| Edições Anteriores | Sala de Imprensa | Versão em PDF | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 384 - 17 a 31 de dezembro de 2007
Leia nesta edição
Capa
500 patentes
Creme para diabéticos
Patente com marca registrada
Água na agricultura
Lançamento
Niemeyer
Mata Atlântica
Filmes de diamantes
Farinha de arroz
Controle da Dengue
Estação Guanabara
Painel da semana
Teses
Livro da semana
Novo laboratório
Um aluno na batuta
 


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Produto à base de insulina é mais barato e reduz
em até seis dias o tempo médio de recuperação

Creme acelera cicatrização
de feridas em diabéticos

RAQUEL DO CARMO SANTOS

Os professores Maria Helena Melo Lima e Mário Saad, da FCM: mercado brasileiro não dispõe de fórmula semelhante à do creme (abaixo em destaque) (Foto: Antônio Scarpinetti)O produto inovador que leva a marca da patente de número 500 oferece ao portador de diabetes uma alternativa barata e eficaz no tratamento de ferimentos. Um creme, desenvolvido à base de insulina, consegue diminuir o período de cicatrização em até seis dias, em média, possibilitando uma ação local, sem a absorção do produto pelo organismo. O novo creme já foi testado em animais no Laboratório de Biologia Molecular e teve bons resultados em experimentos realizados em humanos.

Objetivo foi desenvolver
um produto acessível

A doença, que atinge cerca de 10% da população adulta no Brasil, tem como uma das principais complicações a dificuldade na cicatrização de feridas. “Com um pequeno corte, o portador do diabetes corre o risco de desenvolver uma infecção por falta de produção da insulina. Às vezes, a evolução do problema leva à amputação de um membro”, observam os autores da patente, o endocrinologista Mário Saad e a enfermeira Maria Helena Melo Lima, professores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Por isso, afirmam os cientistas, o creme cicatrizante trará um importante benefício para esse público, que enfrenta a falta de alternativas para o tratamento adequado.

Segundo Saad, não existe no mercado brasileiro fórmula semelhante para o paciente diabético. Em geral, explica o médico, o tratamento é realizado com técnicas de controle da doença e com a assepsia do local. Outras opções de procedimentos para acelerar o processo de cicatrização, como a utilização de cobertura específica para curativos, são dispendiosas e inviáveis para o atendimento em hospitais mantidos pelo SUS.

Algumas drogas podem favorecer a cicatrização, mas não acelerá-la. Em outros países, algumas experiências utilizam outras bases como fator de crescimento da pele, mas também de alto custo. Neste sentido, a primeira idéia, esclarece Maria Helena, foi desenvolver um produto acessível a todos os pacientes diabéticos.

Para chegar à formulação ideal, Saad e Maria Helena levaram, em média, um ano nos testes e em várias fases de pesquisas. A base é composta de insulina, substância encontrada por preços baixos no mercado, além de outros produtos acessíveis e de fácil manipulação. Com isso, consegue-se um produto de qualidade, sem a necessidade de altos investimentos. “É estratégico não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, o desenvolvimento de medicamentos mais baratos. No nosso caso, são drogas já conhecidas, com novas aplicações”, defende Saad.

Sinalização – Uma das linhas de pesquisa experimental do Laboratório de Biologia Molecular, coordenado pelo professor Mário Saad, diz respeito ao estudo da sinalização de insulina. Ao longo dos anos, foram descobertas diversas proteínas que são estimuladas pela insulina e estão presentes na pele de ratos normais. São elas: o receptor de insulina, o substrato I e II do receptor de insulina, a PI3 quinase, a AKT e a Map quinase. Todas essas proteínas, no entanto, são expressas em quantidades reduzidas no rato diabético. “Este aspecto nunca havia sido descrito na literatura. Existiam dúvidas quanto às causas desencadeadoras das dificuldades na cicatrização de ferimentos”, explica.

Todo o conhecimento acumulado ao longo dos anos levou os pesquisadores a uma indagação. “A dedução lógica foi que, se passasse a insulina em um determinado ferimento na pele, ela poderia ser um fator de crescimento da pele e – por que não? – de restauração do nível das proteínas”, revela Saad. Começaram então as investigações para a forma mais adequada de se aplicar o produto na pele, pois havia dúvidas sobre qual seria o melhor material para aderência – se gel, spray ou pomada.

Maria Helena, que possui vasta experiência no atendimento a portadores de diabetes, fez os testes em animais diabéticos e normais, lesionando os bichos em dois locais diferentes. Em uma das lesões, aplicou a pomada com insulina e no outro local, apenas um creme normal – o mesmo utilizado para compor o novo produto, mas sem a base da insulina. No local que recebeu o novo produto, a enfermeira observou uma cicatrização muito mais rápida. “A lesão no rato diabético que recebeu só o veículo cicatrizou em 15 dias e, no outro, cujo curativo foi feito à base de insulina, o processo durou nove dias”, explica.

Nos ratos normais, a cicatrização também ocorreu em nove dias, o que significa dizer que os níveis de cicatrização dos animais diabéticos foram semelhantes. As respostas nos dois tipos de experimentos foram semelhantes e surpreendentes. Uma grande vantagem do produto, detalha Saad, seria a sua não-absorção pelo organismo. Durante os testes, foram colhidas dosagens de glicose de hora em hora nos animais, o que levou a concluir que a ação foi apenas local. “Não há nenhum risco de o paciente ter hipoglicemia ou de ter uma queda da taxa de açúcar do sangue. Não há interferência no tratamento”, ressalta.

Como a pesquisa também foi realizada nos ratos normais, Maria Helena acredita que qualquer indivíduo poderá fazer uso do produto. No início dos testes experimentais, a expectativa era atender a um público específico, no caso os diabéticos. “A visão que temos, no entanto, é que o medicamento poderá ser utilizado em qualquer ferida”, assinala.

As pesquisas prosseguem até que se consiga o licenciamento da patente, mesmo porque os pesquisadores acreditam que é necessário um número muito grande de pacientes testados para validar o produto. “Não há mais dúvidas quanto à eficácia do medicamento, mas queremos realizar os testes em mais pacientes humanos para atender às exigências dos órgãos com petentes", finalizam.

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