Missão cumprida na ciência e no esporte

foto mostra alessandro comemorando vitória abraçado com outros jogadores
Sob o comando de Alessandro (de camisa preta à direita), Brasil conquistou a medalha de ouro inédita no goalball (fotos: Comitê Paralímpico Brasileiro)

No início de 2021, Alessandro Tosim tinha dois objetivos: concluir sua pesquisa de doutorado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, e conquistar a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio como treinador da Seleção Brasileira de Goalball. Hoje ele pode se considerar um vencedor. A tese foi defendida em 19 de fevereiro, oferecendo aos estudos na área do esporte adaptado um diagnóstico importante sobre os fatores que interferem na formação de treinadores de goallball. Já a medalha de ouro veio em 3 de setembro. A seleção subiu ao pódio após vencer a China por 7 a 2, conquistando o primeiro ouro paralímpico brasileiro na modalidade.

Em entrevista ao Portal Unicamp, Alessandro explica como sua longa trajetória de trabalho junto a pessoas com deficiência foi decisiva para o desenvolvimento da pesquisa, que envolveu o contato com treinadores de vários países. Ele ressaltou o potencial do estudo para enriquecer o trabalho de técnicos e profissionais do esporte paralímpico de rendimento. Espera também contribuir para a formação de estudantes de Educação Física preparados para promover a inclusão e explorar o potencial de seus futuros alunos, com ou sem deficiência. 

sequência de fotos mostram alessandro dando comandos para a equipe em quadra durante partida de goalball
Pesquisa identificou fatores que influenciam a formação de treinadores de goalball (foto: Comitê Paralímpico Brasileiro)

O que aprender com grandes treinadores?

Com o título Contextos formativos, conhecimentos e competências de treinadores/as atuando em nível nacional e internacional do esporte paralímpico: um estudo com o goalball (http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/359499), a tese de Alessandro buscou identificar os fatores que influenciam a formação dos treinadores de goalball, desde a abordagem do esporte em cursos de graduação e especialização até as experiências de vida dos profissionais. O trabalho contou com a orientação do professor Paulo Cesar Montagner, com a colaboração da professora Larissa Galatti.

Para traçar um perfil da formação dos profissionais, identificando semelhanças e diferenças entre eles, Alessandro levantou informações junto a 81 treinadores de 23 países, 47 deles atuantes no âmbito de competições nacionais de goalball e 34 liderando equipes de nível internacional. O estudo foi organizado em três frentes de análise: contextos formais e situações mediadas de aprendizagem, que compreendem o ensino em universidades; contextos informais e situações não-mediadas, centradas nas experiências de vida de cada treinador; e contextos não-formais e situações internas de aprendizagem, relativas à busca de conhecimentos por conta própria e o interesse por especializações. 

"Cheguei à conclusão de que o ensino formal é fundamental, mas não é determinante", afirma Alessandro. "A formação superior não determina se você será ou não um grande treinador. Há vários treinadores sem formação em Educação Física e que são referências no cenário mundial". O pesquisador avalia que o repertório de experiências dos profissionais junto aos alunos e o contato pessoal estabelecido entre eles favorece uma compreensão ampla dos atletas e das equipes, contribuindo para o sucesso em quadra. 

foto mostra uma quadra de goalball com os jogadores posicionados na frente do gol
O goalball é um esporte criado especificamente para atletas com deficiência visual. Nele, os jogadores devem arremessar a bola com as mãos de forma a marcar o gol, enquanto os adversários fazem a defesa. Nas partidas, os atletas se orientam por sons e tato (foto: Comitê Paralímpico Brasileiro)

"Já tive a experiência de treinar um grupo em que um dos atletas mais empenhados da equipe não apresentava um bom rendimento naquele dia. Procurei saber o que se passava e ele me disse: 'hoje faz dez anos que eu sofri um acidente de carro e perdi a visão'. Isso mostra o quanto a relação interpessoal entre treinador e atleta é fundamental", pontua. 

O interesse de Alessandro na compreensão desses fatores surgiu de sua própria atuação junto a equipes de diversos níveis. Desde 2001 ele trabalha com esporte adaptado no Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas (Peama), em Jundiaí, e conheceu o goalball em uma especialização cursada na Unicamp. O destaque como treinador da modalidade veio com o tempo e, em 2009, surgiu o convite para dirigir a seleção brasileira. Sob seu comando, a equipe conquistou duas vitórias nos Jogos Parapanamericanos (2011 e 2015), dois campeonatos mundiais (2014 e 2018) e medalhas de prata nos Jogos Paralímpicos de Londres (2012) e bronze nas Paralimpíadas do Rio (2016).

"Foi o convívio com outros treinadores que despertou em mim o interesse pela pesquisa. Quando você chega em um nível elevado de performance esportiva, passa a querer entender o que os grandes treinadores têm de diferente e também refletir sobre sua própria atuação", recorda Alessandro, que considera seu sucesso profissional um ponto central no desenvolvimento do estudo: "Meu orientador comentava:  ‘se você não fosse bicampeão mundial,  não teria conseguido fazer a pesquisa’. Sou o único treinador nacional com acesso a treinadores de todo o mundo". 

