Edição nº 535

Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 13 de agosto de 2012 a 19 de agosto de 2012 – ANO 2012 – Nº 535

O Banco do Sul
tem futuro?

Dissertação mostra que indefinição
do Brasil põe em risco projeto de integração

 Nas Bancas

O Brasil tem pela frente um grande desafio, se realmente quiser avançar no processo da integração regional: a aprovação da participação do país no Banco do Sul – iniciativa criada com o objetivo de financiar a integração física, o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza na América do Sul. Na avaliação da mestre em Ciências Econômicas Elia Elisa Mancini Cia, a ratificação do acordo pelo Congresso Nacional é essencial para que a iniciativa ganhe corpo. Ela argumenta que a economia brasileira é a mais robusta na América do Sul, além de o país possuir forte experiência nesse âmbito com o papel desempenhado pelo BNDES. “A atuação do Brasil é fundamental nesse cenário econômico e político”, acredita. 

No papel, o Banco do Sul já é uma instituição jurídica internacional desde dezembro de 2011, com a ratificação pelo congresso do Uruguai. Tem hoje como sócios a Argentina, Bolívia, Equador e Venezuela, onde ficará a sede. Além do Brasil, o Paraguai também não aprovou o acordo em seu congresso nacional. Ainda que a expectativa seja que o banco entre em funcionamento a partir de 2013, Elia Cia analisa que, para além da esfera política, existem vários desafios para que a iniciativa atenda efetivamente às demandas de financiamento dos projetos nos países da região.

A autora do estudo acredita que, por ser uma iniciativa que envolve governos diferentes, os esforços em relação ao alinhamento das definições da sua atuação são muito grandes, pois diferentes interesses e projetos de integração estão na agenda dos países. A autora das avaliações é graduada em Relações Internacionais e analisou em dissertação de mestrado apresentada no Instituto de Economia (IE), sob orientação do professor André Martins Biancareli, todo o processo de implementação do Banco do Sul. Seu objetivo foi mostrar as principais divergências dos projetos de integração para a América do Sul e fazer um levantamento de toda a bibliografia relacionada à sua criação, inclusive reunindo todos os documentos oficiais publicados ao longo do processo de negociação. São eles “A Declaração de Quito”, a “Ata de Fundação” e o “Convênio Constitutivo”. Além disso, a autora do estudo enumera os pontos controversos, especialmente os técnicos.

Para Elia Elisa, a iniciativa é interessante, pois a exemplo do Banco Europeu de Investimentos (BEI), a existência de um Banco Regional de Desenvolvimento em que os próprios países sócios deliberam sobre sua atuação agrega muito no sentido de proporcionar oportunidades de financiamento para os setores produtivo, energético, comercial e de infraestrutura. Por outro lado, ela enfatiza que ainda são vários os pontos de divergência entre os países se se considerar que a proposta está inserida em um campo de discussão mais abrangente de integração. “Essas questões precisam ser discutidas caso realmente decida-se avançar na temática da integração regional não apenas na esfera político-institucional, mas também em termos concretos”, destaca.

As primeiras tratativas para a criação do Banco do Sul surgiram ainda em 2004, em discurso do ministro das Relações Exteriores da Venezuela na XI Reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). “O cenário era favorável às economias da região, já que havia um acúmulo de reservas externas nunca visto anteriormente entre os países da América do Sul. Consistia em um meio de canalizar tais recursos para que fossem investidos nos países da  própria região”, relata. 

Desde a apresentação, a proposta passou por um longo processo de amadurecimento em reuniões de negociações tanto no aspecto técnico como no político. Entre idas e vindas, Venezuela, a Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Uruguai e Paraguai assinaram um Convênio Constitutivo, em setembro de 2009, com a recomendação de que os países iriam ratificar internamente o acordo para que o Banco do Sul entrasse em vigor oficialmente.

Elia pondera que os grandes obstáculos foram surgindo durante o processo de negociação e remontam a temáticas distintas. Num primeiro momento, discutiu-se muito a própria natureza do banco, se seria uma instituição de financiamento de desenvolvimento ou um fundo monetário. Também houve um debate intenso sobre a estrutura de capital, das suas fontes de captação e da distribuição dos votos, entre outros. Um ponto que fica claro nas análises da autora do estudo foi a definição de que o Banco do Sul terá distribuição igualitária do poder de voto. “Algo muito inovador na estrutura de um banco com essa natureza”, avalia. Se superadas essas questões, ainda restam os impasses relacionados aos tipos de projetos que serão financiados pelo banco, já que o convênio deixa margens para supor que a instituição poderá financiar tanto projetos a fundo perdido, como aqueles que sejam rentáveis. 

Venezuela

O lançamento do Banco do Sul é parte do projeto financeiro regional da Venezuela para a América do Sul. “O papel deste país é de suma importância, pois está no bojo da constituição de uma Nova Arquitetura Financeira Regional (NARF) que romperia com a dinâmica do sistema financeiro internacional”, explica Elia.

