Presença feminina na ciência

As mulheres compõem 33% do quadro de docentes da Unicamp e nos Centros e Núcleos da universidade, elas são maioria em todas as unidades (72,3%), de acordo com informações do Sistema de Indicadores (S-Integra) do DGRH

Ao longo desta semana trouxemos algumas reflexões sobre o Dia Internacional de Mulheres e Meninas da Ciência que nos permitem celebrar as conquistas já realizadas, mas notar que ainda é preciso acelerar medidas para tornar a carreira científica mais igualitária para a presença feminina.

Dentre as cientistas e engenheiras que conversamos durante a semana compartilhamos um pouco de seu perfil, suas áreas de atuação e breves depoimentos sobre os incentivos que as levaram a optar pela carreira científica. Muitas delas são também mães, eram - ou ainda são - poucas em meio a uma maioria de colegas homens, vivenciaram ou reconhecem tratamentos distintos às mulheres, e hoje estão mais conscientes sobre o papel que desempenham perante seus colegas e estudantes. No início, no decorrer ou no topo da carreira, com gosto, facilidade, influência ou incentivo para a carreira científica, elas escolheram trilhar o caminho científico acadêmico e vão, a seu modo, abrindo o caminho para mudanças de percepção e atitude entre colegas e contribuindo para o aumento da presença feminina na ciência.

Fotos Divulgação

Anita Marsaioli, formada em engenharia química, é professora titular do Instituto de Química da Unicamp, tem se dedicado ao estudo de enzimas microbianas e suas atuações na biocatálise e é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2013. Anita, que pesquisa a química de produtos naturais e ecologia química, confessa que nunca pensou em ser cientista. “A vida me levou para esse caminho e fui apreciando o que fazia”. Seus pais sempre a incentivaram nos estudos, embora ela não acredite que a tenham influenciado para a química ou a profissão científica. Também sempre recebeu apoio do marido, com quem tem dois filhos e quatro netas. “Não posso dizer que queria ser cientista e por isso lutei.  Mentiria muito se assim declarasse.  Devo, porém, dizer que trabalhei muito e fiquei muitas noites sem dormir para poder olhar filhos pequenos e fazer reações e espectros”, relembra. Anita tampouco tinha ídolos, mas atualmente se lembra das laureadas pelo Nobel que tiveram vida difícil como a citogeneticista norte-americana Barbara McClintock, que ganhou o Prêmio em 1983 pela descoberta da transposição genética, e cujo trabalho só foi reconhecido 30 anos após publicação. “Admiro a Frances Arnold que vi ir para um Congresso em Berna [na Suíça] e ficar de plantão com o filho adolescente e hoje é laureada Nobel”, lembra. Frances é engenheira química, mãe de três filhos e recebeu o Nobel de Química em 2018 por seu trabalho com evolução artificial de enzimas. Anita reforça que a inserção de mulheres na química - assim como na engenharia química - sempre foi boa, inclusive no Brasil. Na Unicamp 44.4% dos docentes da Faculdade de Engenharia Química são mulheres e elas são 32% no Instituto de Química.

Clarissa Loureiro é doutoranda em engenharia elétrica pela Unicamp, com aplicação na medicina, a chamada engenharia neural, que auxilia no desenvolvimento de diagnósticos e tratamentos para doenças neurodegenerativas e câncer. Ela atribui a sua mãe e a seu pai, ambos engenheiros, o estímulo ao raciocínio lógico, o gosto pela leitura, matemática e física que faziam parte das brincadeiras e desafios fora da escola, e que lhe ajudaram a ter visão crítica da vida. “Acho que esse é o caminho para a inserção e motivação das mulheres nas engenharias e áreas tecnológicas e de liderança”, acredita. Clarissa é super engajada em projetos de divulgação científica e de inserção de mulheres nas engenharias, gerenciando grupos que investem na formação de mulheres nas universidades e no incentivo de meninas de baixa renda a considerarem as carreiras de STEM. Dentre as atividades que tem desempenhado, ela é a primeira mulher a presidir a Associação dos Pós-Graduandos da FEEC (Apogeeu), é Delegada de Políticas Públicas para as Mulheres no Estado de São Paulo e foi a única brasileira a presidir o grupo Mulheres na Engenharia da América Latina e Caribe, que é parte da organização internacional  Women In Engineering (WIE) ligada ao Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE).
Clarissa acredita que as universidades precisam incentivar projetos de inserção de mulheres uma vez que “o ambiente acadêmico continua sendo muito machista”, ressalta. Existem grupos se organizando de modo independente, mas a futura doutora em engenharia enfatiza que é necessário desenvolver estratégias e programas para combater o assédio sexual e a depressão no ambiente acadêmico. Exceto para as engenharias de alimentos, de materiais e química, ela lamenta que o número de mulheres engenheiras tem diminuído, “diferente do que todos pensam. Precisamos de mais incentivo e apoio dentro das universidades, nas escolas de ensino médio e fundamental”, defende.

