Edições Anteriores | Sala de Imprensa | Versão em PDF | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 241 - de 16 a 29 de fevereiro de 2004
Leia nessa edição
Capa
Política C&T
Fundos setoriais: padrão
Unicamp testa vacina dupla
Nanociência: sem perder tempo
Política: semicondutores
Licenciamento de patentes
Rivalidade nas quatro linhas
Teses da semana
Pós: reajuste de bolsas
O sabor do trabalho
Bicentenário: Hércules Florence
 

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Rivalidade nas 4 linhas
(e fora delas)
As origens da disputa entre Brasil e Argentina no futebol e em outros campos, segundo um professor da UBA

LUIZ SUGIMOTO

Foto: Fernando Santos/Folha Imagem
Briga entre jogadores do São Paulo e do River Plate, em partida realizada no Morumbi, no final do ano passado: rivalidade histórica

É um sentimento visceral e recíproco. A rivalidade entre Brasil e Argentina, que a partir do futebol contaminou os demais esportes e, inconvenientemente, é lembrada mesmo durante negociações políticas e comerciais, enriquece as pesquisas de Pablo Alabarces, professor da Universidade de Buenos Aires e torcedor do Vélez Sarsfield. Dentro do convênio de cátedras firmado com a UBA, o professor passou quatro meses na Unicamp oferecendo a disciplina “Letrados e iletrados na cultura argentina”, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

Pablo Alabarces vem se ocupando do futebol há dez anos, desde que obteve o doutorado em sociologia do esporte na Inglaterra. Em fins dos anos 1990, foi convidado pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) a coordenar o grupo de trabalho “Esporte e sociedade”, que pretende localizar e interligar estudos dispersos pelos países, estreitando laços especialmente com os brasileiros. “Apesar de o futebol ser um marco da cultura popular na América Latina, a produção sobre o tema era bastante escassa, mesmo na Argentina e Brasil, onde os trabalhos praticamente se limitavam a Eduardo Archetti e Roberto da Matta”, recorda.

Alabarces afirma que o esporte já é um campo reconhecido dentro das ciências sociais, oferecendo um foco diferenciado para ler questões de grande dimensão social, como violência, exclusão, identidade e nacionalismo. Em seu último livro, Futebol e pátria, o sociólogo trata das relações entre futebol e nacionalismo na Argentina, com base no que chama de “narrativa da nação” e de “narrativa da nação no futebol”. “No Brasil, acho coerente que Gilberto Freyre, criador do mito das três raças, assine o prólogo de O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho. O primeiro autor aborda a questão étnica de uma nação, e outro faz o mesmo por meio do futebol”, compara.

Porquê do ódio – Na visão de Alabarces, a rivalidade entre Brasil e Argentina, na realidade, não possui raízes em nenhum dos dois países. Lembra que o grande inimigo comum era o Uruguai, que atingiu seu clímax no famoso “Maracanaço”, ao virar para 2 a 1 o placar da final da Copa de 1950, fazendo chorar os fanáticos do santuário do futebol brasileiro. “Depois, houve nova virada. O Brasil iniciou um ciclo maravilhoso e conquistou três títulos mundiais de 1958 a 1970. A Argentina, ao contrário, foi eliminada de forma catastrófica em 58 – 6 a 1 para os tchecos –, caiu também na primeira fase em 62, e nem se classificou para a Copa de 70. Naquele mesmo momento surgia Pelé no Brasil e, na Argentina, ninguém”, observa.
No campo econômico, outra coincidência do período. “Temos o ‘milagre’ brasileiro e o início do declínio argentino enquanto potência industrial depois do peronismo. A longa tradição que vinha do século 19, do argentino vendo-se como europeu, soberbo, pedante, e que se referia aos brasileiros como ‘macaquitos’, começou a ser discutida em termos de êxitos e fracassos. Houve um pico de êxitos brasileiros e um pico de fracassos argentinos. Diante de tanta carga de significação, ninguém deve se surpreender que tenhamos caminhado para isso. Assim se produziu esta exasperação da rivalidade”, conclui o pesquisador.

Ópio do povo – Aquele também foi um tempo de ditaduras, em que a esquerda atribuía aos militares o uso político do futebol como “ópio do povo”. Segundo Alabarces, esta hipótese tem sido eficazmente combatida pelas ciências sociais nos últimos 20 anos. “Hoje ninguém pode afirmar isto seriamente. Um argumento convincente, para mim, é que não há um exemplo sequer, na história mundial, de relação causa-efeito entre um evento esportivo e um êxito político. A ditadura brasileira não foi nem mais longa, nem mais exitosa por causa da vitória na Copa de 70, e tampouco a ditadura argentina pelo título de 1978”, ilustra o professor.
“Todavia, as classes políticas, em sua mediocridade, ainda pensam que troféus levam a cargos poderosos. Maurício Macri, presidente do Boca Juniors, perdeu a eleição para prefeito de Buenos Aires, apesar do favoritismo que lhe foi conferido pela conquista da Taça Libertadores e do apoio de Diego Maradona”, conta.

