Programa de Atenção em Autismo visa o diagnóstico precoce e a disseminação do cuidado

0

“Diagnosticar não é patologizar. No autismo, os principais sintomas não são acessados através do uso de medicação.  São as intervenções psicológicas, comportamentais e educacionais que podem ajudar a criança. Intervenções precoces têm uma resposta muito melhor,  porque o cérebro está em grande desenvolvimento e tem maior plasticidade. Quanto mais velho o indivíduo,  mais difíceis são essas mudanças”, insistiu a Dra. Eloísa Celeri, coordenadora do Setor de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), em entrevista ao Jornal da Unicamp.

Com objetivo de ampliar a rede de cuidado ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e possibilitar o diagnóstico precoce, por meio da capacitação de profissionais da atenção básica de saúde, pediatras e educadores, será apresentado nesta sexta-feira (5), às 14 horas, na Câmara dos Vereadores de Campinas, o Programa de Atenção em TEA da Unicamp. Na ocasião, serão assinados os convênios para implantação do Programa, que será viabilizado com recursos oriundos de emendas parlamentares, disponibilizados pela Frente Parlamentar que atua sobre o tema. O Programa será instalado numa área ao lado do Hospital de Clínicas (HC) e tem início do funcionamento previsto para o primeiro semestre de 2020.

O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões restritos de comportamentos, déficits marcantes na comunicação e interação social, pouca flexibilidade para mudanças de rotina, problemas na percepção sensorial do ambiente, estereotipias e dificuldades para compartilhar emoções. Estima-se que o TEA afete 70 milhões em todo o mundo. No Brasil, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) estima que uma em cada 160 crianças tenha TEA.

professora
Dra. Eloísa Celeri coordena o Setor de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM

“A ideia do Programa não é ser um centro de tratamento, mas de avaliação de crianças e adolescentes e de capacitação para profissionais, a fim de  que essas crianças e adolescentes possam ser tratados nos seus municípios, próximos de casa”, afirmou a Dra. Renata Cruz Soares de Azevedo, chefe do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM. O Programa pretende, segundo ela, avaliar crianças com possibilidade de TEA e, após o diagnóstico, chamar o município - escola, família e equipe de saúde - para discutir o projeto terapêutico para aquela criança.

Parte fundamental do Programa, segundo ela, será capacitar os agentes dos municípios, tanto para identificar possíveis casos de TEA, quanto para prestar os cuidados necessários. “É muito difícil para um município não capacitado acolher e cuidar. O Programa fará capacitações constantes e, depois, matriciamentos, presenciais ou à distância, para discutir e acompanhar os casos. O objetivo é capilarizar o cuidado”, explicou.

Pretende-se que, com a capacitação dos pediatras e demais profissionais da atenção básica de saúde, o preenchimento do cartão da criança do SUS forneça as informações necessárias para encaminhamento a uma avaliação de TEA.“Um bom preenchimento permite identificar se há algo no desenvolvimento que possa não estar adequado, ou não estar ocorrendo da melhor forma possível. Poderá dar o sinal de alerta”, explicou Celeri.

Apesar de haver certa flexibilidade no tempo de cada criança, a psiquiatra afirmou haver determinados marcos do desenvolvimento que precisam ser observados. “Uma criança que tenha um atraso no desenvolvimento da fala, por exemplo, certamente terá prejuízos, se não receber as intervenções adequadas. Um diagnóstico adequado, na época  adequada, só tende a melhorar a qualidade de vida da criança e da família”, afirmou Celeri.

Azevedo, por sua vez, chamou atenção para a relação inversamente proporcional que se estabelece entre o diagnóstico precoce e o uso de medicação. De acordo com ela, o uso de medicação em pacientes com TEA acontece no caso da presença de comorbidades como ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção, hiperatividade e um comportamento com alto grau de heteroagressividade e irritabilidade, não nos sintomas cardinais do autismo. “O diagnóstico precoce e as intervenções não farmacológicas atuam no componente comportamental e auxiliam a criança a ter menos necessidade de medicação posteriormente. O diagnóstico tardio aumenta a necessidade do uso da medicação, porque você acaba tendo que conter de uma forma farmacológica manifestações que não foram abordadas por outra via”, enfatizou.

professora
Dra. Renata Cruz Soares de Azevedo, chefe do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM.

Disseminar e qualificar o cuidado

A capacitação dos municípios pretende, ao mesmo tempo, reduzir o fluxo para o Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, e evitar o deslocamento das famílias que viajam de outros municípios em busca de atendimento. “Atualmente, temos um volume enorme de crianças sendo cuidadas no Hospital, mas  não conseguimos receber novas  por conta deste volume.  Além disso, elas têm que se deslocar de outros municípios, o que é desconfortável para elas e difícil para as famílias. Se o município estiver capacitado,  isso melhora muito”, relatou Azevedo.

