1º Dia – “Isto aqui é como guerra”

O rio Parauapebas, ao longo da cidade de Brumadinho, está com as águas turvas devido aos rejeitos em solução em suas águas
O rio Paraopeba, ao longo da cidade de Brumadinho, está com as águas turvas devido aos rejeitos em solução em suas águas

Hoje foi nosso primeiro dia aqui em Brumadinho. Ao chegar na cidade, fomos a um centro de treinamento da Vale, a Estação Conhecimento. Ali está a central de atendimento à comunidade. Este é o local onde estão concentradas as ações de informações e atendimento à população.

Ali é onde a comunidade tem acesso as listas oficiais dos mortos e dos desaparecidos. Não é uma tarefa simples nem fácil. Logo se percebe aqui e ali que existem muitas psicólogas e assistentes sociais, que procuram dar atendimento a população. Achei mesmo uma sala de conforto espiritual, ecumênica, com religiosos de plantão.

A princípio parece uma bagunça. Muita gente andando pra lá e pra cá, de uma forma aparentemente desencontrada. Aparentemente. Depois de um tempo, percebemos que é um local de trabalho intenso e cheio de protocolos de atendimento. Funcionam, apesar de existirem muitos senões. Não é uma tarefa fácil, devido as demandas gigantescas que os voluntários procuram dar conta.

Conversamos com o coordenador. Ele nos alertou: isto aqui é como guerra. Não dá pra se locomover para qualquer canto, existem restrições diversas. E foi isso que me pareceu ao longo do dia. Brumadinho está cheio de barreiras com policiais e bombeiros, e é difícil de se locomover em determinados lugares.

Estou aqui como integrante do CENACID, o Centro de Apoio Científico à Desastres. Este centro, que congrega pesquisadores de 12 universidades brasileiras, tem bastante experiência em desastres. Baseado na Universidade Federal do Paraná, o CENACID esteve presente nos últimos grandes desastres naturais no Brasil, América Latina a África. Baseados nos padrões das Nações Unidas, o centro é uma referência, com vários prêmios internacionais, como o Green Star Awards, recebido em 2008.

Desta forma, temos uma certa facilidade para passar em algumas barreiras. Estamos trabalhando numa universidade particular aqui em Brumadinho, onde está o comando da operação.

A operação está sendo chefiada pelo gabinete de crise da Presidência da República. No rés do chão da operação, o que percebi é que temos grande participação dos órgãos de governo de Minas Gerais, como a defesa civil, a polícia militar e os órgãos de meio ambiente. Os órgãos do governo federal, como Ibama, IcmBio, CENAD e outros, também estão com seu corpo técnico empenhadíssimos, cada um em sua função.

Andamos ao longo do córrego do Feijão ao longo do dia. Lá, impressiona o tamanho da tragédia. Ao longo do pequeno córrego, centenas de metros nas duas margens foram devastados pela passagem do fluxo de lama e detritos.

O fluxo, composto pelo rejeito da barragem que se rompeu lá em cima, no Mina Córrego do Feijão, operada pela Vale, e tem grande força destrutiva. A montante, destruiu diversas instalações da Vale, onde está o maior número de óbitos. Ao longo do córrego, diversas casas foram destruídas, e pessoas foram mortas tragadas pela lama. A lama só perdeu força na barra do Córrego do Feijão no rio Paraopeba.

O rio Paraopeba, ao longo da cidade de Brumadinho, onde conseguimos acessa-lo hoje, está muito turvo devido aos rejeitos em solução em suas águas. A água hoje à tarde tem uma cor vermelha de sangue, devido à forte presença do minério de hematita. A mancha vermelha corre para jusante rapidamente. Não tem o poder destrutivo dos fluxos de lama do córrego do feijão, mas causam muitos danos à biota e ao abastecimento humano.

Não há como não pensar no desastre e em suas consequências. Infelizmente, tudo indica que será o maior desastre de rompimento de barragem em número de vítimas que se tem notícia. Todos estão perplexos e de luto. Não há um cidadão de Brumadinho que não tenho perdido um familiar ou amigo. Eu próprio, que estive em Minas quando jovem, soube de um desaparecimento relacionado com um conhecido daqueles tempos.

O luto cobre a Serra do Rola-Moça, que faz mais bela a paisagem de Brumadinho e a colore com suas histórias centenárias de paixões humanas e riquezas minerais.

O drama que se desenrola na lama do Córrego do Feijão e no Paraopeba está só começando.

 

*Jefferson Picanço é docente do Instituto de Geociências da Unicamp e integra uma missão que busca estudar as causas do rompimento da barragem em Brumadinho, fornecendo recomendações às autoridades que estão à frente das operações.  Ele é membro do Centro de Apoio Científico em Desastres (CENACID), da Universidade Federal do Paraná. Uma equipe do Centro irá estudar o caso, em especial os mecanismos e consequências do fluxo da lama-rejeito. 

 

Relatos de um professor

 

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Segundo docente, tudo indica que será o maior desastre de rompimento de barragem em número de vítimas que se tem notícia
Segundo docente, tudo indica que será o maior desastre de rompimento de barragem em número de vítimas que se tem notícia