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Vírus sob vigilância

Pesquisas desenvolvidas no IB detectam e caracterizam vírus que causam infecções em humanos

CARMO GALLO NETTO

A professora Maria Silvia Viccari Gatti, coordenadora das pesquisas: genotipos diferentes em circulação (Foto: Antoninho Perri)A detecção e a caracterização molecular de vírus entéricos em humanos, assim chamados porque se multiplicam no trato gastrintestinal, são dois dos objetivos da linha de pesquisa coordenada pela professora Maria Silvia Viccari Gatti, do Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. Os rotavírus estão entre os investigados.

A professora explica que nem todo vírus entérico causa sinais e sintomas associados à gastrenterite, que é a infecção viral associada ao estômago e intestino delgado, que incluem, além de outros sintomas, diarréia, vômito e febre. Esses sintomas estão em geral associados ao rotavírus quando manifestos em crianças na faixa aproximada dos seis meses aos dois anos de idade, principalmente. A docente esclarece que os vírus não são considerados por muitos como seres vivos e não podem ser vistos como microorganismos. São entidades biológicas cujo genoma, ou ácido nucléico, é obrigatoriamente replicado em uma célula hospedeira, onde dá origem a novas partículas virais.

Ocorrem cerca de 140 milhões de casos de diarréia em crianças por ano no mundo, sendo cerca de dez por cento deles associados ao rotavírus, que causam de 600 mil a 900 mil óbitos. No Brasil verificam-se de 300 mil a 500 mil casos anuais de que resultam de 12 mil a 15 mil mortes. A pesquisadora entende que o problema assume significativa magnitude pelo fato de a diarréia gerar situações de morbidade, internações além da taxa de mortalidade. E nesse aspecto considera que os rotavírus têm ação preponderante porque os demais vírus não são responsáveis por tantos casos, o que por si justifica o estudo e o monitoramento que vários grupos de pesquisa no Brasil realizam sobre eles.

Os rotavírus – denominação que resulta do fato de na microscopia eletrônica suas imagens lembrarem a roda (rota em latim) de uma carroça – são os mais comumente associados a gastrenterites sérias. Silvia afirma que em 60% do universo de diarréias em que se consegue associar caso e agente aproximadamente metade é provocada por rotavírus.

Existem muitos tipos diferentes de rotavírus em circulação no mundo e constituem o que se chama de genotipo, por causa das pequenas variações que apresentam em suas seqüências de RNA (tipo de ácido nucléico desses vírus). Mas há aqueles mais freqüentemente associados aos casos de gastrenterite em humanos e que se tornam obviamente objeto de maior investigação.

Os vírus entram pela boca através da água, alimentos contaminados ou devido a contato físico entre crianças. Mas, nem toda a infecção por rotavírus gera doença. Na verdade, na maioria dos casos ela é silenciosa, ou porque o grau de infecção é baixo ou porque a pessoa já tem um certo grau de imunidade. Neste caso, o vírus se instala, a infecção ocorre, mas não se manifestam sintomas em crianças antes dos seis meses, protegidas pelo aleitamento materno, e depois dos dois anos e entre os adultos. Nos casos em que a infecção se manifesta surge um quadro de diarréia abrupta, há grande perda de água, perigo de desidratação, mas o tratamento é simples, pois basta reidratar com soro caseiro. O perigo de óbito ocorre em organismos já debilitados.

Como existem muitos genotipos de rotavírus em circulação, uma criança pode sofrer de dois a quatro episódios por ano, independentemente da classe social ou da situação de moradia.A professora explica que uma pequena variação nos genomas leva à variação das proteínas externas desses vírus, que são as responsáveis pela ligação dos vírus com a célula hospedeira. Se há essa variação o organismo não consegue, de maneira eficiente, contando com seu sistema imune, impedir que ocorram infecções recorrentes. O que se buscou, durante anos, foi a obtenção de uma vacina que impedisse os quadros de diarréia associados a rotavírus.

A propósito, lembra Silvia, o Brasil, em 2006, se tornou o primeiro país a introduzir em seu calendário a vacina contra rotavírus. Essa vacina é constituída por um vírus monovalente, ou seja, com um único genotipo, o mais freqüente e comum. Os estudos desenvolvidos por sua equipe visam localizar os genotipos em circulação nas diferentes regiões de Campinas. Ela explica: “Nos sabemos que os rotavírus são mais ou menos os mesmos em todas as regiões do mundo. Uma criança infectada pela primeira vez pelo genotipo mais comum pode ter diarréia e ficar doente. Uma segunda infecção dessa criança pelo mesmo genotipo encontrará resposta contundente do hospedeiro de modo que não se manifesta nenhuma doença. Mesmo quando a segunda infecção resultar de um vírus com outro genotipo a memória armazenada é eficiente para combatê-lo, não impedindo a sua multiplicação, mas evitando os sintomas associados à rotavirose. Isso vale em geral para outros genotipos”.

Por isso, existe uma rede de trabalho sobre rotavírus nas várias regiões do Brasil e do mundo, que monitora a circulação desses diferentes genotipos, pois há o risco da emergência de novos genotipos, diferentes daqueles presentes na vacina ou mesmo daqueles mais freqüentes em uma dada região e que podem levar a casos de diarréia grave. E acrescenta: “Nós que estamos acompanhando sabemos que é mais comum um conjunto deles, mas sabemos que há a possibilidade de que genotipos comuns em animais, e que teoricamente estariam nesses hospedeiros, podem ser transferir para o homem, o que exigiria pensar e rever toda a estratégia em relação à vacinação. É importante lembrar que a vacina tem a função de atenuar o efeito da doença, mas não impede a multiplicação dos rotavírus nas crianças”.

A pergunta que a professora se faz é de como ficará a epidemiologia dos rotavírus no Brasil diante da vacinação. Haverá modificações no perfil que se tem hoje desse vírus? Para responder essas perguntas e desenvolver uma estratégia rápida, se e quando necessário, para buscar soluções, ela considera essencial mapear os vírus em circulação, o que justifica o trabalho desenvolvido em seu laboratório, que concentra a investigação principalmente em amostras colhidas na região de Campinas.

Na investigação realizada com amostras de fezes oriundas das cinco regiões de Campinas, durante dois surtos de rotavirose, portanto em períodos muito curtos, foram detectados muitos genotipos em circulação. Nas regiões mais carentes a diversidade de genotipos foi maior, o que pode sugerir a presença de cepas mais virulentas e concomitantemente aumentar a possibilidade de infecção de mais crianças. O fato sinaliza para a necessidade de melhoria das condições de higiene para controle da rotavirose.

A professora chama a atenção para a resistência que esse tipo de vírus tem fora das células. Para evitar as infecções é fundamental lavar bem as mãos, cuidar das condições de higiene lavando com cuidado verduras e legumes, dado que a transmissão da infecção é fecal-oral.

 
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