Sistema de Energia Elétrica está em estado de alerta após ataques

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O Sistema Interligado Nacional (SIN) de Energia Elétrica está em estado de alerta. Após 16 sucessivos ataques que provocaram quatro quedas de torres de transmissão de energia desde o dia 8 de janeiro — mesmo dia do ataque e da depredação das sedes dos três poderes em Brasília —, o monitoramento contínuo e a rotina de vistorias foram intensificados. O provável objetivo de afetar o fornecimento e a distribuição de energia no país só não foi alcançado porque o sistema é robusto, afirma a professora Maria Cristina Tavares, do Departamento de Sistemas e Energia (DSE) da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp. Ainda assim, ataques sistemáticos podem provocar grandes consequências, como explica o professor-assistente da FEEC Daniel Dotta. 

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que criaram um gabinete especial, as quedas das torres não foram causadas por intercorrências climáticas, com base em dados passados pelas concessionárias de energia (Eletronorte, Furnas, NBTE Evoltz, ETEO Taesa e Isa CTEEP). Os ministérios de Minas e Energia e da Justiça, juntamente com a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF), se mobilizaram para investigar os ataques em pontos estratégicos ao longo do sistema, já caracterizados, portanto, como vandalismo e sabotagem, devido aos cortes de estruturas de sustentação (cabos de aço chamados de estais) e avarias de peças nas torres.

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O fornecimento e a distribuição de energia no país não foi afetado o sistema é robusto 

Robustez e redundância

Na avaliação da professora e pesquisadora Maria Cristina Tavares, os ataques foram planejados por pessoas que conhecem o sistema, porque sabiam quais linhas de transmissão deveriam ser atacadas para causar grandes efeitos. “Quem fez isso, entendia o que estava fazendo. Foram pontos bem importantes”, diz. No entanto, os caminhos paralelos para o fluxo de potência que existem no sistema garantiram a continuidade da energia, explica Maria Cristina. “O sistema estava em condições favoráveis, tanto no Madeira quanto em Itaipu, em momento de consumo baixo. Por isso, foi possível transferir a transmissão para a linha vizinha, que sofreu uma perturbação, mas entrou rapidamente em operação regular. Não teve muito problema. Nosso sistema é bem robusto.”

O professor Daniel Dotta compara o funcionamento do sistema de energia ao de um avião. “Se falhar uma turbina, tem a outra. E se falhar outra, o avião não vai cair de uma vez: ele vai planar. É tudo planejado para funcionar. O sistema é todo cheio de redundância. Derrubando uma torre, você não vai causar uma consequência grave para o sistema. Mesmo que você tenha contingências, o sistema está preparado para isso. A anormalidade é você ter uma ação terrorista. O resto está previsto. No fim das contas, essa ação é como se fosse uma contingência, como uma queimada perto de uma linha de transmissão que pode fazer cair uma linha, por exemplo. O sistema está preparado para isso”, avalia o professor. “Mas se eles ficarem sistematicamente fazendo isso, uma aqui e outra muito próxima, provavelmente terá uma consequência.” Segundo o professor, uma cidade nunca é alimentada apenas por uma linha de transmissão.

Em uma linha de 200 km, existem cerca de 420 torres, a aproximadamente 500 metros de distância uma da outra. “Se você interrompe algumas linhas que carregam muita potência, que são muito importantes, você causa uma perturbação, e essa perturbação poderia provocar um efeito cascata. Mas, como eu disse, o sistema estava (durante os ataques às torres) numa condição favorável. Poderia acontecer corte de carga ou rápida interrupção em alguma cidade, mas depois retornaria ao atendimento normal. O sistema é feito para suportar esse tipo de perturbação”, diz a professora Maria Cristina.

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A professora Maria Cristina Tavares, do Departamento de Sistemas e Energia (DSE) da FEEC: ataques foram planejados por pessoas que conhecem o sistema

Os ataques

Os ataques ocorreram em três estados diferentes: São Paulo, Paraná e Rondônia. Das quatro torres que caíram, três foram no estado de Rondônia (nas cidades de Ariquemes, dia 8/01; Rolim de Moura, dia 8/01; e Pimenta Bueno, dia 16/01); e uma no Paraná (Medianeira, dia 10/01).

