Bruce Lewenstein, da Universidade de Cornell, participará de webinar sobre comunicação pública de ciência e tecnologia

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No dia 10 de dezembro, às 13h30, o Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação da Unicamp (Lab-GEOPI) encerra seu ciclo de webinários 2021. Foram oito eventos online, em português e em inglês. Ao longo do ano, convidados do Brasil e do exterior discutiram temas como “the future of future studies”, “big data and evaluation”, “avaliação em tempos de covid” e “ciências da implementação: o desafio de aterrissar as políticas públicas”. Os encontros podem ser revistos no canal do Geopi no Youtube.

No 9° webinar do Geopi, que conta com parceria da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp (SEC) e será transmitido pelo canal da TV Unicamp no YouTube, os convidados são Bruce Lewenstein, da Universidade de Cornell, e Marcelo Knobel, ex-reitor da Unicamp. Eles irão abordar temas relacionados ao conceito de Comunicação Pública de Ciência e Tecnologia (CPCT). A apresentação de Lewenstein tem como título "Da popularização à CPCT: mudando a compreensão da ciência e dos públicos”; Knobel falará sobre a “Ciência contra o negacionismo e a pseudociência”.

Lewenstein é professor de divulgação científica e ex-diretor do Departamento de Estudos de Ciência e Tecnologia de Cornell. Mundialmente conhecido nos estudos de comunicação pública de ciência e tecnologia, seu trabalho tem duas áreas de impacto: educação para profissionais de CPCT e formulação de políticas de pesquisa sobre conhecimento público em relação à ciência e tecnologia (C&T). Ambas seriam ferramentas de alavancagem de uma melhor compreensão pública de C&T.

Ele é também membro fundador da Rede Internacional de Comunicação Pública de Ciência e Tecnologia, que reúne profissionais dessa área de todo o mundo, e integra o conselho consultivo do recém-criado projeto Global SCAPE (Global Science Communication and Perception), iniciativa do projeto Horizon 2020, da União Europeia, que nos próximos dois anos pretende compor uma imagem global da divulgação científica.

Lewenstein e Knobel se conhecem desde 2007, quando o docente da Unicamp teve a oportunidade de visitá-lo em Cornell. Desde então, mantêm contato por meio de redes, conferências e atividades na área. “O professor Lewenstein é uma referência mundial na área de percepção pública de ciência e tecnologia. Tenho acompanhado seu trabalho por causa da minha vinculação com essa área, com a qual venho colaborando desde o início dos anos 2000, no Laboratório de Estudos Avançados Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Ele sempre foi muito generoso colaborando com grupos brasileiros”, disse o ex-reitor.

Para Bruce Lewenstein, a comunicação pública de ciência e tecnologia deve fazer parte do diálogo entre os diferentes grupos da sociedade
Para Bruce Lewenstein, a comunicação pública de ciência e tecnologia deve fazer parte do diálogo entre os diferentes grupos da sociedade

O Portal da Unicamp conversou com Bruce Lewenstein. Confira a entrevista a seguir.

Portal da Unicamp - Qual a melhor definição para o conceito de comunicação pública de ciência e tecnologia (CPCT) e por que você prefere esse termo ao invés de “divulgação científica”?

Bruce - A comunicação pública de ciência e tecnologia cobre todos os aspectos da comunicação com não-especialistas - jornalismo científico, museus de ciência, atividades comunitárias, festivais de ciência, histórias em quadrinhos, programas de televisão, livros populares, brinquedos científicos e assim por diante. Embora muitos usem o termo “divulgação científica”, prefiro destacar o aspecto público da CPCT. Divulgação científica também pode se referir a publicações revisadas por pares, apresentações que os cientistas fazem em conferências uns para os outros, compartilhamento de conjuntos de dados e protocolos e até mesmo materiais. Essas são atividades extremamente importantes na ciência e temos que continuar a prestar atenção nelas.

Portal da Unicamp - O senhor já vem trabalhando há algum tempo com Luisa Massarani (da Fiocruz) e Ildeu Moreira (ex-presidente da SBPC), e divulgaram importantes trabalhos da área de comunicação pública sobre o Brasil. Qual sua percepção sobre a CPCT realizada no país?

Bruce – O Brasil tem uma longa tradição de forte CPCT. Há revistas e documentários de televisão, museus de ciências e centros de natureza. No passado, o governo patrocinou uma quantidade significativa de comunicação pública, como um treinamento de ciências. A televisão comercial brasileira experimentou novelas sobre temas científicos, como O clone [Gloria Perez, 2001/2002], em que a clonagem humana era o ponto central da trama. O Brasil também enfrenta os desafios da diversidade da sua população, dos ricos às favelas, encontrando maneiras de ajudar as comunidades a expressar suas necessidades científicas e técnicas.

