Em lançamento de livros, Cecult discute trabalho, luta armada e direitos no Brasil

Lançamento de livros no Cecult. Da esquerda para a direita: Vinícius de Rezende, Fernando Teixeira da Silva, Lucas Porto e Alessandra Belo
Lançamento de livros no Cecult. Da esquerda para a direita: Vinícius de Rezende, Fernando Teixeira da Silva, Lucas Porto e Alessandra Belo


O Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Unicamp (Cecult) realizou na última quarta-feira (11) o lançamento de três livros escritos por pesquisadores vinculados: Vidas Fabris. Trabalho e conflito social no complexo coureiro-calçadista de Franca-SP, de Vinícius de Rezende; Operários têxteis na Justiça do Trabalho: luta por direitos em Juiz de Fora na década de 1950, de Alessandra Belo Assis Silva; e Estratégias de uma esquerda armada. Militância, assaltos e finanças do PCBR na década de 1980, de Lucas Porto Marchesini Torres.

O evento contou com a presença de professores e estudantes ligados à área de História da Universidade, que discutiram trabalho, luta armada e direitos em mesa coordenada pelo historiador do Cecult, Fernando Teixeira da Silva. Durante os debates, as temáticas, pesquisadas a partir de recortes temporais do século XX, se mostraram bastante atuais, com relações profundas com acontecimentos recentes, como a Reforma Trabalhista.

Alessandra Belo Assis Silva apresentou o livro Operários têxteis na Justiça do Trabalho, fruto de sua dissertação de mestrado, destacando o longo processo de pesquisa sobre o tema, ao qual deu início ainda na graduação. A obra se debruça sobre a luta por direitos dos trabalhadores têxteis de Juiz de Fora na Justiça do Trabalho, discutida por meio da análise de dissídios individuais impetrados nos anos 50. Com base em um expressivo corpo documental, a autora estuda os conflitos de classes originados dos efeitos da modernização da estrutura produtiva realizada nas fábricas têxteis da cidade, e contribui para a compreensão da atuação da Justiça do Trabalho do período. “A Justiça do Trabalho não pode ser compreendida como uma via de mão única, que beneficia majoritariamente empregadores ou trabalhadores, a depender do ponto de vista. A pesquisa nos mostra como ela é sim uma arena de conflitos, e uma instituição crucial na luta pela observância dos direitos”, afirma a historiadora.

Ainda na temática do trabalho, a obra Vidas Fabris, apresentada pelo autor Vinícius de Rezende, baseia-se na tese defendida pelo historiador. A partir de uma investigação minuciosa sobre as transformações nos processos produtivos, as relações de trabalho e a formação da classe trabalhadora do complexo coureiro-calçadista de Franca, o pesquisador busca entender formas de luta dos trabalhadores para além da esfera sindical. O autor privilegia as experiências cotidianas dos trabalhadores e trabalhadoras que dedicaram longos anos de suas vidas à produção de couros, calçados e seus componentes. “Ao longo da investigação de mais de mil processos trabalhistas impetrados pelos trabalhadores, pude entender que a Justiça do Trabalho se constituiu em instância privilegiada para resolver disputas entre trabalhadores e empregadores, para assegurar aos trabalhadores direitos frequentemente negados pelas empresas e, não raro, para impor limites aos mandos e desmandos dos patrões e dos superiores hierárquicos”, explica Rezende.

Lucas Porto Marchesini Torres apresentou o livro Estratégias de uma esquerda armada, resultado da dissertação de mestrado do historiador, que conta a história do assalto a banco realizado por militantes do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) em Salvador (BA), em abril de 1986. Após sua captura quando deixavam o banco, os militantes revelaram aquilo que achavam importante e conveniente: eram membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e iriam usar os aproximados 230 mil cruzados do roubo para levantar fundos em ajuda à Nicarágua sandinista, para onde o dinheiro seria enviado ou financiaria a viagem deles para lá como trabalhadores voluntários. O episódio foi desastroso para a imagem do recém-formado PT, que tentava galgar um espaço na política brasileira pelas vias democráticas após o fim da ditadura em 1985.  Durante a mesa redonda, o autor apontou como a ação, mesmo depois de tantos anos, ainda repercute no imaginário nacional como uma ação típica da luta armada. E sua pesquisa mostra o contrário: tratava-se não apenas de uma desconfiança quanto à democracia que se estabelecia entre algumas organizações de esquerda, como também de um pragmatismo financeiro bastante controverso.

“O assalto orquestrado pelo PCBR se tornou um constrangimento com o passar dos anos, tratado com certa seletividade pelo próprio PT, que se empenhou para fugir da imagem de ‘terrorista’ construída pelos seus adversários políticos – e agravada depois desse incidente. Mas o evento nos permite entender um pouco melhor o período conturbado da redemocratização no país, analisando a partir do ponto de vistas dos próprios militantes ao invés da ótica policialesca e do sensacionalismo das manchetes de jornais que prevaleceram. Fui capaz de compreender algumas das estratégias utilizadas pela esquerda na época para dar cabo aos seus ideais na sociedade brasileira, seja pela política institucional ou não”, analisa Torres.

Serviço
Título: Operários têxteis na Justiça do Trabalho: luta por direitos em Juiz de Fora na década de 1950
Autora: Alessandra Belo Assis Silva
Editora: Aquela Editora
Preço: R$30,00 (230 páginas)
Disponível em

Título: Vidas Fabris. Trabalho e conflito social no complexo coureiro-calçadista de Franca-SP
Autor: Vinícius de Rezende
Editora: Alameda
Preço: R$79,00 (534 páginas)
Disponível em


Título: Estratégias de uma esquerda armada. Militância, assaltos e finanças do PCBR na década de 1980
Autor: Lucas Porto Marchesini Torres
Editora: EDUFBA
Preço: R$33,00 (210 páginas)
Disponível em