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A história esquecida no porão

Grupo de pesquisa da FE resgata cerca de mil documentos da antiga Escola Normal

ISABEL GARDENAL


A professora Maria Cristina Menezes, coordenadora da pesquisa: “Não temos ainda no país políticas públicas de preservação” (Fotos: Antonio Scarpinetti) As Escadarias em mármore de Carrara, assoalhos de madeira de Riga da Letônia e ladrilhos da Alemanha. Estes detalhes observados na Centenária Escola Normal de Campinas, do período da República, nem de longe lembram o que a instituição ocultou ao longo desses anos em seus porões: um rico acervo bibliográfico, com obras em vários idiomas, em péssimo estado de conservação. Esta situação, porém, não impediu que grande parte do arquivo histórico, com mais de mil documentos produzidos pela instituição, fosse recuperado pela professora da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp Maria Cristina Menezes e por colaboradores.

O trabalho, segundo a educadora, contribuirá para estudos e desenvolvimento de pesquisas, com importantes esclarecimentos sobre a história da educação em Campinas e no Estado de São Paulo.

Esse período está devidamente registrado no livro Inventário Histórico Documental: Escola Normal de Campinas (1903-1976) – De Escola Complementar a Instituto de Educação, recém-saído da Gráfica da Unicamp, organizado também pelos pós-graduandos da Universidade Eva Cristina Leite da Silva, Maria de Lourdes Pinheiro e Oscar Teixeira Junior.

A obra parte dos primórdios da instituição como Escola Complementar (1903-1911) até o período em que ela passa a Instituto de Educação de Campinas (1951-1973) e resulta da pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) intitulada “Preservação do patrimônio histórico institucional: Escola Estadual Carlos Gomes”. Os custos da primeira edição foram arcados pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Unicamp, por meio do Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (Faepex).

Trabalho de restauração dos documentos: descobertas importantes no âmbito da história da educação (Foto: Antonio Scarpinetti)A proposta agora é encaminhar os exemplares para outros centros de pesquisa, sobretudo universidades brasileiras e estrangeiras que compartilham das mesmas preocupações. Várias solicitações já foram recebidas de pesquisadores ligados à Rede Ibero-Americana para Investigação e Difusão do Patrimônio Histórico-Educativo (RIDPHE), que hoje conta com uma lista de discussões que está locada no âmbito das listas de discussão da Unicamp. Menezes coordena a Rede na América Latina.

Inventário
O inventário permitiu trazer aspectos da Escola Normal que pouquíssimas pessoas conheciam. Muitas informações teriam ficado perdidas para sempre sem essa documentação. O parâmetro para a descrição dos documentos foi a história da instituição, que envolveu um árduo trabalho, mediante consulta aplicada, sendo pesquisados os arquivos do Centro de Memória da Unicamp, Câmara Municipal de Campinas, Arquivo do Estado de São Paulo, Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) de Campinas, imprensa e outros.

A publicação deste inventário demandou uma parceria de Menezes, na coordenação, com pós-graduandos, bolsistas SAE, de iniciação científica e, nos últimos tempos, os bolsistas do Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC-Jr.), que têm tido uma “participação inestimável”, avalia a educadora. A iniciativa PRP e CNPq é dirigida a alunos do ensino médio da região de Campinas. São 15 alunos do PIC-Jr. orientados por Menezes, sendo que nove trabalhando na E.E. Carlos Gomes, terminando o acondicionamento de todo material.

Trabalho de restauração dos documentos: descobertas importantes no âmbito da história da educação(Foto: Divulgação) Segundo a professora, os documentos apontaram que a escola chegou a receber oito denominações até hoje, sobre as quais se deteve o inventário que recuperou seis delas: Escola Complementar de Campinas, Escola Normal Primária, Escola Normal de Campinas, Escola Normal Carlos Gomes, Escola Normal e Ginásio Estadual Carlos Gomes, Instituto de Educação Estadual Carlos Gomes. Atualmente, a escola denominada E.E. Carlos Gomes já não oferece o curso Magistério, que formou sua última turma em 2005.

