ProFIS comemora mais de dez anos de conquistas

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A VII Mostra Científica do ProFIS foi realizada entre os dias 6 e 7 de dezembro

Quando o Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) foi idealizado na Unicamp, muitas pessoas da comunidade universitária questionaram a viabilidade da iniciativa. Um curso de ensino superior de formação geral, voltado a estudantes de escolas públicas, que não demandava um vestibular e que permitiria aos seus formandos ingressarem em qualquer graduação da Universidade, era algo inédito no país e esbarrava em diversos focos de resistência. Ainda assim, a iniciativa persistiu e, doze anos depois, ela é um sucesso, modificando a vida de mais de mil estudantes vindos de 101 escolas públicas do município de Campinas. 

“Antes do ProFIS, 70% das escolas públicas de Campinas nunca tinham colocado um aluno sequer na Unicamp. É um dado que assusta”, revela o ex-reitor da Unicamp Marcelo Knobel, que foi um dos idealizadores do Programa quando ocupava o cargo de Pró-Reitor de Graduação, durante a gestão de Fernando Ferreira Costa (2009-2013). “Foi um processo bastante complexo, de convencimento e discussão. Acho que a gente fez um belo trabalho, e, de fato, o que aconteceu é que a instituição vestiu a camisa. Hoje, os docentes ensinam no ProFIS de maneira voluntária, muitas vezes dobrando sua carga didática, e mesmo assim há uma fila de professores esperando para dar aula”.

O relato de Knobel foi feito durante a VII Mostra Científica do ProFIS, realizada nos dias 6 e 7 de dezembro. Como uma das principais características do programa é o incentivo às atividades de pesquisa, desde 2016, os estudantes do ProFIS encerram as disciplinas de iniciação científica com uma mostra, na qual apresentam os resultados das pesquisas desenvolvidas em áreas como saúde, exatas, artes, humanas e biológicas. Neste ano, o evento foi realizado em conjunto com as comemorações dos mais de dez anos do programa, que completou uma década em 2020, quando as medidas de distanciamento físico decorrentes da pandemia de covid-19 não permitiram as celebrações.

Além da sessão de pôsteres, a mostra pretendia apresentar um “tour” pela história do ProFIS. Assim, ao longo dos dois dias de encontro, foram realizados debates com diversas pessoas que se envolveram com o programa, incluindo seus criadores, coordenadores, professores e alunos. Houve, por exemplo, uma mesa com os idealizadores do Programa, que conversaram sobre como a iniciativa havia sido pensada, desde o início, como um curso de formação geral que prescindisse do vestibular.

“Lembro que, nessa época, a Unicamp já aplicava uma espécie de correção, conferindo pontos para alunos de escolas públicas e negros”, lembra o ex-reitor Fernando Costa, que teve a ideia original do Programa. “Mas isso não resolvia o problema de alunos que vinham de escolas com menos estrutura, pois os escolhidos seriam os alunos das melhores escolas públicas. Esse sistema não conseguia captar aquelas escolas que não dão uma formação adequada, mas que ainda têm gente muito boa. Por isso, decidimos que seriam incluídas todas as escolas públicas de Campinas”.

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Os ex-reitores Fernando Costa e Marcelo Knobel e a coordenadora do ProFIS, Ana Elisa Assis: oportunidade para que os estudantes conheçam a Universidade antes de escolherem qual caminho querem seguir 

Desde então, o ProFIS se tornou uma política de grande sucesso, que permitiu abrir a Universidade para a de diversidade e a inclusão social. Entre as suas principais características, está a obrigatoriedade da atividade de iniciação científica, com a concessão de bolsas para os alunos, e a integralidade do curso, que permite aos discentes aproveitarem melhor o ambiente acadêmico. Como resultado, em 2013 o Programa foi vencedor do prêmio Péter Murányi, que reconhece a contribuição de trabalhos que buscam melhorar a vida de populações em desenvolvimento.

Para se ter uma ideia da contribuição da iniciativa, 70% do quadro discente do ProFIS é composto por mulheres e 40% por pessoas não brancas. Este é um quadro ainda mais interessante quando se constata que a mesa com os idealizadores era composta por cinco pessoas brancas, sendo apenas uma mulher. Quem fez essa observação foi o docente Renato Pedrosa, do Instituto de Geociências da Unicamp, que participou da discussão com os idealizadores, lembrando que nenhum outro programa de inclusão social no Brasil tem essa característica.

Para Pedrosa, que estuda políticas públicas relacionadas ao ensino superior, parte da resistência dos últimos anos em relação às iniciativas de acesso à universidade é o fato de que estas são voltadas a grupos desfavorecidos. Ele enfatiza que, em dez ou vinte anos, quando a Unicamp estiver propondo novas políticas de ação afirmativa, serão profissionais como os que saíram do ProFIS que estarão na mesa debatendo o assunto. “A área de pesquisa em ensino superior e inclusão social é uma área importante de estudo e pode ser que alguns de vocês venham a se interessar por ela. É uma área de ciência, de pesquisa da sociologia, da educação e da política”, orienta.

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Pró-reitor de Graduação Ivan Toro: Programa permitiu abrir a Universidade para a de diversidade e a inclusão social

Objetivos e Desafios

Atualmente, um dos principais objetivos da coordenação do ProFIS é a sua ampliação, tanto em termos de número de alunos beneficiados, quanto de sua implantação nos campi de Limeira e Piracicaba. Esse também é um dos maiores desafios do curso, visto que tal objetivo depende de aspectos como maior financiamento e disponibilização de vagas na graduação para os egressos. Além disso, o Programa também precisa se tornar mais conhecido pela comunidade universitária, visto que boa parte do público interno nunca ouviu falar desse curso ou tem uma visão equivocada a seu respeito.

