Academia Campinense Maçônica de Letras (ACML) presta homenagem à Unicamp

Em reunião realizada no dia 15 de junho, a Academia Campinense Maçônica de Letras (ACML) prestou uma homenagem à Unicamp. Ela foi apresentada por Rubens Murillo Marques, professor aposentado da Universidade e criador do Instituto de Matemática. O reitor Marcelo Knobel participou da homenagem.

Confira o discurso de Rubens Murillo Marques:

Venho, com muita honra e alegria, homenagear a minha Universidade aqui representada por seu Magnífico Reitor, Prof. Dr.Marcelo Knobel. Por inúmeras razões este é um momento singular. Quer pelo ineditismo de uma manifestação da ACML, alargando seus limites de atuação, tanto quanto por estarem as universidades públicas ameaçadas em sua autonomia constitucional.

Universidade significa unidade na diversidade e é, assim, que tem que ser compreendida.

Não se sujeita a ser tutelada por forças externas. Mais do que qualquer outra entidade, as universidades paulistas zelam pelo lema: Non Ducor, Duco!

Desde já fica aqui registrada a minha profunda indignação e preocupação pelos sombrios

momentos que estamos a viver e que requerem, mais do que nunca, uma postura intransigente

de sua autonomia. Não se trata de uma atitude corporativista, mas se encontra plenamente inserida nos seus preceitos constitutivos.

A defesa de seus objetivos passa, também, ao largo de qualquer suposto e descabido ativismo. A atividade especulativa da universidade é essencial para sua sobrevivência e respeitabilidade.

Vejamos, sucintamente, algumas das competências das universidades.

Compete, claramente, à universidade estimular o desenvolvimento econômico-social, propugnar e estimular a democracia liberal na sociedade.

É de sua alçada tornar a sociedade apta a construir a modernização do País; propor ações que objetivem a resolução de problemas da nação, bem como preparar quadros competentes para a burocracia estatal.

Dentro destas premissas, entre outras, foi criada em março de 1966, formalmente, a UNICAMP. Seu organizador, o Prof. Zeferino Vaz, começou a implantá-la, criando os Institutos Centrais de Matemática, de Física, de Biologia, de Química e as Faculdades de Engenharia, Ciências Médicas, Faculdade de Tecnologia de Alimentos e seu Colégio Técnico.

Aceitei o convite de Zeferino Vaz para coordenar a implantação do Instituto de Matemática e comigo vieram os Professores Marcelo Damy de Souza Santos para a Física e Giuseppe Cilento

para a Química. Estávamos seguros e entusiasmados em poder colaborar para o êxito de uma

universidade moderna, que se propunha a ser pioneira em várias áreas do conhecimento. Infelizmente sou o último sobrevivente desta equipe inicial que veio da USP.

Coube-nos, como membros do Conselho Diretor da Universidade, elaborar suas diretrizes, estatutos e organização departamental e começar a traçar suas diretrizes básicas.

A UNICAMP teve, com clareza, desde o início, que ciência e manifestações socioculturais caminhavam de mão dadas. Cultura, Ciência, Filosofia e a busca da Verdade deveriam se integrar de forma indissolúvel, sem qualquer restrição ao livre pensar.

A administração da Universidade, considerada como um meio e não um fim, não se restringia à gestão de recursos humanos e materiais. Era de sua competência identificar o papel político de suas lideranças para, com isenção, sabedoria e ousadia, poder bem discernir, objetivando deixar um legado científico, ético e moral para as futuras gerações.

O que melhor descreve o papel de uma universidade é a liberdade!

Segundo meu patrono nesta Academia, Ruy Barbosa, “A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é sobretudo, o maior elemento de estabilidade das instituições".

Ela deve ser isenta de constrangimentos ao pensamento e às suas formas de manifestação. A universidade deve exercer, com acerto, o paradoxo que lhe é inerente: o de ser parte da sociedade e, ao mesmo tempo, espaço de sua crítica construtiva e criativa. Deve ser um local em que se escutem os reclamos da sociedade, que pense e haja de forma autônoma e que procure as respostas adequadas para os desafios identificados.

Tempos difíceis trilhou a UNICAMP, porém sem que em nenhum momento se submetesse à vontade de estranhos aos seus quadros, democraticamente eleitos.

Relato aqui, brevemente, e como testemunho desta assertiva, o episódio ocorrido entre o Reitor Zeferino Vaz e um ilustre general que, em uma solenidade, lhe arguiu sobre os comunistas da Universidade. Do alto de sua estatura moral, científica e institucional, ele replicou: — General, de caserna o senhor entende; de universidade, entendo eu!

Abraçaram-se. Era respeitado! Tinha autoridade!