No caso específico do Banco do Sul, a Venezuela defendia determinados posicionamentos técnicos que refletiam sua concepção de instituição para a América do Sul. Além disso, o país, com o apoio da Bolívia e do Equador, divulga a proposta de constituir, na região, um modelo de integração autointitulado “bolivariano”. “O Brasil, por ser o mais importante país do ponto de vista econômico e por defender um distinto projeto financeiro para a região, assumiu o papel de contrapor a algumas colocações da Venezuela em relação ao Banco do Sul”, analisa. Neste sentido, a inserção na dinâmica internacional defendida seria mais de “reforma” e não um completo rompimento com o sistema internacional.

 

Publicação

Dissertação: “O Banco do Sul, seus dilemas e os divergentes projetos de integração regional para a América do Sul”
Autor: Elia Elisa Mancini Cia
Orientador: André Martins Biancareli 
Unidade: Instituto de Economia (IE)
Financiamento: CNPQ

 

 

Escala aponta alterações de

humor em exercícios físicos

 

Ferramenta pode ser útil para o monitoramento de aspectos emocionais do atleta

 

Em testes realizados na Escola Preparatória de Cadetes do Exército de Campinas com 123 voluntários a partir da Escala de Humor Brasileira (BRAMS) foi possível aferir as alterações de humor durante diferentes cargas de treinamento físico. Os resultados permitiram traçar o perfil de humor para uma população brasileira fisicamente ativa. “Os testes mostraram ser um instrumento eficiente para monitoramento mais acurado das variações do estado de humor em resposta ao treinamento, visto que fornecem um psicodiagnóstico do estado emocional do atleta. Como estamos tratando de dados subjetivos acerca do humor, é importante validar instrumentos que forneçam uma mensuração mais próxima da realidade do indivíduo”, define a psicológa Dalila Victória Ayala Talmasky. Ela apresentou dissertação de mestrado na Faculdade de Educação Física (FEF), sob orientação do professor Luiz Eduardo Barreto Martins.

A ferramenta é útil para o monitoramento dos aspectos emocionais, os quais são mais pontuais de acordo com os resultados. Dalila Talmasky é psicóloga da seleção paralímpica brasileira de natação e já aplica este mesmo instrumento nos nadadores. Em sua opinião, a principal contribuição deste tipo de investigação está em obter um maior número de informações sobre os sentimentos que são gerados muitas vezes pelos pensamentos e influenciam diretamente no desempenho do atleta. “O importante é entender o quadro, fazer com que o atleta também se conheça melhor e poder intervir de forma específica em alguns pontos que afetam o indivíduo”, explica.

Dalila Talmasky trabalhou também como psicóloga do Laboratório de Bioquímica do Exercício (Labex) do Instituto de Biologia (IB), coordenado pela professora Denise Vaz de Macedo, por vários anos. Foi no Labex que teve origem a sua pesquisa ao utilizar a escala com diversas modalidades para apoio nas intervenções junto aos atletas. No laboratório também foram feitas as análises da enzima alfa-amilase salivar, que segundo vários autores, têm seus valores aumentados sob estresse físico e/ou psíquico.

O instrumento BRAMS é composto por 24 itens da escala agrupadas em seis fatores – tensão, depressão, raiva, vigor, fatiga e confusão mental – e foi possível determinar o estado de humor do atleta em diferentes momentos, como em estado de ansiedade, depressão ou melancolia e raiva. Posteriormente, os resultados são colocados em um gráfico, que permite a leitura do humor da pessoa. É traçada uma linha média no percentil 50, a qual corresponde a média do humor de cada fator humoral de determinado grupo para que sejam comparados a valores padronizados.

No item vigor, por exemplo, se os itens são pontuados acima da média, este fator é positivo, ou seja, em termos emocionais o atleta está bem em termos de energia, disposição ou motivação. Se, por outro lado, os outros fatores humorais negativos não estiverem abaixo da linha média, significa que o atleta está com algumas alterações negativas no humor, podendo este resultado afetar o seu desempenho negativamente. Nesse caso, poderá ser necessária a intervenção psicológica ou a redução da carga de treinamento. “Para cada alteração humoral, o psicólogo pode propor diferentes estratégias de intervenções que estimulem o atleta a melhorar a sua performance”, esclarece.

A escala foi aplicada em uma população de idade de 18 anos, após uma rotina de treinamento físico diário e sistematizado e, num segundo momento, após uma semana de acampamento militar sob forte estresse psicológico e situação extrema de estresse físico. Outro ponto importante do estudo destacado por Dalila foi a criação da folha de perfil de humor para a população de indivíduos fisicamente ativos. “Antes da elaboração desta folha, as comparações de resultados poderiam ser equivocadas e, portanto, poderíamos ter um psicodiagnóstico errado. Isto valida muito nosso estudo”. (R.C.S.)

 

Publicação

Dissertação: “Análise do perfil de humor e da enzima alfa-amilase salivar em indivíduos fisicamente ativos”
Orientação: Luiz Eduardo Barreto Martins
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)
Financiamento: Capes

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