Políticos e parte da imprensa persistiram no equívoco quando, em meio aos escombros da crise que explodiu no início de 2001, uma bela seleção argentina floresceu para oferecer algum prazer à população: 85% dos torcedores estavam convencidos de que o título da Copa Coréia/Japão seria deles. “A expectativa descomunal gerou duas profecias: na vitória, a volta à paz social; na derrota, uma revolução. A seleção fracassou e ficou claro que política e futebol apresentam duas lógicas distintas. A crise era política, econômica, social, cultural, e não esportiva. No caso de vocês, a vitória do Brasil em 2002 não garantiu a eleição de José Serra, candidato do governo”, observa Pablo Alabarces.)

 

Argentino ama mais
o clube que a seleção

Foto: Neldo Cantanti
O sociólogo Pablo Alabarces, professor da UBA: investigando a dimensão social do futebol

Os torcedores argentinos demonstram maior paixão por seus clubes que pela seleção nacional, ao contrário dos brasileiros, que vêem a mistura das cores de seus times resultar no amarelo. De acordo com o professor Pablo Alabarces, a questão dos êxitos explica em parte esta diferença de comportamento. “A seleção brasileira vem ganhando tudo, enquanto a seleção argentina há muito não ganha nada. Já os clubes argentinos predominam na Taça Libertadores e na Copa Intercontinental”, simplifica.

Outro fator apontado pelo pesquisador é a “tribalização” da cultura futebolística. “Os torcedores argentinos firmam uma identidade essencialmente tribal, em que o bairro é o território primordial, enquanto a noção de país fica mais distante. Os times são locais. A exceção é o Boca, que possui torcedores em outras regiões, mas que ainda assim adota como território específico o bairro de Buenos Aires que lhe deu o nome”, afirma.

A desaparição de Maradona também contribuiu para arrefecer o amor pela seleção, na opinião de Alabarces. “Apesar de contraditório em suas inclinações políticas – veio da esquerda, aliou-se ao conservador Menem e ama Fidel Castro a ponto de ter morado em Cuba –, Maradona simbolizava o herói plebeu que chegou no topo e condensava o significado da pátria. A Argentina pode contar com belíssimos jogadores, mas eles sempre vão ser do Boca, River, Racing, Independiente ou ‘estrangeiros’ que atuam na Europa”, conclui.

Barra braba – O grande clube argentino possui uma torcida organizada e uma “barra braba”. Essas facções, segundo Alabarces, promovem ações violentas em troca de benefícios econômicos, havendo a cumplicidade de forças policiais e políticas. “A paixão pelas cores do clube é mera justificativa”, diz. Já a torcida organizada não participaria, por exemplo, de uma tática usual em que o cartola encomenda um ataque a determinado jogador para forçá-lo a deixar o clube. Porém, num conflito contra simpatizantes de outras equipes, a torcida muitas vezes se alinha aos “barras brabas”. “Isto é preocupante porque o enfrentamento entre torcidas vem se radicalizando, deixando de ser meramente esportivo para virar questão de vida ou morte: uma quer o fim da outra”, acrescenta.

Torcidas como a Gaviões da Fiel ou Mancha Verde, na comparação do sociólogo, apresentam núcleos pequenos de militantes, mas estruturas melhores que atraem número maior de associados. “As torcidas brasileiras, se bem trabalhadas, podem se transformar em organizações da sociedade civil. O Brasil já aprovou seu ‘estatuto do torcedor’, reconhecendo-o como ator social”, elogia Alabarces. Ele avalia que este reconhecimento está distante na Argentina. “As autoridades ainda vêem os torcedores como bestas, selvagens, e não percebem a envergadura do fenômeno: trata-se de mais um problema de exclusão social gerado na crise, não por causa apenas da pobreza (nem todo torcedor é pobre), mas pela falta de acesso a mecanismos de cidadania como educação e trabalho”, adverte.

Mídia que torce – Em seus trabalhos, Alabarces também atribui a devida importância ao jornalismo esportivo, que apresenta um crescimento exponencial graças à tevê a cabo e aos satélites. “Podemos ficar dias inteiros vendo somente jogos de futebol”, observa. Ele atenta ainda para o reaparecimento de jornais como Olé na Argentina e Lance no Brasil. “Esses veículos trazem edições com 36 páginas de esportes. A isto chamamos de ‘a importância da minúcia’, ou seja, do detalhe insignificante para preencher tantas páginas”, ironiza.

Uma agravante no caso argentino, conforme Alabarces, é que o jornalista está assumindo a linguagem do torcedor, explicitamente, e já fala na primeira pessoa: “a gente ganhou, a gente perdeu”. O jornal Olé aperfeiçoou este mecanismo, escalando repórteres conforme o time, onde assumem a condição de torcedores. “Não acredito na objetividade da imprensa, mas em nossos países sempre existiu a tradição de que o jornalista informa e analisa, de que o jornalismo é um espaço de alfabetização e enriquecimento da linguagem. Na área esportiva, essa linguagem está parecendo conversa de boteco”.

 

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