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Exercício físico e disfunção erétil

Pesquisa mostra que atividade física regular pode prevenir ou atenuar problema

EDILMILSON MONTALTI
Especial para o JU

O farmacêutico Mário Ângelo Claudino, autor da tese: “Exercício físico pode reverter ou atenuar a disfunção erétil” (Foto: Antônio Scarpinetti)Pesquisa inédita desenvolvida no Departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp avaliou os benefícios da atividade física regular na disfunção erétil. O estudo, que foi tema da tese de doutorado do farmacêutico Mário Ângelo Claudino, foi orientado pelo professor Edson Antunes, ex-coordenador da subcomissão de Pós-Graduação em Farmacologia da FCM. A pesquisa teve também a colaboração da professora Angelina Zanesco, do Departamento de Educação Física da Unesp (Rio Claro).

Estudos epidemiológicos têm comprovado que a atividade física aeróbia diária previne e combate a hipertensão arterial, o diabetes e o colesterol, fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Entretanto, a maioria dos estudos tem priorizado os efeitos do exercício físico nessas patologias, dando pouca atenção à disfunção erétil. De acordo com Claudino, há na literatura internacional uma correlação negativa dessas doenças com a função erétil. Sabe-se que pacientes com pressão alta, colesterol e diabetes têm deficiência de óxido nítrico (NO) e uma predisposição maior para ter disfunção erétil.

“Diz um ditado popular que o exercício melhora tudo. A função erétil é proveniente, também, de uma melhora cardiovascular, pois leva ao relaxamento da musculatura lisa do corpo cavernoso e favorece a ereção peniana. O mecanismo que desencadeava isso nunca havia sido estudado. Resolvemos então analisar a correlação entre a atividade física e a disfunção erétil”, explicou Claudino.

A pesquisa começou em 2003 como um projeto piloto em ratos sadios dentro do Departamento de Farmacologia. Posteriormente, a investigação avançou para o estudo do treinamento físico sobre a disfunção erétil em animais submetidos a desordens como pressão alta e diabetes, que inibem a síntese do óxido nítrico.

A professora Angelina Zanesco, do Departamento de Educação Física da Unesp de Rio Claro, definiu os parâmetros para a intensidade e freqüência dos exercícios físicos. Os animais passaram por um período de adaptação até o início do programa de treinamento. Eles foram submetidos por oito semanas a sessões diárias de corrida em esteira. Após esse período, os pesquisadores passaram a avaliar o relaxamento do corpo cavernoso in vitro e a medir a pressão intracavernosa dos ratos in vivo. Os pesquisadores observaram que o condicionamento físico não somente prevenia como também melhorava, significativamente, a disfunção erétil instalada nos animais.

Apesar do estudo ter sido desenvolvido em ratos, o processo hemodinâmico e os mecanismos envolvidos na ereção peniana são similares aos de humano. Entretanto, alertou o pesquisador, existe a necessidade de estudos clínicos para confirmar os dados experimentais.

“A julgar pelos experimentos conduzidos em animais de laboratório, a atividade física regular moderada é uma boa estratégia não farmacológica no combate à disfunção erétil, pois controla a formação de radicais livres pelo estresse oxidativo e aumenta a biodisponibilidade de óxido nítrico”, disse Claudino.

O estresse oxidativo ocorre quando o sistema antioxidante das células não consegue controlar a produção excessiva de radicais livres. A produção excessiva de radicais livres pode causar danos celulares irreversíveis e morte celular. As células possuem um sistema antioxidante que atua contra o acúmulo desses radicais. O sistema antioxidante é formado por enzimas intracelulares e pelas vitaminas E, C, betacaroteno e ácido lipóico. Entretanto, o sistema antioxidante, apesar de eficiente, não remove completamente os radicais livres gerados pelas células.