No início, a Escola Complementar foi criada para ser uma complementação do ensino primário, principalmente para atender as alunas concluintes do curso preliminar dos grupos escolares que não podiam frequentar o Ginásio de Campinas, restrito ao sexo masculino. A primeira turma da instituição era composta por 72 moças e 28 rapazes, com idades entre 12 e 20 anos. No entanto, o cumprimento posterior de prática de ensino, em um grupo escolar, habilitaria o aluno para o Magistério.

Em 1911, a escola passou para Escola Normal Primária, por conta da legislação que a definiu como ensino profissionalizante e, como tal, deveria garantir aos candidatos educação intelectual, moral e prática, pondo fim às ambiguidades anteriores. “A escola, em seus momentos de glória, foi contemplada com uma riquíssima biblioteca portadora de importantes obras, nas várias modalidades de ensino que abarcou. Lamentavelmente, parte do acervo se perdeu nos porões da instituição. Acredita-se que esse acervo chegou a reunir algo em torno de 30 mil volumes”.

Risco e recuperação
Os documentos do arquivo encontrados no porão da escola apresentavam-se em situação de risco. Menezes revela que eles estavam todos infestados com cupins, com brocas, além de cobertos por poeira e fungos. Alguns materiais não puderam ser salvos pelo adiantado processo de deterioração. Preservaram-se, principalmente, os livros de capa dura costurados a mão e com gramatura mais grossa. Entre os escombros, uma relíquia: a ata de inauguração da escola, de 1903, que traz também a ata da primeira reunião da Congregação da escola.

O inventário reuniu documentos administrativos, livros-ponto de pessoal docente e administrativo, livro de faltas e de nomeação, termos de compromisso de posse, relatórios de novas diretorias, inscrições de concurso de professores, registro de imposições e penas, registro de notas de alunos, atas da congregação, inventário de material e livros, e livros de correspondência, entre outros. Os documentos foram inventariados e descritos um a um de acordo com a Norma Geral Internacional de Descrição Arquivística, Isad (G).

Conforme Menezes, o primeiro passo para a recuperação dos documentos envolveu o processo de desinfestação, quando os livros foram todos acondicionados em sacos plásticos de barreira, com a retirada do oxigênio e introdução do nitrogênio. Tais procedimentos contaram com o apoio técnico de Maria Aparecida Remédio, do Arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp.

Após esse processo, todos os livros passaram por higienização com pinceis macios, página por página. Foi um trabalho que necessitou de muitos braços, conta Menezes. Na ocasião, o Faep/PRP subvencionou o projeto “As normalistas vão ao arquivo”, que pôde contar com a participação de alunas do 3º ano do Magistério. A higienização, salienta, trouxe maior segurança para começar a identificação dos livros e inclusive para organizar a sua descrição.

A fase de identificação exigiu um levantamento documental que permitiu a visualização do movimento desta escola. Um fato que saltou aos olhos da coordenadora do projeto foi que nos livros eram registradas as profissões dos pais dos alunos, o que permite abrir várias frentes de estudo sobre ofícios que não existem mais. Muitos destes se articulavam com a rede ferroviária e fábricas já inexistentes como a de chapeus.

Em meio aos escombros dos porões, foram encontradas outras raridades, como três antigas carteiras higiênicas. Elas funcionavam com um dispositivo que as regulava com a finalidade de se adaptar ao tamanho do aluno, necessárias devido ao grande diferencial entre as idades das primeiras turmas e pelas preocupações da época.

Menezes recorda ainda outro episódio pitoresco em que foi necessário organizar uma classe mista (até então homens e mulheres ficavam em salas separadas). O diretor da escola ficou inconformado e lutou de todas as formas para impedir a situação, emitindo correspondência para as instâncias superiores. Isso aconteceu em 1908. Ao final, o dirigente da escola obteve uma resposta: construir mais uma classe, separando novamente meninos e meninas.

