Da academia para a sociedade

Ilustração: Luis Paulo SilvaOs dados gerados pelo Biota possibilitaram ações no âmbito de políticas públicas para a conservação do meio ambiente. “Todas as ações de restauração no Estado de São Paulo, como o uso de espécies nativas, os modelos de desenvolvimento de mudas e de plantio e as novas Unidades de Conservação (UCs), tudo isso se deu a partir de resultados do Biota”, enfatiza Joly. “Conseguimos um diálogo razoável com as secretarias de governo, sobretudo a Secretaria do Meio Ambiente. Uma coisa que infelizmente estamos perdendo no atual governo do Estado de São Paulo”, pondera. “O Programa serviu também de base para inúmeros decretos governamentais e instruções normativas ligados ao uso da terra e conservação da biodiversidade, incluindo o zoneamento agroambiental da cultura da cana-de-açúcar”, complementa.

Foto: Elisa Herkenhoff
Estudo de borboletas na Serra dos Órgãos, na cidade fluminense  de Teresópolis

Para Mariana Oliveira, integrante da coordenação do Programa desde 2010, o compartilhamento virtual dos resultados de pesquisa foi um importante diferencial para as conquistas. “O Biota teve um grande sucesso na transferência de dados para o setor governamental, de forma que os dados gerados pelos projetos que compõem o Programa puderam ser utilizados em mais de 20 instrumentos legais [leis, decretos e resoluções]”, afirma a professora.

Além das políticas públicas, alguns estudos geraram subsídios para o desenvolvimento de novas formas de descrever, acompanhar e conservar a biodiversidade, como demonstra André Freitas, membro da coordenação do Biota desde 2013. Freitas e sua equipe, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Proteção da Natureza e da Segurança Nuclear da Alemanha (BMU), desenvolveram guias para a identificação de borboletas. Constituídos apenas por figuras, os materiais podem ser utilizados inclusive por aqueles que não sabem ler.

Os trabalhos de seu grupo de pesquisa foram a base para a construção dos guias. Nos estudos, foram detectadas diferenças de proporções entre as comunidades de borboletas de matas íntegras e aquelas de matas degradadas ou fragmentadas. “De uma forma geral, o que encontramos até o momento, é que existe um maior número de borboletas no ambiente quando há degradação. Por exemplo, as borboletas do grupo Anaeini se tornam muito mais abundantes e fáceis de serem vistas em áreas degradadas, ao contrário do grupo Brassolini, popularmente conhecidas como ‘olhos de coruja’, que são mais comuns em matas íntegras. São as mudanças nessas proporções que nos indicam a qualidade da mata”, explica.

Para o pesquisador, utilizar as borboletas como um indicador biológico é uma alternativa fácil, rápida e barata para o monitoramento e diagnóstico ambiental. Há três anos sua equipe participa de treinamentos com os moradores e funcionários das UCs brasileiras para empregar os materiais. “O objetivo é que reconheçam pelos desenhos quais espécies são encontradas naquele local. Com os guias, eles mesmos podem participar do monitoramento das matas e gerarem informações que são úteis para a sua própria qualidade de vida nas UCs”, afirma Freitas.

Foto: Elisa Herkenhoff
Roberto Berlinck, membro da coordenação do Biota desde 2009: “O Biota é um programa diversificado e extremamente importante no contexto nacional e internacional, pois mostra a enorme importância da biodiversidade brasileira”

O Programa Biota dedica-se também a iniciativas de divulgação científica, buscando incluir toda a sociedade no debate do conhecimento gerado. “Nós produzimos documentários com a TV Cultura, realizamos exposições com o Serviço Social do Comércio (Sesc) e agora lançamos uma parceria com o projeto Ciência na Rua, uma iniciativa da jornalista Mariluce Moura”, pontua Joly.

 Para o pesquisador, a conscientização da importância da biodiversidade é algo imprescindível e que ainda deve ser melhor explorada. “Gostaríamos de ter ações no âmbito da educação formal, para o ensino médio e fundamental, e agora iniciamos um investimento mais pronunciado nessa área”. Em março de 2016 ocorreu a primeira chamada oficial para o financiamento de projetos de pesquisa destinados ao ensino da biodiversidade. “Os projetos submetidos para o ‘Biota Educação’ estão agora em fase final de análise”, conta Joly.

Na opinião de Berlinck, a extensão de alcance do Programa, para além dos muros da Universidade, é algo notável. Em 2013 e 2014, foram realizados “Ciclos de Conferências”, destinados para toda a população, com palestras sobre os biomas brasileiros e os serviços ecossistêmicos. “O sucesso desta iniciativa foi surpreendente, com o auditório da Fapesp lotado, inclusive de estudantes”, relembra. Além dos próprios biomas, a conferência abordou linhas de pesquisas diversas, como a química de produtos naturais, a taxonomia e a ecofisiologia. “Foi incrível. Alunos de ensino médio assistiram às conferências e fizeram perguntas fascinantes”, conta Vanderlan Bolzani, membro da coordenação do Biota desde 1999, e uma das mentoras do BIOprospecTA. A série Biomas do Brasil permanece disponível no youtube.

Tais iniciativas contribuem com a melhora do conhecimento básico de Ciência da população em geral, conscientizam sobre a necessidade de se conservar a biodiversidade e mostram a importância das pesquisas na área. Trata-se também de uma devolutiva para a sociedade, que financia os estudos.

 

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