De acordo com ela, a Unicamp foi procurada pela Frente Parlamentar pelo trabalho desenvolvido pelo Ambulatório de Avaliação de Crianças Pequenas, que desde 2016 atua no diagnóstico e tratamento de crianças de 0 a 5 anos de idade. “Esse ambulatório surgiu da percepção de que as crianças estavam chegando até nós muito tarde”, relatou. O Ambulatório é composto por uma equipe multidisciplinar, que reúne psicólogos,  fonoaudiólogos,  psiquiatras e residentes de psiquiatria e pediatria. Atualmente, atende 200 crianças, principalmente da região, mas também de outros estados do país. “São poucos serviços que tem um ambulatório específico de psiquiatria de crianças pequenas. É uma área recente. Apenas nos anos 80 e 90 começa aparecer um grupo de profissionais  que se dedica especificamente a saúde mental dessa faixa etária”, contou Celeri.

Aprender cuidando

Com os recursos disponibilizados, o trabalho do Ambulatório poderá ser ampliado, por meio de adequação do espaço e ampliação da equipe. Conforme explicou Azevedo, o Programa de Atenção em TEA poderá oferecer alguns cuidados que não são possíveis na estrutura atual, como salas de avaliação com câmeras que permitam a observação remota dos atendimentos. “É muito importante para o profissional que está sendo capacitado que ele veja como o atendimento é feito. Mas, a presença de muitas pessoas no atendimento de uma criança, que já tem dificuldades no relacionamento, dificulta muito. As câmeras permitirão observar o atendimento sem interferir na relação com a criança e sem atrapalhar o cuidado clínico”, apontou.

Além disso, o novo espaço contará com uma sala de estimulação neurossensorial, onde a criança poderá aprender como processar sensações de forma diferente e enfrentar dificuldades, comuns em TEA, relacionadas a estímulos com tato e audição. “Algumas dessas crianças têm muitas dificuldades sensoriais.  Elas podem ter uma hipersensibilidade a barulhos, então se assustam muito, tampam os ouvidos e podem ficar extremamente agitadas com barulhos específicos, como um liquidificador ou um secador de cabelos. Elas podem ter uma seletividade alimentar muito grande, rejeitando ou aceitando texturas específicas, por exemplo. Podem também apresentar hipossensibilidades, se machucar e não sentir dor. Há casos de crianças com infecções no ouvido que as mães só vão perceber quando a coisa chegou no nível bem grave, pois as crianças não reclamam”, relatou.

Imagens: Reprodução
Montagem com maquetes virtuais do futuro espaço do Programa (*)

As terapias baseadas em análise comportamental, ABA (na sigla em inglês para Applied Behavior Analysis), tem mostrado, em estudos recentes, serem as mais efetivas no cuidado em TEA, conforme apontou Celeri. Essa linha utiliza técnicas comportamentais que buscam ajudar a criança a desenvolver determinados comportamentos que ela não tem, como por exemplo, olhar no olho, se interessar pelo que o outro está fazendo, chamar atenção do outro e usar a linguagem para se comunicar. Celeri destaca que em muitos casos a dificuldade de comunicação em pacientes do TEA não está relacionada a limitações motoras ou cognitivas, mas a simples falta de interesse no outro. “Não necessariamente uma criança que tem um transtorno do espectro do autismo tem dificuldade de fala.  Ela é capaz de falar e de pronunciar todas as palavras adequadamente. A questão é usar a fala como objeto de comunicação, a dificuldade é a interação social”, pontuou.

Savans

A difusão do conhecimento sobre TEA, de acordo com as pesquisadoras, pode ter impactos importantes tanto no diagnóstico quanto no cuidado das crianças. “Entender que é alguém diferente, que tem um funcionamento diferente, tende a diminuir o estigma. Saber que são indivíduos que tem um valor imenso e que poderão contribuir bastante com suas habilidades pode ajudar a sociedade a acolhê-los de forma amorosa”, afirmou Celeri.

Segundo a pesquisadora, o cérebro de uma pessoa com TEA tem uma organização diferente. Essa organização, se por um lado pode trazer dificuldades no convívio social, por outro pode facilitar o desenvolvimento de habilidades específicas. “Alguns conseguem fazer cálculos matemáticos complexos, outros tem grande memória musical, ou habilidade para fazer desenhos extremamente detalhados. São os que chamamos savans, uma palavra francesa que significa sabidos”, contou.

(*) Imagens produzidas pela Área de Projetos da Faculdade de Ciências Médicas (Rodrigo Fernandez Rossi, Gabriel Tomasetto Sugiyama e Eunice Pereira de Carvalho)

 


“Meu filho é autista, e agora?”

Simpósio sobre Transtornos do Espectro do Autismo (TEA), realizado pelo Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria (DPMP) Faculdade de Ciências Médicas (FCM), prossegue até sexta-feira (5). Leia mais.

 

 

Imagem de capa

Audiodescrição: Imagens de Ilustrações, onde a primeira mostra um tipo de balcão de vendas, com duas pessoas do lado interno e uma mulher e duas crianças no lado externo. Ao centro, um tipo de rampa em formato circular, sendo que um homem e duas mulheres caminham nela. Há um jardim com flores rosadas junto à essa estrutura e uma placa vertical metálica e alta onde se lê Programa de Atenção em TEA. Na imagem à direita, área interna de recreação, com piscina de bolinhas e uma casinha. Imagem 1 de 1.
Programa de Atenção em TEA da Unicamp