Edições Anteriores | Sala de Imprensa | Versão em PDF | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 310 - de 28 de novembro a 4 de dezembro de 2005
Leia nesta edição
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Artigo
O tamanho do preconceito
DIU
Rabiscos na França
Produção de fármacos
Bacia do Piçarrão
Utopia e Renascimento
Nas bancas
Mortadela e salsicha de tilápia
Ecologia: teoria deve se
   sobrepor à prática
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Jônatas Manzolli estréia
nova obra na França




O professor Jônatas Manzolli, cuja peça será executada em festival na França: novas ferramentas de composição (Foto: Antonio Scarpinetti)O compositor Jônatas Man-zolli, professor de composição do Departamento de Música do Instituto de Artes (IA) e coordenador do Núcleo Interdis-ciplinar de Comunicação Sonora (Nics), promove, no próximo dia 10 de dezembro, a estréia mundial de sua obra Treliças IV: Rabiscos para piano, percussão e imagens inte-rativas, durante o festival Rugissants, na cidade francesa de Grenoble. Inédita, a obra foi desenvolvida por meio de processos sonoros controlados por computador, utilizando o software Rabisco, que foi criado por Manzolli e por uma equipe de alunos e pesquisadores do Nics.

Software foi criado por equipe do Nics

A peça, segundo Jônatas, será executada por dois músicos de renome internacional, o casal Thierry Miroglio (percussão) e Ancuza Aprodu (piano). Manzolli decidiu explorar a peça em 5 movimentos, sendo que 2 dos quais exploram a camadas de interação rítmica, principalmente porque o evento está relacionado a world music. “Explorei instrumentos musicais brasileiros, como o caxixi, pau-de-chuva, reco-reco e a cuíca. Então, há momentos nos quais os músicos têm liberdade de criar com a sonori-dade do instrumento”, explica. Po-rém, nos movimentos 2 e 4, Jônatas convida os músicos a jogarem com o Rabisco. “Com a imagem e a sono-ridade geradas pelos traços na tela do computador, cria-se um código de interação para os intérpretes”, disse.

A obra Rabiscos tem 11min30s, possui cinco movimentos, com um prólogo e um epílogo bem defini-dos e na parte central uma gama de percussão e piano bem ritmados que, de acordo com Manzolli, apre-sentam certas dificuldades de exe-cução. Entre os picos existem dois momentos lúdicos nos quais se produz uma interação. “É a primeira vez que eu escrevo para Ancuza, que é a esposa de Thierry. Compus a peça imaginando um casal que toca há muito tempo junto. Escrevi estruturas rítmicas muito complexas, com cortes muito bruscos nas partes 1, 3 e 5, e trabalhamos muito isso”, observa.

A composição será mostrada num festival que existe desde 1989. O evento incorpora as tradições orais de diferentes locais com o objetivo de verificar o que ocorre com certas linguagens ao serem concatenadas com determinadas tecnologias. Além disso, Jônatas ressalta que este é o ano do Brasil na França, e, por este motivo, a estréia ocorrerá em Grenoble. “Esse even-to para mim enfoca uma questão muito importante, que é a intera-ção entre a complexidade das for-mas rítmicas. Faço isso há muito tempo”, esclarece.

Software – Rabisco, como o próprio nome diz, nasceu de uma pro-posta inquietante dos pesquisado-res do Nics. O Núcleo já desenvolve software para composição algo-rítmica. O Rabisco permite criar um desenho dentro de um ambiente onde o enfoque seja totalmente criativo. E por ser criativo, deverá alcançar um outro nível de editoração – ou seja, é focado para criação de esquetes, que são processos primários de criação, para depois passar por um processo mais elaborado.

O Rabisco nasceu justamente na junção do processo criativo do sentido mais básico: um esboço, rabiscar. A primeira aplicação, segundo Manzolli, foi no projeto PGL (Partnership and Global Learning), realizado juntamente com a Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp e um grupo de professores da Universidade da Flórida. O objetivo foi utilizar o Rabisco na área de ensino musical justamente na intersecção, quando a criança começa a ter as relações espaciais e, no momento que ela busca as relações com o espaço, criar relações com o som. Esse projeto foi desenvolvido para crianças de sete a dez anos.

A partir daí o Rabisco foi desenvolvido dentro do Nics, em projetos de iniciação científica. Por ser uma ferramenta conceitualmente muito aberta, aceita qualquer desenho ou esquete. Como esse processo pode sofrer transformações, começou-se a pensar no Rabisco como uma espécie de ferramenta de interação na internet. Ou seja, diversas pessoas participando de um bate-papo, cada um rabiscando a sua maneira e, ao rabiscar, o software emana um som. O processo é totalmente livre. Esse é o conceito.

Existe toda uma fundamentação baseada em Java e uma orientação a objetos que dão a possibilidade de articular as estruturas. Na realidade, existe na superfície uma interface gráfica. Entretanto, há uma série de parâmetros sonoros e musicais que estão disponíveis ao acesso mais lúdico possível. Existe também o acesso a diferentes escalas musicais, quatro vozes representadas por cor, 127 instrumentos para cada voz, cuja velocidade diferente cria uma polirritmia.

Em uma segunda etapa, a equipe do professor Manzolli trabalhou investindo em chamar o Rabisco de instrumento distribuído na web. A terceira etapa foi dedicada à parte gráfica do Rabisco. Investir em estruturas que não somente fossem traços e linhas, mas que a linha fosse pretexto para uma órbita de desenhos. Dependendo do objeto que é associado à órbita, ele cria uma composição visual.

Atualmente, segundo Jônatas, o software está assumindo controles de teclado e está entrando numa dimensão de jogo, no sentido performático. “Ele está saindo da dimensão de esboçador de estrutura sonora para se transformar num instrumento musical em tempo real. A partir daí, faz sentido explorá-lo na dimensão de uma obra, como um elemento de interação com o músico. Essa interação será do ponto de vista auditivo e visual. Aí nasce o desafio”, complementa o compositor.