Portal da Unicamp - No Brasil, onde o orçamento da ciência desenvolvida nas universidades públicas sofre com cortes cada vez mais profundos por parte do governo, a comunicação acaba ficando em segundo plano, para que sejam priorizadas as atividades fim (ensino, pesquisa e extensão). Que papel a CPCT deve cumprir nesse contexto?

Bruce - Alguns profissionais de CPCT (como assessores de comunicação em universidades e instituições de pesquisa) estão focados em fornecer informações sobre ciência para públicos diversos. Eles usam todas as ferramentas modernas de comunicação - impressa, áudio, visual, mídia social, televisão etc., mas outros profissionais da CPCT precisam se concentrar em escutar as comunidades, ajudando os cientistas a ouvir os não-especialistas. Por exemplo, considere uma comunidade com problemas de qualidade da água. Os profissionais da CPCT podem ajudar a comunidade a definir os problemas. Os problemas são técnicos (como medimos a poluição)? Eles são políticos (como fazer para que o governo pague pela limpeza da água)? São problemas estruturais da sociedade (como regulamos os negócios para que os custos da poluição sejam maiores do que os custos de métodos de produção mais limpos)? Nessas situações, os profissionais da CPCT precisam ajudar as comunidades a se conectar com os cientistas e ajudar os cientistas a entender que as soluções "técnicas" nem sempre são as melhores. Isso significa ajudar os cientistas a compreender a política e a economia que moldam a própria ciência. Os profissionais da CPCT precisam, portanto, ser capazes de produzir mensagens e, mais importante, ouvir as comunidades expressarem seus interesses e preocupações - e então levar esses interesses e preocupações à comunidade científica.

Portal da Unicamp - Com o avanço das mídias digitais, a CPCT tem novas formas de chegar às pessoas. Como o senhor avalia esses novos meios de comunicação e de que forma as instituições públicas de ensino superior podem usá-los para que a ciência e a tecnologia se tornem mais acessíveis à população externa à comunidade acadêmica?

Bruce – A mídia digital oferece tremendas oportunidades para contar histórias, para se conectar diretamente com o público, e para ouvir esses públicos por meio de perguntas e comentários. Isso não significa que vamos abandonar as publicações impressas (como livros e revistas) ou atividades presenciais (como museus e feiras de ciências). Mas podemos aprender a contar histórias de novas maneiras. São muitos os desafios. Muitos comunicadores talentosos têm pouca ou nenhuma formação científica. Alguns deles são ótimos em fazer perguntas e obter ajuda para discutir ciência e tecnologia de maneira informada. Infelizmente, algumas pessoas não percebem que estão divulgando informações incorretas ou enganosas. Na mídia tradicional, com editores profissionais, existe uma camada de verificação. Mas com a mídia digital, qualquer pessoa pode postar diretamente e perdemos a verificação que às vezes é necessária.

Portal da Unicamp - Em seus textos, notamos a defesa dos canais dialógicos sobre questões de C&T como fundamentais para a democracia. Como a participação responsável e informada dos cidadãos pode ajudar na construção de sociedades mais democráticas?

Bruce - A democracia não é fácil, como seu país e o meu descobriram nos últimos anos. Requer discussão livre e aberta, equilíbrio entre controle independente e deferência à expertise, distinção entre expertise e autoridade. Ela diz respeito a cada pessoa assumir a responsabilidade de buscar as melhores informações e usá-las para tomar decisões sobre como operar a sociedade. Muitas soluções para problemas sociais não são fáceis e requerem compromissos entre diferentes valores - como a importância da tomada de decisão e controle locais e o valor de fontes de informação centralizadas e bem testadas. O verdadeiro diálogo, que envolve a troca respeitosa de informações e perspectivas, é fundamental para a democracia. Como vivemos em um mundo criado em parte pela ciência e tecnologia, o que os franceses chamam de “viver em uma cultura científica”, a comunicação pública da ciência e da tecnologia deve fazer parte do diálogo entre os diferentes grupos da sociedade. É por isso que CPCT não trata apenas de fornecer informações. Tem que ser parte da criação e sustentação de um verdadeiro diálogo.

Portal da Unicamp - Na sua apresentação no webinar promovido pelo Geopi, o senhor tratará do tema "Da popularização à CPCT: mudando a compreensão da ciência e dos públicos". Qual sua expectativa e o que as pessoas devem esperar da sua palestra?

Bruce – Espero que minha palestra ajude a explicar como o campo da CPCT passou da “entrega de informações” para a promoção do tipo de diálogo e envolvimento público verdadeiro que acredito serem necessários. Espero que os participantes possam tirar ideias úteis da minha palestra, e que eles me desafiem, mostrando o que não está claro e o que uma melhor compreensão da situação da comunicação pública de ciência e tecnologia no Brasil pode agregar à pesquisa e à prática geral da CPCT.

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Laboratório de fibra óptica do Instituto de Física Gleb Wataghin

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Escritor e articulista, o sociólogo foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais no biênio 2003-2004