O urbanismo e as epidemias

Gabriela Celani, Sidney Piocchi Bernardini e Wilson Ribeiro dos Santos * 

Neste momento de isolamento compulsório e medo de contaminação, muitas pessoas que vivem nas grandes cidades podem estar pensando se não seria melhor viver em um bairro residencial afastado, ou em um condomínio de baixa densidade, ou, ainda, se não seria preferível ter seu próprio automóvel a precisar se arriscar diariamente no transporte público. Mas essas “soluções” na verdade poderiam piorar ainda mais o problema. O modelo de urbanização no qual o comércio e os serviços se concentram no centro da cidade, enquanto áreas estritamente residenciais e os condomínios fechados se situam na periferia, acaba acelerando a dispersão dos vírus, pois pessoas de todas as partes da cidade precisam circular diariamente pelo mesmo local, onde trabalham, estudam, vão ao médico e fazem compras. Linhas de transporte coletivo, comércio, equipamentos públicos e até mesmo edifícios de escritório não sobrevivem em regiões de baixa densidade, porque precisam de um grande volume de usuários para se tornarem economicamente viáveis, e por isso eles tendem a se instalar nos centros consolidados. Mas em cidades em que o uso misto e a densidade habitacional são estimulados em todo o território, esses equipamentos podem sobreviver de maneira distribuída, criando múltiplas centralidades com certa autonomia.

Um estudo recentíssimo, divulgado no bioRxiv1, um repositório de artigos em processo de publicação, explica como a contaminação entre indivíduos é muito mais lenta nas cidades policêntricas, uma vez que a maioria de seus moradores não precisa passar diariamente pelo mesmo local em que os demais habitantes circulam. Consequentemente, eles também não utilizam os mesmos ônibus, e a maioria deles provavelmente sequer depende de transporte público, pois pode ir a pé ou de bicicleta para o trabalho, a escola, a unidade básica de saúde ou o centro de comércio local. Ao reduzirmos a necessidade de deslocamentos longos, não apenas reduzimos a circulação dos vírus, como também fortalecemos as comunidades e as economias locais. São também reforçadas as relações de vizinhança, algo extremamente importante ao lidarmos com situações como a que estamos vivendo atualmente, na qual as pessoas mais vulneráveis, como os idosos, podem precisar da ajuda de seus vizinhos, e as entregas de produtos vindos das redondezas são muito mais seguras e eficientes.

Nas múltiplas centralidades, o uso de meios de transporte ativos, como a caminhada e as bicicletas, próprias ou compartilhadas, é viável e bem-vindo em tempos de epidemias, pois evita a necessidade de aglomeração no transporte coletivo e ainda contribui para a redução de comorbidades como a obesidade, a pressão alta e a diabetes, três agravantes para os pacientes contaminados com o COVID-19. As doenças respiratórias, outro importante fator de risco, costumam ser causadas ou agravadas pela poluição do ar, a qual resulta, em boa parte, do excesso de automóveis presentes nas grandes cidades – que só podem ser reduzidos com um maior uso do transporte público.

Outro estudo recente, publicado por uma equipe da Escola de Arquitetura da Universidade do Sudeste da China2, propõe como estratégia para a contenção da dispersão do vírus o isolamento completo das diversas regiões de uma cidade, algo que só é viável quando os diversos bairros possuem centros locais equipados com seus próprios equipamentos públicos:

"Quando a epidemia se desenvolve em um estágio incontrolável, toda a cidade precisa ser dividida em várias áreas de prevenção epidêmicas (APE), formando uma estrutura de clusters para responder de maneira abrangente, na escala da cidade. Essa divisão precisa ser baseada nas comunidades existentes, e atenção especial deve ser dada à manutenção de fortes ligações entre elas, para enviar pessoal e serviços médicos aos locais em que eles são mais necessários. Nesse momento, cada APE também precisa designar lugares especiais para acomodar pessoas suspeitas e infectadas. Se os hospitais e clínicas dessa área são inadequados, instalações públicas como parques, praças, quadras esportivas e escolas precisam ser adaptados como pontos de permanência temporária ou como hospitais de campanha". (p.12, grifos nossos)

Finalmente, é preciso esclarecer que, quando falamos de adensamento urbano, não estamos falando necessariamente de cidade apinhada, congestionada, sem insolação adequada ou sem áreas verdes. Instrumentos de regulação urbanística permitem controlar adequadamente o adensamento e a proporção de áreas livres, bem como a distribuição de equipamentos públicos e comércio, garantindo que as cidades sejam não apenas mais agradáveis, como também mais resilientes no enfrentamento de grandes epidemias como a que estamos vivendo em 2020.

1 Brizuela, Noel G.; Garcia-Chan, Nestor; Pulido, Humberto Gutierrez; Chowell, Gerardo. Understanding the role of urban design in disease spreading. Preprint, 19/3/2020. Disponível em: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/766667v2. Acesso em: 30/3/2020.

2 UNESCO Urban Heritage Conservation and Sustainable Development Research Team, School of Architecture, Southeast University (SEU) and UNESCO Chair in Cultural Resource Management, China. Urban Function-Spatial Response Strategy for the Epidemic - A Concise Manual on Urban Emergency Management. 18/3/2020. Disponível em: https://www.icomos.ch/wp-content/uploads/2020/03/20200318-ICOMOS-CHINA.pdf. Acesso em: 30/3/2020.

 

* Gabriela Celani é professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da FEC-Unicamp; Sidney Piocchi Bernardini é professor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da FEC-Unicamp; Wilson Ribeiro dos Santos é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC Campinas 

 

Imagem de capa

Fotos dos professores Gabriela Celani, Wilson Ribeiro e Sidney Bernardini
Professores da FEC, Gabriela Celani e Sidney Beranardini, assinam artigo em conjunto com o professor Wilson Ribeiro dos Santos, da PUC-Campinas