Extensão e empatia

Cultivar uma relação de proximidade entre treinadores e atletas é vital em todos os esportes. Entretanto, nas modalidades adaptadas, ele se torna decisivo, pois os treinadores precisam se esforçar para compreender, sob uma perspectiva específica, como suas equipes vivenciam o esporte e o mundo. Alessandro atribui à extensão universitária um papel essencial para que a experiência dos alunos de graduação não seja apenas teórica, ou restrita aos próprios universitários. 

"É importante termos projetos de extensão que promovam essa vivência com alunos com deficiência. A partir do momento em que o profissional passa a conviver com eles, percebe  que as dificuldades são semelhantes às de outros públicos", explica o pesquisador, que também ressalta o papel desses projetos na integração de pessoas com deficiência no ambiente universitário. 

foto mostra jogador no chão da quadra recebendo uma bola jogada ao gol
Alessandro Tosim: "É importante termos projetos de extensão que promovam essa vivência com alunos com deficiência" (foto: Comitê Paralímpico Brasileiro)

Outra contribuição proporcionada pela extensão está na divulgação do esporte adaptado entre os estudantes. Quando as modalidades passam a fazer parte de projetos, estágios e campeonatos promovidos pelas universidades, a abordagem desses esportes e a atuação junto a pessoas com deficiência torna-se natural. Isso fica evidente na pesquisa de Alessandro: no corpus estudado, 30% dos treinadores de nível nacional e 44% dos que atuam internacionalmente afirmam ter conhecido o goalball na universidade. 

"Esse conhecimento precisa transcender as universidades. Os profissionais ali formados são os que levarão o esporte adaptado para as aulas de Educação Física nas escolas. E poderá ser a oportunidade para um aluno com deficiência perceber que existe um esporte para ele", analisa. 

"Quem não se supera todos os dias?"

Com uma longa experiência no treinamento de equipes de alta performance, Alessandro acredita que o esporte para pessoas com deficiência carrega um forte sentido social, que dá aos atletas paralímpicos um olhar de superação. Para ele, isso revela uma visão capacitista que persiste na sociedade e que reduz as pessoas às suas deficiências. "Quem não se supera todos os dias?”, questiona o pesquisador. "A ideia que tentamos passar é de que trabalhamos com as pessoas com deficiência porque elas têm muitos potenciais". 

foto mostra ginásio de goalball com as arquibancadas vazias e a quadra ao centro
"O ginásio estava lindo, mas eu olhava para as arquibancadas e pensava: 'não tem ninguém para gritar gol'", lamenta Alessandro (foto: Comitê Paralímpico Brasileiro)

A formação de um atleta paralímpico é semelhante a de outros sem deficiência. Ela tem início a partir de vivências nos esportes adaptados, que evoluem para situações de competição. Com o crescimento no esporte, chega o momento em que elas decidem se seguirão na prática esportiva por lazer e saúde, ou se desejam buscar a alta performance. Para isso, a popularização desses esportes é essencial. 

"O atleta paralímpico tem tudo o que um olímpico tem. Passa pelas mesmas avaliações e experiências. Muitas vezes, a performance de um atleta paralímpico é melhor do que a de um atleta olímpico", detalha Alessandro, que acompanha de perto o percurso desses atletas. "Eles querem ser vistos como atletas com as mesmas características de performance de um atleta olímpico. Porém, com uma deficiência". 

O caminho até a medalha de ouro em Tóquio foi um grande desafio para Alessandro e sua equipe. Foram oito meses de treinamento intenso, combinado com os cuidados contra a Covid-19. Antes da estreia nas quadras, todos permaneceram por 15 dias na cidade de Hamamatsu (a cerca de 250 km de Tóquio) para um período de aclimatação. Durante todo o período no Japão, testes para a detecção do SARS-CoV-2 eram feitos diariamente.

foto mostra alessandro comemorando vitória abraçado com outros jogadores
Vitória em Tóquio e defesa do doutorado são as conquistas que Alessandro comemora em 2021 (foto: Comitê Paralímpico Brasileiro)

Depois de trazer uma medalha inédita ao país, o técnico faz um balanço da  trajetória que o levou até essa conquista. Se ainda restava alguma dúvida de que as relações interpessoais são importantes para o esporte paralímpico, o silêncio do ginásio o confirmou. "Nas Paralimpíadas do Rio, em 2016, tínhamos um público de nove mil pessoas em cada partida. Em Tóquio não tivemos isso. O ginásio estava lindo, mas eu olhava para as arquibancadas e pensava: 'não tem ninguém para gritar gol'. Isso foi a coisa mais triste das Paralimpíadas". Certamente, as próximas conquistas serão celebradas por muitos e, por meio da pesquisa de Alessandro, novos profissionais e atletas poderão experimentar o sabor dessa vitória.

Imagem de capa

foto mostra time brasileiro de goalball posicionado em linha, com as mãos levantadas, comemorando vitória
Doutor pela Unicamp, Alessandro Tosim conta como a pesquisa científica contribuiu para a conquista da medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio