197 - ANO XVII - 4 a 10 de novembro de 2002
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Almeida Prado

Emoções musicadas

Pianista analisa e interpreta obra de Almeida Prado
em sua tese no Instituto de Artes

LUIZ SUGIMOTO

Parte da pintura Retângulo Azul", de Bernardo Caro que inspirou o Poesilúdio 2Ele pega todos os acontecimentos bons e ruins da vida, joga para dentro dele e devolve em forma de música, numa composição pessoal e, ao mesmo tempo, tecnicamente bem trabalhada. Comparando a biografia de Almeida Prado com as obras de cada época se sabe de informações importantes sobre sua vida. "Ele é absolutamente denso", sintetiza a pianista Adriana Lopes da Cunha Moreira, que fez uma análise musical dos "16 Poesilúdios" para piano do compositor, em sua dissertação de mestrado defendida em 1º de novembro no Instituto de Artes da Unicamp.

"Quando decidi fazer mestrado procurei uma obra interessante tanto para analisar como para eu tocar. Gostava da maneira como Almeida Prado compunha, pesquisei sua obra e encontrei as 16 peças, as cinco primeiras compostas em 1983 e as outras, que possuem como subtítulo Noites, compostas em 1985. Elas têm uma construção interessante, que justapõe fragmentos musicais díspares, então quis compreender como o compositor havia conseguido dar unidade a um material tão múltiplo", recorda Adriana Lopes, justificando a escolha do tema. Como complemento da pesquisa, a pianista gravou um CD (veja matéria na página) com a reserva técnica da bolsa concedida pela Fapesp.

"Poesilúdio", termo criado pelo compositor, refere-se segundo ele "à metamorfose de um prelúdio. Uma poesia tratada como base para um prelúdio, sem que o texto seja interpretado por uma voz humana". Cada peça é dedicada a uma personalidade - artistas plásticos, escritores e amigos, a maioria ligada à Unicamp, visto que Almeida Prado foi professor do IA de 1975 a 2000 e diretor do Instituto de 1983 a 1987.

"Noites de Solesmes", de Geraldo PortoSó o ter flores pela vista fora / Nas áleas largas dos jardins exatos / Basta para podermos / Achar a vida leve, fragmento poético de Fernando Pessoa sob o heterônimo de Ricardo Reis, inspirou o Poesilúdio 1, que Prado compôs primeiramente para violão, como presente de aniversário ao então vice-reitor da Unicamp Ferdinando Figueiredo. "A peça tem uma linguagem ainda modal, que há muito tempo se faz na história da música, mas o compositor a utiliza de maneira inovadora, justapondo e sobrepondo os modos", explica Adriana.

Dias depois, ao ver um quadro de Bernardo Caro, vice-diretor do IA, o compositor notou que havia várias idéias na mesma tela e não uma só. Decidiu utilizar o recurso no Poesilúdio 2, uma colagem de informações diversas sem cognitividade. "Este foi o grande achado, que ele chamou de peça-matriz e originou muitas outras composições", afirma a pianista, que juntou à dissertação depoimentos de Almeida Prado colhidos pessoalmente e por telefone.

Assim surgiram as peças seguintes, nas quais a linguagem técnica musical é a da colagem de informações, mas a atmosfera é suscitada pela obra de arte. São homenageados, pela ordem das composições, Ferdinando Figueiredo, Bernardo Caro, Suely Pinotti, Berenice Toledo, Sérgio Matta, Noboru Ohnuma, Marcos do Valle, Marcus Vinícius Pasini Ozores, Lúcia Fonseca Ribeiro, Fúlvia Gonçalves, Geraldo Porto, Cláudia Dal Canton, Maria Aparecida Pacca, Eustáquio Gomes e Durval Chechinato.

Tudo em CD

A pianista Adriana Lopes da Cunha Moreira: "Almeida Prado é absolutamente denso"A pianista Adriana Lopes está fazendo a estréia mundial da obra completa dos "16 Poesilúdios", inédita tanto nos palcos quanto em gravações. Para que pudesse conceber uma interpretação embasada, contou com o apoio do pianista Maurícy Martin, atual coordenador do Departamento de Música do IA e com a orientação da professora Maria Lúcia Pascoal "que participou absolutamente de todos os passos deste trabalho", como Adriana faz questão de ressaltar.

O CD que acompanha a dissertação de mestrado da pianista foi gravado na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, sendo que a verba da Fapesp permitiu a produção de 40 cópias. Adriana busca apoio para um possível lançamento comercial do CD, que pode trazer um livreto contendo análises de cada peça. Para que seu trabalho não fique numa prateleira e ninguém o veja, a pianista vem interpretando e analisando as peças para professores de piano e alunos em várias cidades. Esta divulgação também contribui para a lembrança dos 60 anos do compositor Almeida Prado, no ano que vem.


Cartas Celestes

Almeida Prado retratado por Berenice Toledo em 1985, obra que resultou no Poesilúdio 4Almeida Prado teve os mais renomados professores de composição e piano da época no Brasil: Camargo Guarnieri e Dinorá de Carvalho. Em 69, embora ainda muito jovem, ganhou uma bolsa concorrendo com grandes compositores. "Era dinheiro suficiente para comprar um apartamento e ele foi para Paris ter aulas com Olivier Messiaen e Nadia Boulanger, ambos de fama internacional", conta a pianista Adriana Lopes.

De volta ao País, compôs em 1974 o primeiro volume de "Cartas Celestes" que hoje conta com 14 volumes e é considerada sua obra mais importante, inclusive pelo compositor. Ele foi instigado por um convite do Planetário do Ibirapuera, cujos astrônomos queriam uma música de fundo para a observação de um acontecimento especial no céu. "Almeida Prado criou um acorde para cada planeta; no momento de intersecção de dois planetas, colocava dois acordes... Aquilo acabou numa linguagem nova. Intuitivamente, ele criou um sistema de estudo das ressonâncias do piano", observa Adriana.

O Instituto de Artes guarda um memorial do compositor e o Centro de Documentação de Música Contemporânea (CDMC) preserva suas partituras e está catalogando sua obra. Ao realizar sua pesquisa, Adriana Lopes observou que a obra de Almeida Prado era comumente dividida em sete fases. "A de Beethoven é dividida em três fases. Achei sete um exagero, mesmo considerando a diversificação do século 20.

A pesquisadora dividiu a obra em três fases, acrescentando uma quarta a pedido do próprio Almeida Prado. A primeira corresponde ao estudo do folclore com Camargo Guarnieri, sob a estética de Mário de Andrade, resgatando a brasilidade com temas na sua maioria nordestinos. A segunda fase surge quando se senta com Gilberto Mendes para ouvir Schoenberg, Stockhausen, Messiaen, Stravinsky, e parte para a França a fim de descobrir algo que não conhecia em além-mar.

A terceira e quarta fases, de volta ao Brasil, têm várias tendências que correm paralelamente: astrológica, ecológica, brasileira, mística e livre. Na quarta, que se chamou de pós-moderna, acontece uma auto-releitura e uma mesclagem das diversas tendências dentro de uma mesma obra, que se inicia com os "Poesilúdios".


CONTATO: adrimauricio@dglnet.com.br