Ao longo de sua juventude de pouco mais de 50 anos, a UNICAMP adquiriu o respeito, o reconhecimento e a admiração de suas congêneres. É tida, com justiça, como uma das melhores e mais completas do Brasil. Sua produção científica original, seu empenho em atividades inovadoras e criativas, colocaram-na como um referencial internacional e um orgulho para a cidade da Campinas.

A era pós Zeferino Vaz começou com uma grande dificuldade que foi a escolha de seu sucessor.

Apenas como registro, relato o episódio, de poucos conhecido, e que redundou ser de relevância para os destinos da UNICAMP. À época, afastado da Universidade para dirigir o Departamento Estadual de Estatística do estado de São Paulo, tinha bastante contato com o então Governador Paulo Egídio Martins. Havia eu sabido, pelo Reitor, que a provável lista tríplice para sua sucessão seria composta pelo ilustre Físico e Professor Rogério César de Cerqueira Leite, Paulo Gomes Romeo e André Toselo. A pedido do reitor, conversei com o governador, indicando-lhe que a preferência de Zeferino Vaz seria pelo Prof. Paulo Romeo. Disse-me o governador que, pessoalmente, gostaria de escolher o Prof. Cerqueira Leite, mas que não teria condições políticas de indicá-lo diante das posições que havia anteriormente assumido em relação ao tratado nuclear Brasil-Alemanha. Em uma lista como aquela, sua escolha recairia sobre o Prof. André Toselo, haja vista que não escolheria o Paulo Romeo, dado o seu estreito relacionamento com seu antecessor, o governador Laudo Natel. Comuniquei o fato a Zeferino e esse, na esperança de que pudesse reverter a escolha para Paulo Romeo. apresentou ao Conselho Diretor uma nova proposta: para o lugar de André Toselo, o Prof. Plinio Alves de Moraes, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba.

E a escolha recaiu sobre o professor de Piracicaba. Era evidente e previsível que seria uma tarefa árdua suceder Zeferino Vaz, mormente por um reitor que não havia vivido o quotidiano da Universidade. Realmente foi uma gestão controvertida, com desastrosas intervenções nas unidades de ensino, inclusive no Instituto de Matemática com um interventor estranho aos quadros da UNICAMP. A reação do corpo docente foi fulminante, redundando num recuo da Reitoria. Após este período da administração sucessora de Zeferino Vaz, seguiram-se administrações que repuseram a UNICAMP em seus verdadeiros caminhos. Foram fundamentais as gestões que se sucederam com os competentes e preparados reitores, saudosos ilustres professores, com os quais tive o privilégio de conviver e aos quais, postumamente, reverencio: José Aristodemo Pinotti e Paulo Renato Souza.

Após este breve e histórico relato, retorno as minhas considerações sobre o escopo das

universidades.

Magnifico Reitor, a Universidade está perfeitamente adequada, do ponto de vista histórico, ao que se poderia classificar como vivenciando a sua terceira missão.

O evoluir histórico do papel das universidades, desde a de Bolonha, reconhecida como a primeira universidade ocidental, em 1088, pode ser caracterizado por suas missões ou objetivos,  sucessivos e complementares ao longo do tempo.

A missão inicial das universidades foi desempenhar o papel de guardiã e transmissora da cultura e ser repositório de conhecimentos. Esta postura prevaleceu dos séculos XI ao XVIII, abrangendo a plêiade de universidades criadas no período.

A segunda missão pode ser situada com a criação da Universidade de Berlim, em 1810, pela influência de Humboldt e Hegel, os quais propugnavam pela independência da academia, pela educação integral humanista a partir da integração entre as ciências naturais, sociais e humanas, bem como da unidade entre ensino e pesquisa.

A terceira missão, característica do século XXI , tem sido tipicamente concebida como um

conjunto de atividades e funções, consideradas distintas daquelas de ensino e pesquisa. Foca-se, por exemplo, mais na ação empreendedora da universidade e na necessária relação desta com a indústria e o governo, alinhando-se ao desenvolvimento de sistemas de inovação em nível regional, nacional e mundial.

Vive a UNICAMP, com toda a sua pujança e em plenitude, esta etapa contemporânea.

Estas simples observações que faço servem como lastro para fundamentar a homenagem que ora lhe é prestada. Este justo e perfeito reconhecimento, feito por um grupo que agrega intelectuais, das mais diversas formações acadêmicas e irmanados pela Maçonaria, atesta o papel essencial, norteador e pioneiro que a UNICAMP vem prestando à sociedade.

Magnífico Reitor, reitero o reconhecimento desta casa à profunda contribuição da UNICAMP ao desenvolvimento da pesquisa, da cultura e do progresso. Esteja certo de que aqui, neste espaço, a UNICAMP será sempre bem-vinda, sua voz ouvida com atenção e nossas portas estarão sempre abertas para a divulgação da nossa cultura.

Obrigado.

Campinas, 15 de junho de 2019.

Rubens Murillo Marques