Um ano de pandemia e o futuro da Unicamp

Na semana em que a pandemia completa um ano, temos simbolicamente um momento muito importante para o futuro da Unicamp, a consulta à comunidade para a escolha do próximo reitor. Como todos lembram, tomamos a difícil decisão de suspender as atividades presenciais não essenciais no dia 12 de março de 2020, um dia depois do anúncio da pandemia global pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De lá para cá, muita coisa aconteceu, mas infelizmente não temos nada para festejar em termos de saúde pública. Pelo contrário: atingimos a terrível marca de quase trezentos mil mortos, vivenciamos um verdadeiro colapso do sistema de saúde, assistimos à explosão de casos e estamos diante de governos que seguem negando a gravidade da situação, propagando mentiras e fomentando o desprezo pela ciência.

No meio deste caos social, a Unicamp repensou suas estratégias, num incrível esforço de adaptação e de superação, evidenciando a incrível capacidade de reinvenção de seus docentes, funcionários e estudantes. A lista dos agradecimentos é longa. Todos os membros da nossa comunidade se empenharam no enfrentamento dos entraves imediatos ao funcionamento da Universidade, fazendo com que ela, na adversidade, se mostrasse ainda mais forte e mais necessária. Os profissionais da linha de frente na área da saúde lutaram e têm lutado bravamente contra a doença que, infelizmente, tem progredido sem controle, por conta da falta de ações concretas dos governantes do país. Mas aqui fizemos a nossa parte, por meio não só do atendimento à população, mas também das ações de informação e conscientização. Contribuímos, assim, dentro da nossa capacidade, para que a sociedade brasileira reconhecesse de modo inequívoco o grande valor do Sistema Único de Saúde (SUS), bem como a importância decisiva dos hospitais universitários.

Merecem destaque, ainda, a ação exemplar dos docentes e funcionários que participaram do Força Tarefa Covid-19 da Unicamp, que rapidamente dirigiram as suas pesquisas para combater a pandemia, bem como a capacidade que os estudantes bolsistas de graduação e pós-graduação demonstraram ao se adaptar a essa nova situação com muita criatividade. Os indicadores da Unicamp são impressionantes, pois o número de dissertações e teses defendidas em 2020 caiu menos que 15% em relação aos anos anteriores, mesmo em situação tão adversa.

Outro triunfo da comunidade ante a pandemia foi a manutenção das atividades didáticas, por meio do “ensino remoto emergencial”. No primeiro semestre de 2020, 97,5% das disciplinas foram mantidas, mesmo tendo que ser repensadas da noite para o dia. A Universidade discutiu e aprovou a flexibilização de diversas regras, que possibilitaram um ambiente institucional adequado à situação para os docentes e estudantes, o que lhe permitiu nunca se desviar da sua função primordial, que é a formação dos estudantes.

Após a reacomodação inicial, o segundo semestre de 2020 ocorreu com mais tranquilidade, o que permitirá que o primeiro semestre de 2021 seja iniciado com apenas 15 dias de atraso em relação à situação normal, pois já no início da próxima semana teremos a retomada das atividades letivas, com a chegada dos novos calouros à Universidade. Será a primeira vez que teremos uma recepção aos calouros de forma virtual. Não é certamente o que gostaríamos de fazer, mas o que a situação e a prudência exigem. De todo modo, preparamos uma programação especial para que todas e todos sintam-se acolhidos, e peço que toda a comunidade se envolva neste primeiro contato com a vida universitária, tão importante para o sentimento de pertencimento a algo maior.

Estamos também realizando todos os esforços com o grupo de voluntariado da Diretoria Executiva de Direitos Humanos para conseguir equipamentos de informática, de modo que os alunos que precisarem de apoio tenham disponibilidade de equipamentos e conexão à internet, necessários para um acompanhamento adequado das disciplinas.

Muitos membros da comunidade também se engajaram, neste momento tão crítico, na defesa da ciência, da universidade pública, do SUS, das vacinas, e se posicionaram de modo veemente contra notícias falsas, contra tratamentos sem comprovação científica, contra o atraso. A participação de cada membro foi e continua sendo fundamental para a defesa de valores fundamentais, que incluem também a liberdade de cátedra e a autonomia universitária. Todos deveríamos contribuir neste processo, seja em mensagens nos grupos de whatsapp, nas redes sociais, ou criando novas formas de divulgar como funciona a ciência e como a universidade pública de qualidade contribui para o avanço da ciência e tecnologia, fundamentais para a soberania e futuro do país, pois é por meio das novas formas de comunicação que se têm processado os maiores ataques à cultura e à instituição acadêmica. Nesse contexto e como parte do esforço de conscientização social, esta semana estamos organizando o Simpósio de Divulgação Científica da Unicamp, que já conta com mais de dois mil inscritos!

Nesta breve mensagem é impossível relacionar tudo o que foi realizado neste período, mas um ponto é preciso ressaltar: foi com o esforço e dedicação de cada um de vocês que a Universidade pôde seguir cumprindo a sua missão e se fortalecendo, apesar da onda de obscurantismo que varre o país.

Nesse contexto, a campanha à sucessão da reitoria, com três candidatos que buscam enaltecer, em seus programas, a importância de termos uma Universidade cada vez mais forte e atuante, é um símbolo poderoso: a Unicamp continua a buscar o melhor caminho para cumprir a missão que a sociedade lhe confiou, e o faz por meio do que a caracteriza como instituição científica e democrática, por meio do debate de ideias, de forma respeitosa, objetiva e tranquila. Infelizmente, sem perceber que assim ecoam o que de pior há na política nacional, há ainda grupos que tentam trazer notícias falsas e campanhas de desinformação ao nosso processo. Mas a própria comunidade tem rechaçado esse tipo de atitude, numa prova da nossa maturidade e respeito à verdade. Gostaria, portanto, nesta ocasião, de agradecer aos candidatos e suas equipes a disponibilidade para contribuir nessa causa tão relevante, e já desejar, de antemão, uma gestão profícua e que dê continuidade aos avanços duramente conquistados ao longo dos 55 anos de existência da Unicamp.

A Unicamp segue cada dia mais forte, pronta para enfrentar os desafios que virão, que certamente não serão poucos, nem pequenos. Para isso, contamos com uma comunidade engajada e pronta para contribuir no desenvolvimento de uma sociedade mais justa, que respeita a diversidade, defende as liberdades individuais e valoriza a vida.

 

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Marcelo Knobel
Marcelo Knobel