Em São Paulo, as torres danificadas, que não chegaram a cair, foram a de Rio das Pedras (no dia 13/01) e a de Palmital (no dia 12/01). Em Rondônia também sofreram ataques diversas torres em Cujubim, no dia 8/01. No Paraná, além de Medianeira, houve ataques também em Tupãssi, no dia 13. 

Em Rondônia, uma interligação importante com Mato Grosso, composta por várias linhas de transmissão de 230 kV, foi atacada. No trecho entre Samuel (Porto Velho) e Ariquemes (extensão de 156 km), onde há quatro circuitos em paralelo, um deles foi atacado. No trecho entre Pimenta Bueno e Vilhena (de 160 km), onde operam três linhas em paralelo, afirma Maria Cristina, tentaram derrubar quatro torres de uma mesma linha, e uma delas caiu; atacaram uma linha, mas nos outros dois circuitos o fluxo continuou. As torres já estão operando, explica a professora. “A recomposição do sistema é rápida, mas há um custo.”

Em algumas das ações dos vândalos, foram cortados os cabos de aço (estais), cuja sustentação é por tração. “Isso é um absurdo, porque quando este cabo rompe, ele vem com muita força. Se atingir uma pessoa, corta-a como se fosse uma manteiga. Portanto, cometer um ato desses representa um risco muito grande. É como segurar um elástico esticado, mas é um cabo de aço pesado”, descreve Maria Cristina.

“Estamos com o sistema bem protegido, com esquema de operação especial acionado, plantões adicionais dos operadores, para respondermos rápido. O sistema elétrico é complexo de operar, há muito trabalho para deixá-lo robusto”, afirma a professora. A operação do sistema hoje é a mesma que funciona, por exemplo, em véspera de grandes eventos esportivos, como o fim de jogo de campeonato: em sistema de alerta.

Segundo divulgação do Ministério da Justiça, existe a intenção de unificar os casos que estão sendo investigados separadamente pela PF. A determinação foi para que as concessionárias aumentem a segurança, além do policiamento intensivo e do uso de drones. Até o momento, ninguém foi preso.

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O professor Daniel Dotta, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação: ataques sistemáticos podem provocar grandes consequências 

A proteção do sistema

A professora Maria Cristina Tavares não acredita na viabilidade do uso de drones, em função das grandes distâncias que existem no Brasil. “O Brasil é um país continental com grandes distâncias, e nosso sistema elétrico opera interconectado, uma coisa que não existe em muitos lugares do mundo. O sistema brasileiro é único: ele é gigante e é conectado.” O sistema mais semelhante ao nosso é o da China, com distâncias até maiores, mas com uma frequência diferente da nossa (lá é 50 Hz, enquanto aqui é 60 Hz), comenta a professora. “Os problemas são muito parecidos com os da China. Nos Estados Unidos, o sistema também é grande, mas não é integrado.”

Em 2020, tínhamos 160 mil km de linha de transmissão no Sistema Interligado Nacional (SIN). Em 2030, deveremos chegar a 200 mil km. “Por isso, não acho que dá para proteger as linhas de transmissão com drones. De Porto Velho a Araraquara são 2390 km. Não tem como vigiar com drone. Mas é possível controlar as rodovias ou ferrovias por onde chegam as pessoas aos locais. As torres não ficam em locais de fácil acesso”, diz a professora.

O monitoramento que existe hoje no SIN é elétrico, ou seja, o dano é identificado quando há uma interrupção de energia. Mas, se uma torre está sendo vandalizada, não há este controle. “Quem atacou sabia que não havia câmera. Isso não é só no Brasil, não existe (monitoramento por câmera) no mundo, até onde eu tenha conhecimento. Nós temos sensoriamento elétrico, da corrente e da tensão. Monitorando as perturbações nas tensões, é possível identificar rapidamente um problema”, explica Maria Cristina.

Na opinião da professora, a longo prazo, deveríamos adotar um sistema de monitoramento mecânico para identificar perturbações que inclusive já existiam, como furto de equipamentos. “Apesar de esta situação (os ataques criminosos às torres) ser passageira, porque a polícia está atuando, seria interessante um monitoramento mecânico, que não é tão caro a ponto de ser proibitivo”, defende a professora.

Normalmente, quedas de torres de energia ocorrem por fenômenos meteorológicos. Nessa época do ano, devido a ventos e chuvas fortes, essa ocorrência é comum.