Elza da Costa Cruz Vasconcellos é professora associada aposentada pelo Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, e colaboradora de projetos em física atômica e molecular. Elza cursou o científico, junto a cinco alunas em uma época em que a escolha pelo clássico. Graduou-se em física e teve apoio dos pais imigrantes, que não terminaram os estudos mas valorizaram a formação dos quatro filhos que seguiram carreiras científicas. Mãe de dois filhos, em visita a um deles no Colorado College dos Estados Unidos recebeu o convite para compartilhar sobre a questão de gênero no Brasil, o que acabou sendo a motivação para, junto com a professora do Instituto de Geociências Sandra Brisolla (falecida em 2015), a levantar dados, analisar e publicar artigo sobre a presença feminina no Brasil e na Unicamp. Elza teve poucas professoras mulheres e poucas colegas no Brasil e nos Estados Unidos onde trabalhou no National Institute of Standard and Technology (NIST). Vivenciou situações de tratamento distinto em função do gênero, que eram naturalizadas à época, e que teve que se impor, sendo chamada de “durona” por colegas. “Essas coisas não me incomodavam, tinha um viés típico da época; eu não ficava ofendida”, lembra. Elza reconhece que atualmente o cenário está mudando, como mostra a presença feminina na administração geral e cargos de direção da Unicamp, aumento de mulheres em cargos de MS-6 (cargo de professor-titular, topo da carreira de docente) e inserção de questões sobre assédio moral e sexual no debate. Ela concorda que são muitas as variáveis necessárias para mudar o cenário e pontua que ainda temos que lidar com as reações aos movimentos de gênero de um modo geral. “A lei de Newton é válida aqui também: pelo fato das mulheres estarem forçando nesta direção [em prol da igualdade] existe reação. Os homens estão se sentindo inseguros”, conclui.

Gabriela Castellano é uma das oito docentes do Instituto de Física da Unicamp, livre docente e co-pesquisadora principal do CEPID BRAINN (Brazilian Institute of Neuroscience and Neurotechnology), financiado pela FAPESP. Seu pai é físico e ela sempre teve facilidade para cálculos e abstrações. A escolha pela física foi natural. Durante a graduação, Gabriela não lembra de ter tido professora mulher, “mas na época isso não me incomodava”. Apesar de ser frequentemente a única mulher em meio a inúmeros homens nas salas de aula ou laboratórios, ela afirma nunca ter sido tratada de modo diferente por ser mulher. Durante o concurso para a docência para atuar no novo curso de física-médica da Unicamp, Gabriela era a única candidata mulher e foi aprovada, independentemente de sua gravidez avançada. Sua filha nasceu tão logo saiu sua contratação. A partir daí, Gabriela sofreu os dilemas de tentar equilibrar o desejo de passar mais tempo com a filha e a necessidade de produzir na nova carreira. “Foi bem difícil, um eterno sentimento de culpa [que durou] por 8, 9 anos”, desabafa. “Quando algumas mães dizem que fazem ambos [trabalho e maternidade] e que está tudo bem é uma afronta, é dizer que a gente é incompetente!” Gabriela coordena o projeto M.A.F.A.L.D.A (Meninas na químicA, Física e engenhariA para Liderar o Desenvolvimento em ciênciA), do qual mencionamos em notícia e que a tem entusiasmado para o debate sobre a questão de gênero na ciência e para atuar em projetos de extensão, mesmo que não tenham o mesmo peso na carreira como as publicações de artigos científicos. Gabriela avalia que as áreas multidisciplinares atraem mais as mulheres, uma percepção relevante que vale ser investigada. No que diz respeito aos Centros e Núcleos da Unicamp, caracterizados pela pesquisa interdisciplinar, ela tem razão.