Projeto continua
Um projeto semelhante, desenvolvido a partir de financiamento do CNPq, está em andamento no Colégio Culto à Ciência, hoje E.E. Culto à Ciência, o primeiro Ginásio de Campinas e o segundo do Estado. A peculiaridade é que ele começou como uma escola da maçonaria, organizado pela Sociedade Culto à Ciência. Somente em 1896, depois da República, começou a operar como Ginásio Republicano.

As tarefas têm sido executadas com auxílio de bolsistas da graduação da Unicamp, bolsistas SAE, bolsistas de iniciação científica, pós-graduandos e também com um grupo de PIC-Jr., que está se empenhando em suas atribuições. De acordo com Menezes, o grupo está avaliando documentos de 1896 a 1986 e estão no momento todos identificados, com a maioria já descrita. A mesma sistemática também se aplica aos documentos dos três primeiros grupos escolares de Campinas: Grupo Escola Francisco Glicério, Dr. Quirino dos Santos e Artur Segurado.

Menezes espera que o trabalho possa sensibilizar a comunidade escolar e as autoridades para a importância da preservação desses acervos históricos. “A partir do realizado, poderemos começar a constituir lugares de memória nestas instituições históricas. Não temos ainda no país políticas públicas de preservação desses espaços e dos seus acervos, que trazem a possibilidade de criar lugares nos quais possamos vivenciar uma memória que já não temos de nossa educação escolar. Tal legado pertence a toda sociedade e sobretudo às novas gerações”, enfatiza. “O nosso medo é que o trabalho de anos, com a organização deste acervo, por falta de políticas públicas de preservação, seja perdido, retornando o abandono – nos porões.”

Exposições
Em 2003, marco do centenário da Escola Normal, o grupo liderado por Menezes foi convidado a organizar uma exposição documental. A publicação do catálogo desta exposição constituiu-se material histórico emblemático do centenário da instituição. A escola ficou aberta ao público por uma semana, com uma mostra de trofeus e materiais cedidos por professores. Muitos ex-alunos visitaram o evento, inclusive grupos de antigas normalistas que se reúnem até hoje.

Posteriormente, foi realizada exposição fotográfica “Escolas de Campinas”, no VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, em 2006, com fotos dos primeiros três grupos escolares, além da Escola Normal de Campinas e da Escola Culto à Ciência. Nos 110 anos da E.E. Francisco Glicério, em 2007, o 1º Grupo Escolar de Campinas, também foi feita uma exposição fotográfica e de mobiliário. As exposições realizadas ficaram registradas nas publicações dos respectivos catálogos.

 

Discípulo de Ramos de Azevedo projetou prédio

O prédio da Escola Normal começou a funcionar em 1924, mas a escola já tinha iniciado suas atividades em 1903, num prédio alugado, situado na Rua 13 de Maio, onde está estabelecida atualmente a loja Magazine Luiza, no centro da cidade. O casarão pertencia a uma família tradicional e foi adaptado para que a escola funcionasse ali.

O atual prédio da escola, na Avenida Anchieta, foi projetado em estilo neoclássico por Cesar Marchisio, um discípulo de Ramos de Azevedo, o arquiteto da República. “Ele traz a simbologia da época e, ao olhá-lo, já se vislumbra uma construção do início da República, assim como os grupos escolares. A escola tornou-se um modelo não somente em termos de ensino, mas sua construção foi considerada paradigmática para outras instituições do interior de São Paulo”.

Ao se adentrar o edifício da Avenida Anchieta, observam-se, além da rica arquitetura, os móveis austríacos, os ladrilhos importados, vitrais sofisticados e pinturas do artista italiano Carlo De Servi, que tem obras inclusive expostas no Museu do Ipiranga e em Igrejas do interior paulista. Isso sem falar na decoração, em que se sobressaem aspectos do estilo art nouveau. A antiga Escola Normal, tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), recentemente recebeu do Governo do Estado uma verba para restauração do prédio.

 

 
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