de diversidade”

 

Em 2012 foi criada a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) que, semelhante ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), produz relatórios periódicos. Os pesquisadores brasileiros têm participado ativamente e identificado grandes lacunas. “Talvez isso nos ajude a pensar como olhar para frente”, afirma Joly. As decisões futuras do Biota também levarão em consideração os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que fazem parte dos Objetivos para o Desenvolvimento do Milênio, acordados por diversos países em 2015 na Cúpula da ONU, em Nova Iorque, e a própria comunidade científica.

“É notável o avanço do Programa ao longo dos anos. Gerar conhecimento acerca de uma biodiversidade ainda pouco conhecida é vital para que o país seja liderança em pesquisa na área. Ao passo que há uma produção de Ciência básica de qualidade, há geração de conhecimento e melhora na educação. E o que o país precisa é de educação, educação, educação, educação…”, reflete Bolzani. “A partir do conhecimento molecular da biodiversidade, abre-se um laboratório químico sofisticado, com potencial para se identificar “hits” e “leads” capazes de gerar inovação”, complementa.

Foto: Elisa Herkenhoff
Estudo de borboletas na Serra do Japi em Jundiaí-SP

A professora também destaca que o Biota é bastante premiado. Ela cita que em 2015 o Programa recebeu o Prêmio Kurt Politzer de Inovação Tecnológica, na categoria Pesquisador, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) com o projeto "Utilização sustentável da polpa dos frutos do umbu e umbu-cajá: Produtos naturais fenólicos de alto valor agregado para a indústria de cosmético com propriedades antienvelhecimento", do qual Bolzani era uma das coordenadoras.

Há muitas dificuldades em estudar a biodiversidade no Brasil e, provavelmente, ela jamais será conhecida em sua totalidade, dadas as dimensões continentais do país, a extensão de sua plataforma marinha e a complexidade de seus ecossistemas. “O projeto ‘Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo’ começou no início dos anos 1990. Já estamos em 2017 e ele ainda está no meio do caminho. São cerca de 8.000 espécies apenas de plantas superiores. E o estudo da biodiversidade é muito mais que fazer inventários de espécies. É preciso, no mínimo, saber onde elas estão localizadas. E para isso é necessário fazer uma cobertura geográfica completa”, exemplifica Lewinsohn.

Para Freitas, por mais que o Estado de São Paulo seja um dos mais estudados biologicamente, o que se conhece ainda é pouco. “Novas espécies continuam sendo descritas em todo lugar, até mesmo dentro do campus da Unicamp. Isso só mostra que ainda precisamos manter o foco na pesquisa básica, na descrição de espécies, listas de espécies por localidades, distribuições e padrões de diversidade”, complementa o professor.

Assim, apesar de todos os ganhos nos 18 anos de vigência do Biota, ainda há muito a conhecer e desvendar da biodiversidade brasileira, sendo necessário continuar os estudos para conhecer, aprender, restaurar, conservar e mesmo admirar a sua grandiosidade.

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