A pesquisa demonstrou que o exercício físico crônico de intensidade moderada altera positivamente o funcionamento oxidativo das células e tecidos, aumentando os níveis de óxido nítrico que, por sua vez, aciona proteínas com função de reparo e prevenção de danos teciduais. “De fato, o óxido nítrico é o principal neurotransmissor de um sistema de sinalização intracelular que atua no tecido erétil, levando à ereção peniana”, explicou.

De acordo com a investigação, exercícios aeróbios como ciclismo, natação, subir e descer escadas, corrida leve em esteira ou em movimentos (trotar) realizados cinco vezes por semana, durante pelo menos 30 minutos, parecem favorecer a produção de óxido nítrico e combater os radicais livres, melhorando a disfunção erétil.

“O que ficou claro na pesquisa é que o treinamento físico tem um papel tanto preventivo como terapêutico, sendo eficiente tanto para reverter como atenuar a disfunção erétil”, explicou.

Um problema de saúde pública

A disfunção erétil é definida como a incapacidade do homem em alcançar ou manter a ereção peniana adequada para a prática sexual satisfatória. O problema ocorre em graus variáveis e pode ter causas psicológicas, físicas ou patológicas, prejudicando a qualidade de vida. Trata-se de um problema grave de saúde pública. Estima-se que acometa mais de 152 milhões de homens no mundo, e as projeções para 2025 apontam para 322 milhões. De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), 40% a 46% da população masculina na faixa de 18 a 45 anos tem algum grau de disfunção erétil.

Apesar dos benefícios preconizados pelas atividades físicas, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístico (IBGE) mostram que 80,8% dos indivíduos adultos no Brasil são sedentários. Por isso, instituições e organizações de países desenvolvidos têm implementado esforços no setor de saúde pública para combater o sedentarismo, mediante campanhas de adoção de atividade física regular, visando melhorar a saúde individual e coletiva.

“O sedentarismo pode aumentar o grau de disfunção erétil de uma a duas vezes mais que em um indivíduo normal. Hoje, a disfunção erétil é tratada por meio de inibidores que atuam no mecanismo de relaxamento e contração do pênis. Em ambos os casos, o exercício físico pode ajudar”, comentou. Além do sedentarismo, o envelhecimento e o tabagismo também são apontados por estudos de outros especialistas como fatores de risco da disfunção sexual.


Tabu


Claudino revela que, quando falava para seus amigos que desenvolvia uma pesquisa sobre exercício físico e disfunção erétil, o tema gerava curiosidade e brincadeiras. “Alguns me perguntavam se podiam comprar uma esteira”, lembrou. O pesquisador alerta que ninguém deve fazer exercício físico sem acompanhamento profissional. Ele deixa claro que, dependendo do indivíduo, o exercício também não vai substituir uma terapia farmacológica, mas auxiliá-la. “Não é o futebol de final de semana que vai resolver o problema”, disse.

A disfunção erétil ainda é tratada como um tabu entre os homens. Poucos são aqueles que discutem o problema ou procuram soluções. Fatores psicológicos como estresse no trabalho ou problemas financeiros podem afetar o desempenho sexual. Por desconhecerem as causas, muitas se automedicam.

“Existem graus e fatores psicológicos e orgânicos envolvidos, separados ou em conjunto. Antes de sair por aí correndo para comprar um medicamento, o melhor é consultar um urologista para ver o que está acontecendo”, aconselha Claudino.

De acordo com Claudino, a pesquisa tem como objetivo maior conscientizar a população dos benefícios do exercício físico, tanto para as doenças cardiovasculares como para a disfunção erétil. No caso dos tratamentos, a pesquisa aponta para a possibilidade da inclusão dos exercícios físicos regulares como uma terapia complementar. “Parte do estudo foi publicada numa importante revista internacional na área de urologia, e parte deverá ser publicada brevemente. Exercício físico faz bem, não apenas para doenças cardiovasculares, mas também para a função erétil”, conclui.

 
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