Extrema-direita domina o campo conservador, aponta cientista política

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Da década de 2000 em diante, o campo da direita brasileira se reconfigurou. Surgem novos grupos políticos que, impulsionados pela pauta anticorrupção e pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, se popularizam. De forma inédita no Brasil, esses atores passam a puxar grandes manifestações de rua, tendo como pauta histórica a defesa radical do livre mercado. Uma análise minuciosa sobre esses grupos foi realizada pela cientista política Camila Rocha, cuja investigação ganhou o prêmio de melhor tese de doutorado pela Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP). Pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Rocha detalha, nesta entrevista para a série Horizontes Contemporâneos, como uma nova direita se configurou no Brasil e foi hegemonizada pela extrema-direita.

A nova direita comporta desde o fenômeno do bolsonarismo a organizações da sociedade civil, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, e partidárias, a exemplo do Partido Novo. Esses grupos são diversos entre si e têm pontos de convergência e divergência, conforme Rocha. “Há uma aproximação sobretudo em questões econômicas, na defesa das ações de Paulo Guedes (ministro da Economia) e sua equipe, por exemplo. Mas grupos da nova direita não-bolsonaristas são refratários ao legado da ditadura militar, tanto por conta do autoritarismo como pelas políticas econômicas nacionalistas e estatizantes”, explica.

O domínio do campo da direita pela extrema-direita, avalia a cientista política, ocorre “pela dificuldade do campo progressista de se comunicar de forma efetiva e propor soluções eficazes e de curto e médio prazo para os problemas da população, sobretudo nos âmbitos da segurança pública e das políticas direcionadas à família” e pelo fato de Bolsonaro ter se colocado como um “representante de um polo antissistema em meio a uma institucionalidade política percebida como corrupta de ponta a ponta e desacreditada como produtora de bem-estar social”.

Autora do livro Menos Marx, mais Mises: O liberalismo e a nova direita no Brasil, Rocha indica que o bolsonarismo é um fenômeno que persistirá, mesmo que haja derrota nas eleições. A pesquisadora aborda ainda a popularização da direita e as formas de atuação dos grupos da nova direita.

A cientista política Camila Cunha: “O bolsonarismo conquista eleitores menos por suas pautas extremistas e mais pela dificuldade do campo progressista de se comunicar de forma efetiva”  
A cientista política Camila Cunha: “O bolsonarismo conquista eleitores menos por suas pautas extremistas e mais pela dificuldade do campo progressista de se comunicar de forma efetiva”

Você aponta que, após a redemocratização, havia uma vergonha da direita em se assumir enquanto tal e que, hoje, o cenário é outro. Como ocorreu e ao que se deve essa transição?

Camila Rocha – A transição começou a ocorrer à medida que pessoas de direita começaram a ocupar as ruas. Já existiam manifestações de grupos pequenos, mas isso se popularizou com protestos contra a corrupção em 2011 e 2012. E ganhou um novo impulso após junho de 2013 e principalmente com as manifestações pelo impeachment de Dilma, sobretudo nos anos de 2015 e 2016.

Ao mesmo tempo, à medida que o PT permaneceu no poder e que escândalos de corrupção foram eclodindo, erodindo uma das bandeiras originais do partido, a luta pela ética, as pessoas foram se afastando da reivindicação de esquerda, e o próprio partido e suas lideranças também davam sinais mistos nesse sentido. Por um lado apoiando lideranças e governos latino-americanos de esquerda, e por outro se afastando do rótulo e da cor vermelha em suas comunicações internas.

Quando ocorre a ascensão de novos grupos de direita no Brasil. Quais são as peculiaridades dessa “nova direita”?

Camila Rocha – Os grupos que defino como nova direita começaram a se formar na metade dos anos 2000, sobretudo na rede social Orkut. Na época, em sua maioria, eram grupos diversos entre si, mas que tinham em comum a defesa de uma agenda conservadora programática e a defesa radical do livre mercado. Hoje há uma hegemonia do bolsonarismo nesse campo, e grupos mais extremistas e reacionários, que são menores, por vezes conseguem maior alcance por parte da atuação pública de Bolsonaro.

Como você avalia a aproximação desses grupos da nova direita com a extrema-direita? Quais são os pontos convergentes e divergentes e como a nova direita se divide nesse apoio? A união em torno do antipetismo ainda é mais forte que as divergências com o bolsonarismo?

