​​​​​​​Com universidade sob ataque, presidente da Andifes defende esforço mais efetivo de comunicação

Carlos Vogt, Marcelo Knobel, João Carlos Salles e Paulo Markun
Carlos Vogt, Marcelo Knobel, João Carlos Salles e Paulo Markun

O esforço de comunicação sobre o papel da universidade pública no Brasil deve ser intensificado perante a sociedade neste momento de cerco orçamentário, ataque ideológico e aberta hostilidade por parte do governo federal, afirmou o filósofo João Carlos Salles nesta quarta-feira (9), durante a conferência “A Crise da Universidade”. Presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salles enfatizou que, entre 2014 e 2018, as 63 universidades federais sofreram uma diminuição de R$ 1,7 bilhão em despesas correntes empenhadas, o que levou o sistema a viver uma situação dramática.

“A imagem de que a universidade pública é um estorvo deve ser combatida, evidentemente, e acho que precisamos mostrar melhor nosso trabalho, essa é uma das falhas que talvez as nossas universidades tenham. Algumas desempenham melhor isso, outras não”, declarou Salles em entrevista, ressaltando que é preciso comunicar melhor os resultados e dialogar com a sociedade para mostrar a qualidade do trabalho que tem sido feito. A conferência integra o ciclo “A Crise Brasileira”, realizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp.

À frente da Andifes desde julho, o reitor da UFBA se aprofundou durante a palestra nas propostas do Programa Future-se, anunciado pelo Ministério da Educação (MEC) há três meses. O programa foi apresentado pelo MEC como alternativa à escassez orçamentária e prevê financiamento privado das universidades federais e atuação de organizações sociais, colocando em risco a autonomia universitária.

Segundo o presidente da Andifes, quase 40 universidades já se colocaram formalmente contra a proposta e nenhuma instituição oficializou adesão. Ontem, o Ministério Público Federal ingressou com uma ação na Justiça para que o MEC realize uma nova consulta pública sobre o Future-se por descumprimento de requisitos legais mínimos.

“O projeto tem sim coisas novas e interessantes. Só que as coisas interessantes não são novas. E as coisas novas não tem nada de interessante. O que poderia ser interessante é um mecanismo de captação de rendas próprias que não esbarrasse no teto – hoje, as universidades fazem uma captação de recursos, mas se ultrapassar o previsto no orçamento, isso vai para o Tesouro, não fica para a universidade, o que é um grande desestímulo à captação e ao empreendedorismo.”

O programa proposto pelo MEC, explica Salles, prevê um mecanismo de adesão que implica a renúncia à autonomia universitária e a valores acadêmicos essenciais. De acordo com o reitor, essa adesão ocorre no momento de assinatura de um contrato com uma organização social, abrindo mão da gestão de grandes eixos, como governança, empreendedorismo, pesquisa e inovação e internacionalização.

“O Future-se é, com efeito, um exemplo notável, caricatural mesmo, primeiro: de indistinção entre o público e o privado, como em sua proposição de estender às instituições privadas a possibilidade de revalidação de diplomas, contrariando da LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional]. Segundo: de precedência do privado, como na aparentemente sagaz utilização da Lei Rouanet para captação de recursos para museus e equipamentos culturais, uma vez que ela é, em verdade, uma péssima distribuidora de recursos públicos”, criticou Salles.

Entre outros pontos de preocupação sobre o sistema de ciência e tecnologia, o reitor da UFBA citou a ideia do governo federal de destinar uma parcela maior dos recursos para universidades de excelência, acentuando as disparidades regionais, a intenção de fundir o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e de extinguir a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que seria absorvida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Questionado pelo jornalista Paulo Markun, moderador do ciclo de conferências “A Crise Brasileira”, sobre quem são os aliados das universidades federais contra essa estratégia deliberada, Salles respondeu que deveria ser a opinião pública, mas que não tem sido assim porque “a universidade se comunica mal com a sociedade”. Em contrapartida, defendeu que o Congresso tem se apresentado como um “espaço interessante de confrontação”.

Sobre a necessidade de ampliação do diálogo com a sociedade, Salles elogiou a iniciativa da Unicamp, em nome do reitor Marcelo Knobel, de realizar uma assembleia geral em defesa da ciência e da educação pública, no próximo dia 15. O presidente da Andifes sugeriu ainda a criação de uma rede que coloque as universidades estaduais como aliadas das federais para discutir as questões nacionais.

Knobel, que integrou a mesa de abertura da conferência – ao lado do presidente do Conselho Científico e Cultural do IdEA, Carlos Vogt –, se mostrou totalmente favorável à ideia de união. Durante o debate, Knobel questionou o reitor da UFBA se o Future-se não seria somente um “balão de ensaio” apresentado com a intenção de desviar a atenção de questões mais importantes. “É verdade que esse ‘balão de ensaio’ pode não se sustentar, e, afinal de contas, vai depender de nós, das instituições que decidem ou não aderir. Mas há um caldo de ideias que são repetidas a todo instante”, respondeu Salles.

“A Crise Brasileira” é uma iniciativa que visa a trazer nomes importantes de distintas áreas do conhecimento para a Unicamp como forma de estimular a discussão de temas atuais em busca de diagnósticos e soluções para as diversas crises que afligem a vida do país. Mensalmente, o evento conta com a palestra de um ou dois especialistas, abordando temas relevantes com espaço para o debate com o público.

A primeira conferência ocorreu no dia 18 de setembro, com o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp, discorrendo sobre “A Crise da Economia”. Para este ano estão confirmadas palestras do educador Mozart Neves Ramos (“Educação", em 23 de outubro) e do diplomata Rubens Ricupero (“Relações Internacionais”, em 6 de novembro). As inscrições para a conferência com Mozart Ramos podem ser feitas no site do IdEA.

Vídeo-íntegra:

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Educador Mozart Ramos discute “A Crise da Educação” em 23 de outubro

Belluzzo defende olhar crítico para crise brasileira que considere conjuntura externa

Veja a apresentação

A Crise Brasileira - Convite de Carlos Vogt

Registro Geral - A Crise da Universidade

Repórter Unicamp: Na Unicamp, João Carlos Salles, reitor da UFBA e presidente da Andifes, discute a crise da universidade

Imagem de capa

Filosofo João Carlos Salles, presidente da Andifes e reitor da UFBA: "a imagem de que a universidade pública é um estorvo deve ser combatida"
Filosofo João Carlos Salles, presidente da Andifes e reitor da UFBA: "a imagem de que a universidade pública é um estorvo deve ser combatida"