De acordo com a coordenadora Ana Elisa Assis, uma das críticas que o curso recebe é a premissa de uma formação de dois anos para somente depois ocorrer o ingresso na graduação, o que muitas pessoas consideram perda de tempo. No entanto, defende ela, esses dois anos são uma conquista do programa e dão a oportunidade para que os discentes conheçam a Unicamp antes de escolherem qual caminho querem seguir. “Isso é algo que a gente percebe que falta para os alunos que entram direto pelo vestibular, porque dois anos é um período para se ambientar, conhecer a instituição e tomar uma decisão mais de acordo com aquilo de que eles gostam e do que se sentem mais próximos”.

Assis aponta que outra grande conquista do ProFIS é o comprometimento por parte das áreas do conhecimento da Unicamp, tanto no que se refere à articulação entre as disciplinas ofertadas, quanto na disponibilização de vagas na graduação. “Nesse aspecto, devo destacar a Faculdade de Ciências Médicas, porque eles são o grupo que tem ampliado significativamente a quantidade de vagas disponíveis, já que grande parte dos nossos estudantes têm interesse por esse curso”, observa a professora.

Após a finalização do curso de formação, o egresso pode se matricular em uma das graduações da Unicamp sem precisar fazer o vestibular, respeitando apenas o número de vagas disponíveis e a ordem de escolha, que é determinada pelo coeficiente de rendimento dos estudantes. Entre 2013 e 2020, 620 estudantes ingressaram em 63 cursos diferentes por meio dessa modalidade. Liderados pela medicina, que aumentou o número de vagas disponíveis para o ProFIS de cinco para dez, os cursos com maior concorrência como primeira opção são as ciências econômicas, engenharia civil, engenharia de computação e fonoaudiologia.

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Os docentes Lício Veloso, Renato Pedrosa e Auteliano Antunes dos Santos Junior participaram da cerimônia de abertura da comemoração

Comprometimento dos alunos  

Ser professor no ProFIS é ao mesmo tempo um grande desafio e um enorme aprendizado. Por se tratar de um curso voltado a egressos de todas as escolas públicas de Campinas, alguns alunos tiveram a oportunidade de receber uma educação de qualidade, enquanto outros passaram o Ensino Médio inteiro sem ver uma aula de biologia ou história. Segundo o professor de química Gildo Girotto, essa diversidade é algo muito complexo, porque os docentes precisam adequar o projeto de ensino da disciplina para os diferentes níveis educacionais, mas ela traz um retorno muito positivo, porque os estudantes aproveitam a oportunidade que receberam e são muito comprometidos com o curso.

Girotto é docente no ProFIS desde 2018 e comenta que, ao longo desse tempo, trabalhou com estudantes muito engajados, que criam uma identidade forte com a universidade e entre si. Além dos estudantes que ingressaram nos cursos de química ou engenharia química, ele trabalha com três egressos em um projeto de divulgação científica e observa a sua dedicação à universidade. “São alunos do IEL, do Cursão e da Medicina, e é muito legal ver as diferentes evoluções, os diferentes caminhos que eles trilharam ao longo de suas trajetórias. E você nota como a participação no ProFIS gera uma proatividade, um grau de engajamento com outros projetos na universidade que é muito interessante”, elogia.

Este é o exemplo dos egressos Bruna Marconatto e Lucas Buscaratti, que participaram, respectivamente, das turmas de 2015 e 2016 do ProFIS, e cursam Ciências Biológicas na Unicamp. Durante sua passagem pelo Programa, eles integraram o Diretório Científico Interdisciplinar (DCI) e, mesmo após se formarem, continuam participando da iniciativa por meio da organização das Mostras Científicas, como uma forma de contribuir para que outros estudantes de escolas públicas também tenham acesso a ela.

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Lucas Buscaratti e Bruna Marconatto participaram das turmas de 2016 e 2015, respectivamente, e cursam Ciências Biológicas na Unicamp

Buscaratti, por exemplo, participou da Força-Tarefa Contra Covid-19, uma iniciativa da Unicamp para colocar sua infraestrutura e seus recursos humanos à serviço da sociedade durante a pandemia. Para ele, se não fosse o ProFIS, não teria conseguido ingressar na Universidade e nem teria tido a oportunidade de explorar todo o seu potencial de ajudar as pessoas e fazer ciência. “Eu não estaria aqui fazendo a diferença em tantos campos, inclusive na biologia, e mudando a vida dessas pessoas, da minha família e dos próximos estudantes também”, defende.

Bruna concorda, comentando que o Programa foi responsável por ampliar a forma com que ela enxerga o mundo. “Acho que eu era uma pessoa muito limitada, porque cresci em uma bolha e, graças à Unicamp, aumentei muito meu leque de conhecimento. O ProFIS representa muito para mim, e não é à toa que até hoje estou aqui, lutando pelos alunos e mostrando que o ProFIS é um curso que faz ciência séria e que as pessoas deveriam valorizar mais", finaliza a aluna.

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Audiodescrição. Ilustração colorida de uma extensa estante repleta de livros, em imagem frontal e à curta distância, sendo que ela é vermelha e possui 3 prateleiras com livros de diferentes formatos e cores, dispostos um ao lado do outro, de forma bem organizada. Imagem 1 de 1

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Escritor e articulista, o sociólogo foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais no biênio 2003-2004