Análise do Discurso: da teoria francesa de Thierry Guilbert à imprensa brasileira

Quantas pessoas estão realmente atentas aos conteúdos das informações que recebem? A quantidade de notícias divulgada pela imprensa não para de crescer e nem sempre os leitores têm um olhar crítico para elas. Não é esse o caso do pesquisador francês Thierry Guilbert, que analisa notícias publicadas na França nos últimos anos do século XX e nos primeiros anos do XXI no livro As evidências do discurso neoliberal na mídia, recém lançado pela Editora da Unicamp.

Seu objetivo central é entender os mecanismos utilizados pelos jornalistas para naturalizar o ponto de vista neoliberal e apresentá-lo como a única via possível. Segundo ele, o recurso à repetição insistente de expressões como “empreendedorismo”, “livre mercado”, “reforma”, “privatização”, por um longo período de tempo, é uma das grandes estratégias da imprensa para sustentar o discurso neoliberal.

Para entender mais a fundo as perspectivas do trabalho de Guilbert, que é referência em Análise do Discurso, entrevistamos Mónica Zoppi, docente da Unicamp e autora do “Prefácio à edição brasileira”. Ela fez parte também do grupo de tradução da obra, realizada por quatro especialistas em análise de discurso, todos vinculados ao centro de pesquisa PoEHMaS (Política, Enunciação, História, Materialidades, Sexualidade).

Zoppi conversou conosco sobre como Guilbert teoriza o discurso neoliberal e como sua visão pode ser acertada quando olhamos os discursos propagados por parte da mídia brasileira. E nos conta também como os pesquisadores no Brasil tomam a dianteira nos avanços da Análise do Discurso.

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Editora da Unicamp: Qual o conceito de neoliberalismo para Guilbert?

Mónica Zoppi: Guilbert define o neoliberalismo a partir de seu funcionamento ideológico e do modo como se materializa em discurso. Esse é um dos assuntos que aparecem logo no início do livro, como neste trecho na página 22: “Podemos ver aí uma ‘visão empreendedora’ aplicada ao conjunto das atividades humanas, uma visão que ‘tende a subordinar toda coisa a suas dimensões estritamente econômicas’ ou batizá-la simplesmente de ‘economismo’. O importante aqui é que esses pontos de vista convergem no que eles consideram o aspecto ideológico dessa visão de mundo e do discurso que o acompanha”.

Editora da Unicamp: Quais são as principais características do discurso neoliberal na imprensa, segundo Thierry Guilbert?

Mónica Zoppi: Guilbert desenvolve sua análise com base em artigos de opinião e editoriais de grandes jornais franceses de circulação nacional. Trata-se, portanto, de artigos nos quais os jornalistas se posicionam explicitamente em relação aos fatos econômicos. Essas informações são colocadas em circulação por meio de textos opinativos na imprensa de referência, produzindo efeitos específicos no público leitor. Fazendo uso de mais um trecho do livro, podemos entender melhor essa ideia. Guilbet diz na página 33: “A força de evidência do gênero ‘artigo de opinião’ procede justamente do paradoxo entre sua assinatura e os argumentos utilizados, entre um dizer individual e uma apresentação coletiva, entre um ponto de vista particular e a utilização do senso comum. Esse paradoxo, no sentido forte do termo, ‘constrange’ o leitor a assumir responsabilidade pelo sentido dos enunciados e produz uma corresponsabilização do dizer (aquilo que é efetivamente percebido e compreendido e não o simples sentido das palavras utilizadas), como se o editorialista ou o articulista dissesse: ‘Sou eu quem digo, mas somos nós que falamos’.” Conforme o autor, o discurso neoliberal funciona produzindo efeito de evidência e naturalização para afirmações doutrinárias sobre a economia e as relações sociais. Esse efeito é produzido pela repetição e pela circulação hegemônica dos enunciados, a partir de instâncias políticas e midiáticas alinhadas com os blocos de poder econômico, entre as quais privilegiadamente a imprensa de referência. A principal característica do DNL (discurso neoliberal) consiste em uma dupla dissimulação: em primeiro lugar, dissimula que é uma interpretação possível e ideologicamente determinada do funcionamento da economia e das relações sociais e não uma racionalidade necessária ou a pura realidade dos fatos; em segundo lugar, disfarça sua dimensão doutrinária e propagandística.

Editora da Unicamp: A análise de Guilbert tem como objeto de pesquisa publicações da imprensa francesa datadas de 1995 a 2010. Em 2020, suas interpretações permanecem atuais?

Mónica Zoppi: Sim, as interpretações permanecem atuais porque os processos discursivos que ele analisa e os mecanismos linguísticos que ele descreve estão também presentes nos discursos atuais sobre questões polêmicas como reforma da previdência, reforma trabalhista e reforma tributária. Ele mostra como a “visão empreendedora” invade todas as ordens da vida social, mercantilizando a existência humana, e isso está muito presente hoje também na circulação do discurso econômico e político no Brasil.

Editora da Unicamp: É possível afirmar que o discurso neoliberal é predominante nas mídias ocidentais hoje?

Mónica Zoppi: Não há como afirmar essa predominância sem uma análise da circulação dos discurso na mídia nas diversas regiões do planeta. Mas podemos considerar que há um avanço no globo da chegada ao poder pelo voto ou por mecanismos fraudulentos (golpes, law faire de governos) que representam os interesses das grandes corporações multinacionais e do mercado financeiro, o que põe em circulação discursos nos quais predominam elementos conservadores do ponto de vista cultural e neoliberais do ponto de vista econômico.