Iscia Lopes Cendes é cientista médica, professora titular da Faculdade de Medicina da Unicamp na área de neurogenética. Ela é bolsista Produtividade CNPq nível 1A e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2015, considerado os mais altos reconhecimentos entre pares em nível nacional. Iscia decidiu ser cientista quando ainda tinha cerca de 8 anos. O gosto pela ciência, conta, veio do pai, que é engenheiro. Embora sua escolha pela medicina não tenha sido surpresa para sua família, o mesmo não era verdadeiro em outros círculos. “Não resta dúvida de que as mulheres são hoje mais incentivadas a seguir a carreira de sua preferência sem se preocupar com modelos pré-estabelecidos”, afirma. Iscia reconhece que a área em que atua é mais feminina, mas conforme se avança em direção ao topo, cai a representatividade. Ela afirma não fazer distinção no tratamento de alunos pelo gênero e busca sempre incentivar todos aqueles que tenham aptidão. “O que procuro mostrar as minhas alunas e alunos é que uma mulher pode ter uma carreira de sucesso sem prejuízo de outros aspectos da vida pessoal, assim como o homem”, enfatiza.
Iscia, como tantas mulheres, admira, desde a infância, Marie Curie por sua “dedicação e sucesso na ciência”, e Rosalind Franklin, injustiçada por não ter dividido o Prêmio Nobel com James Watson e Francis Crick pela descoberta da estrutura em dupla hélice do DNA. Mas admira Mary-Claire King, professora de Medicina Genômica na Universidade de Washington que identificou o primeiro gene de suscetibilidade ao câncer de mama (BRCA1) em 1994 e lutou contra a patente sobre o teste molecular para a detecção do gene, por considerar que o material genético humano é um patrimônio de toda a humanidade. King foi também uma “grande liderança no uso de testes de DNA para a identificação das crianças raptadas de seus pais, presos políticos, durante a ditadura militar na Argentina”.

Vera Lúcia da Silveira Nantes Button até 2014 atuou como docente da Faculdade de Engenharia Elétrica e pesquisadora do Centro de Engenharia Biomédica (CEB) da Unicamp. É co-autora dos programas de computador registrados BR Braille (transcreve texto Braille para caracteres alfa-numéricos) e FSIM (simula o campo acústico gerado por transdutores de ultrassom). Vera queria ser médica e não engenheira, mas uma matéria no extinto Diário de São Paulo sobre o uso de animais em experimentação a fizeram desistir do curso de medicina. A engenharia biomédica, sugerida por um amigo de seu pai lhe pareceu uma alternativa promissora. “Eu poderia estudar e pesquisar desenvolvendo equipamentos médicos para ajudar pacientes, sem a necessidade de envolver animais”, lembra. Para ela, suas escolhas devem parecer erradas para as jovens cientistas de hoje, afinal escolheu cursar a pós-graduação, casar, ter filhos e ingressar na vida acadêmica numa mesma tacada! “Tive a incalculável sorte de trabalhar com orientadores e num departamento que me apoiaram e incentivaram”, conclui. Leia a entrevista completa concedida a Giovana Maria Breda Veronezi para no blog Ciência pelos olhos delas em outubro de 2016

Maria Alice Garcia, livre docente aposentada pelo Instituto de Biologia desde 2005, atuou no campo da agroecologia. A escolha pela biologia lhe foi natural, pois o rio Tietê e o Cerrado fizeram parte de sua infância no interior de São Paulo. Conta que foi uma professora da biologia na escola pública que a incentivou para a experimentação e a participar na Feira Nacional de Ciências. “Fico bastante triste em assistir o sucateamento das escolas públicas em nosso país, um processo que se iniciou com o regime militar e continua a se expandir, ameaçando também as universidades públicas, como a Unicamp”, lamenta. Maria Alice diz nunca ter sofrido preconceito na academia, fato que atribui ao convívio com pessoas maravilhosas dedicadas a trabalhar pelo ensino e pesquisa no país e exterior. “O preconceito contra a mulher não é diferente de outros preconceitos, quanto às suas bases, que são a ignorância e o oportunismo. Há exemplos da manifestação desse tipo de preconceito em diferentes setores da sociedade, mas a academia tende a congregar pessoas melhor informadas e menos preconceituosas”, acredita. Leia a entrevista concedida a Marina Barreto Felisbino em julho de 2016.

Maria Silvia Viccari Gatti é docente do Instituto de Biologia da Unicamp desde 1983 e atua em microbiologia, o estudo do mundo microscópico, especialmente com vírus, como o rotavírus. “Além de sua brilhante carreira como pesquisadora, ela se destaca na sua preocupação enquanto formadora de futuros cientistas”, descreve a estudante de biologia, autora do perfil Marina Barreto Felisbino. Segue um trecho de sua entrevista: “Vivenciei o mundo ‘dos cientistas’ e vi relações de competição, de ‘ser mulher e não poder ser a melhor’ muito evidentes! Quantas vezes perguntei e me disseram: um dia você vai entender isso!!! Ora, eu queria saber naquela hora! Ia para a Biblioteca e em uma das vezes que ali estava pensei: a carreira que eu estou escolhendo será solitária! Mas não desisti e assim que terminei minha graduação fui convidada para atuar como professora com a promessa de que dois anos depois poderia iniciar minha formação na pós-graduação, estudando microrganismos”. Leia o perfil completo publicado em julho de 2016.