Segurança nacional

O professor Daniel Dotta fala da complexidade do SIN. “O sistema de energia é um negócio bastante complexo. Ele é planejado 30 anos à frente. Você tem uma cadeia de planejamento a longo prazo, em que são elaborados cenários. Todas as usinas têm um plano decenal, porque existe a consciência de que esta é uma estrutura crítica, que não tem sido afetada diretamente pelos governos passantes, então a infraestrutura se mantém”, avalia. “Fazer um ataque não é uma coisa tão simples assim”, afirma Dotta.

Nos Estados Unidos, lembra o professor, a questão do terrorismo é incluída nos planejamentos devido às ameaças externas. “Provavelmente, teremos que incorporar essas ameaças, que, aqui, são internas. Isso provavelmente terá um custo”, defende o professor. “É uma questão de segurança nacional, uma infraestrutura crítica.”

Dotta também avalia que a segurança do SIN, hoje, é muito boa. “O sistema é bem planejado e é robusto. Principalmente o sistema de transmissão, que é a parte que estão atacando. Estão tentando fazer um distúrbio que chame a atenção. O objetivo é acabar com a energia, é provocar uma coisa grande. Mas a chance de conseguirem é muito baixa.”

O professor defende que haja uma investigação para descobrir quem está promovendo os ataques. “Essa é a coisa mais óbvia que se tem a fazer. Existe um ataque terrorista. É preciso fazer uma investigação e prender esse pessoal, porque é um caso de polícia.”

Em geral, quedas de torres de energia ocorrem por fenômenos meteorológicos
Em geral, quedas de torres de energia ocorrem por fenômenos meteorológicos

Base renovável

O sistema de energia elétrica brasileiro tem base renovável, diferentemente dos Estados Unidos, da China e de países da Europa, cujas bases são poluentes, como gás, diesel e carvão, lembra a professora Maria Cristina Tavares. O Brasil sempre teve hidrelétricas e, nos últimos anos, construímos grandes usinas eólicas e, mais recentemente, solares. “Temos parques eólicos e de energia solar também. No Nordeste, temos muita geração eólica, uma fonte de energia muito importante, que também conversa com o sistema interligado nacional. Nosso vento é de boa qualidade, numa boa faixa de velocidade. O vento é bom e barato, ao contrário de outros países, que precisam colocar eólicas marítimas em alto-mar. Temos também muitas casas em todo o país que adotaram energia solar, que é a geração distribuída que entra na faixa de tensão baixa, mas injeta para o sistema como um todo. Tudo isso é limpo e renovável. Nossos sistema é invejável”, diz Maria Cristina.

Uma das características do SIN brasileiro é sua estrutura interligada. Grandes usinas, como Belo Monte, por exemplo, fornecem energia para Minas Gerais e Rio de Janeiro, ou seja, a energia é produzida em uma parte do país e distribuída. “O excedente escoa, passa de uma região para outra, através das linhas de transmissão”, explica a professora. As duas grandes usinas da Região Norte, como Tucuruí e Belo Monte (ambas no estado do Pará), ficam a cerca de 2560 km de distância de São Paulo e a cerca de 2270 km dos estados do Nordeste.

Por conta da nossa extensão, temos épocas de chuva diferentes ao mesmo tempo no país. Quando temos muita chuva no Sul, normalmente temos falta no Sudeste ou Nordeste. “Agora, no Sudeste, estamos acumulando, e em algumas usinas no país estamos começando até a verter água, sem conseguir gerar energia. O Operador (ONS) está otimizando o despacho das usinas para minimizar a perda pela operação dos vertedouros, promovendo um intercâmbio energético entre as regiões. Por conta da nossa geografia, temos muitas e grandes usinas hidrelétricas em várias regiões. Fazemos essa troca, por isso temos um sistema bem seguro ao longo do ano, feito para aguentar até cinco anos com secas mais fortes.”

Torres danificadas

Rondônia: 6 (Cujubim, dia 8)

Paraná: 4 (Medianeira, dia 10; Tupãssi, dia 13)

São Paulo: 2 (Rio das Pedras, 13; Palmital, 12)

Fonte: Aneel

 

Torres derrubadas

Rondônia: 3

(Ariquemes, dia 8; Rolim de Moura, dia 8; Pimenta Bueno, dia 16)

Paraná: 1 (Medianeira, dia 10)

Fonte: Aneel

 

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Os ministérios de Minas e Energia e da Justiça, juntamente com a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF), se mobilizaram para investigar os ataques em pontos estratégicos ao longo do sistema

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