Camila Rocha – A aproximação entre grupos nas ruas, nas redes ou institucionalmente tende a ser mais episódica, para defesa de questões pontuais, e pragmática. Há uma aproximação sobretudo em questões econômicas, na defesa das ações de Paulo Guedes e sua equipe, por exemplo. Mas grupos da nova direita não-bolsonaristas são refratários ao legado da ditadura militar, tanto por conta do autoritarismo como pelas políticas econômicas nacionalistas e estatizantes.

O principal ponto de divergência se refere à valorização do legado da ditadura. E o antipetismo permanece uma força política importante nesse sentido de colaboração pragmática entre diferentes grupos.

Um dos grupos protagonistas dessa nova direita, o MBL, atuou nas manifestações pela privatização do transporte público e pelo impeachment. Depois se partidarizou, lançou candidaturas e conseguiu alçar alguns nomes à política formal. Pensando nesse exemplo, quais são as formas de atuação dos grupos da nova direita, que você aponta terem uma rede ampla e capilarizada?

Camila Rocha – Desde o início esses grupos fizeram uma aposta de se dividir em vários partidos diferentes, porém compartilhando uma mesma agenda. Então é possível observar pessoas da nova direita em partidos tradicionais, como o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), no recém-criado União Brasil e em partidos menores e menos expressivos eleitoralmente.

Para além de atuar em partidos, grupos da nova direita também se mobilizam no formato de movimentos, organizam protestos de rua, estão presentes em chapas para centros acadêmicos e diretórios estudantis, grupos de estudo em universidades públicas e privadas, e associações civis das mais diversas, como os think tanks. Nesse sentido, uma das principais organizações que reúne direitistas contemporâneos é o Instituto Mises Brasil (IMB), liderado por Hélio Beltrão Jr., que passou a escrever colunas na Folha de S.Paulo.

Como é a relação desses grupos com outras organizações liberais/empresariais que também foram protagonistas nas manifestações pró-impeachment, como a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que recentemente foi uma das protagonistas da carta pela democracia? Como esses grupos têm se portado em relação às ameaças à democracia?

Camila Rocha – O próprio MBL fez manifestações pelo impeachment de Bolsonaro e pressionou nesse sentido. No entanto, outros grupos ficam mais tensionados ao se posicionar publicamente por conta tanto de questões partidárias, mas também pelo medo de perder eleitores. As relações do grande empresariado, concentrado na Fiesp, com esses grupos são episódicas e menos frequentes em comparação com políticos tradicionais.

Atualmente, o campo da direita tem a hegemonia da extrema-direita. Na sua avaliação, como está a organização do campo hoje, pensando também em como está organizado para as eleições, e ao que se deve a supremacia da extrema-direita?

Camila Rocha – A extrema-direita na sociedade representa uma fatia pequena da população, mas suas pautas acabam infladas pela presidência de Bolsonaro. Então é uma dinâmica de poder que pode mudar a depender dos resultados eleitorais dos próximos anos. Mas o bolsonarismo é um fenômeno social mais enraizado na sociedade brasileira, mais “nacionalizado” e com maior capilaridade em comparação com fenômenos como o janismo ou o malufismo, e sua potência não deve ser menosprezada ainda que Bolsonaro perca as eleições de 2022.

A partir da sua experiência de pesquisa sobre o eleitorado de Bolsonaro, qual sua avaliação sobre a forma como a extrema-direita conquista os eleitores e por que a direita “tradicional” perdeu essa hegemonia?

Camila Rocha – Na verdade, o bolsonarismo conquista eleitores menos por suas pautas extremistas e mais pela dificuldade do campo progressista de se comunicar de forma efetiva e propor soluções eficazes e de curto e médio prazo para os problemas da população, sobretudo nos âmbitos da segurança pública e das políticas direcionadas à família, que dialoguem com uma ética de cuidado que vai para além de questões estritamente materiais.

Além disso, a aposta de se colocar como representante de um polo antissistema em meio a uma institucionalidade política percebida como corrupta de ponta a ponta e desacreditada como produtora de bem-estar social ainda continua a render frutos, sobretudo por conta do carisma de Bolsonaro ao se colocar simbolicamente como alguém que “fala a verdade, doa a quem doer” e como um “homem comum”, ganhando a empatia de amplos setores da sociedade.

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Cena do desfile da Independência realizado ontem em Brasília (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

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