Editora da Unicamp: Como o funcionamento do discurso neoliberal interferiu em decisões políticas históricas?

Mónica Zoppi: O discurso neoliberal funciona pela imposição de evidências, que apresentam como necessárias medidas de redução ou supressão da intervenção do Estado nas relações econômicas, com impactos imediatos no acesso ao emprego, à saúde, à educação e à moradia de amplas parcelas da população. Ao se apresentar como um discurso racional colado aos fatos, apaga outros discursos possíveis que apresentam medidas alternativas. Sua ampla reprodução pela mídia de referência produz o consenso necessário para evitar revoltas populares. Por exemplo, a mídia produz a naturalização da reforma de previdência e das leis trabalhistas, porém silencia medidas alternativas e mais eficazes, como os impostos às grandes fortunas e aos lucros financeiros, supressão de isenções impositivas ou fiscalização e penalização à sonegação fiscal de blocos empresariais e grandes corporações.

Editora da Unicamp: No Brasil, há estudos que utilizem os mesmos métodos para analisar a mídia brasileira? Os mecanismos do discurso neoliberal identificados pelo autor funcionam aqui da mesma maneira?

Mónica Zoppi: A Análise de Discurso, que é a teoria que orienta os procedimentos descritivos utilizados por Guilbert, está amplamente representada nas diversas regiões do país e nas principais universidades e centros de pesquisa que se dedicam aos estudos da linguagem. Autores brasileiros têm desenvolvido a teoria com contribuições originais e com avanços na metodologia, que alargaram rapidamente sua aplicação a diversas materialidades significantes e a diversos tipos de discurso; é importante destacar que essa renovação da disciplina se deu no Brasil antes da França (onde surgiu a teoria), em virtude de sua institucionalização em cursos de graduação e pós-graduação do país. Mencionamos, entre outros, o nome da professora Eni Orlandi, como pesquisadora que participou desse movimento de institucionalização e renovação teórica no campo da Análise do Discurso. A disciplina também se encontra bem instaurada em outros países de América Latina, como Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia e México. Os mecanismos descritos por Guilbert sobre o funcionamento do discurso neoliberal na França também podem ser observados no funcionamento do discurso neoliberal na imprensa e na mídia de informação brasileiras, principalmente operações como nomear os processos por meio de nominalizações, que produzem pressuposição da evidência incontestável do que é nomeado, por exemplo, “o déficit/a falência da previdência”; “a autorregulação do mercado”. Também o uso de estatísticas e de argumentos sustentados em números podem ser encontrados nos discursos que circulam na mídia brasileira, que se revestem de um tom técnico que apaga seu funcionamento ideológico. Outro procedimento bastante presente nesse discurso é nomear a “opinião pública” como ator e como garantia das afirmações feitas. Nas palavras de Guilbert, como podemos ler na página 54 deste livro que aqui discutimos: “O procedimento da nominalização permite, assim, fixar um sentido já lá, um sentido que precederia a tomada da palavra ou a formulação (pôr em palavras) do jornalista”.

Editora da Unicamp: Como este discurso influencia as relações sociais e trabalhistas no Brasil?

Mónica Zoppi: Produzindo evidência e naturalização das políticas econômicas de diminuição do Estado e de redução dos direitos trabalhistas. As medidas são apresentadas como racionais e necessárias, como única saída possível, silenciando ou desqualificando outros discursos que defendem medidas alternativas e inclusive contrárias. Por exemplo, nos atuais tempos de pandemia o enunciado “a economia não pode parar” ganha estatuto de verdade inquestionável. Pelo mecanismo da dupla dissimulação, a evidência desse enunciado é apresentada como sendo originada num suposto consenso da opinião pública. Não é o ministro de economia ou a FIESP que afirmam esse enunciado, mas o senso comum da população que defende seu emprego. O discurso neoliberal naturaliza a relação de suposta causalidade entre “economia em pleno funcionamento” e “pleno emprego”, silenciando que o desemprego é estrutural e constitutivo da ordem capitalista.

Editora da Unicamp: O livro de Thierry Guilbert foi traduzido pelo centro de pesquisa PoEHMaS (Política, Enunciação, História, Materialidades, Sexualidade). Por que o grupo decidiu se envolver neste projeto?

Mónica Zoppi: O grupo de pesquisa PoEHMaS reúne pesquisadores que se dedicam ao estudo da determinação histórica da significação, analisando o funcionamento dos processos discursivos no campo do Direito, da Política, da Sexualidade, da Subjetividade. O discurso neoliberal já foi objeto de publicações de alguns de seus pesquisadores, assim como é alvo de interesse da equipe. Há relações de intercâmbio científico e acadêmico com o professor Guilbert, por meio de convênios internacionais e de partilha de orientação de estudantes. A atualidade da temática e sua relevância para pensar em práticas de resistência também incidiram na decisão de traduzir a obra.

 

Serviço:

As evidências do discurso neoliberal na mídia

Autor: Thierry Guilbert

Tradutores: Guilherme Adorno, Luciana Nogueira, Luís Fernando Bulhões Figueira e Mónica G. Zoppi Fontana.

ISBN: 978-65-86253-19-1

Edição: 1ª

Ano: 2020

Páginas: 144

Dimensões: 14x21

 

Imagem de capa

Vários jornais dispostos em uma mesa com uma xícara de café ao lado
Thierry Guilbert analisa notícias publicadas na França nos últimos anos do século XX e nos primeiros anos do XXI no livro "As evidências do discurso neoliberal na mídia"