Encontro debate ética e o lugar da C&T na sociedade

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Ética na pesquisa científica foi o tema da mesa de abertura do V Encontro de Grupos de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade, que aconteceu segunda (29) e terça-feira (30) na Unicamp. “Olhar para ética é importar-se com a relação que estabelecemos com os sujeitos e com o meio que estudamos. É também pensar quais sentidos e quais futuros estamos ajudando a produzir no mundo”, afirmou Marko Monteiro, coordenador do Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica (PPG-PCT), do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.

Para Monteiro, que também é membro do Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais (CEP-CHS) da Unicamp, o debate sobre ética em pesquisa está hoje intrinsecamente ligado ao questionamento do papel do pesquisador e da prática de produção de conhecimento em um contexto de pós-verdade. Se, por um lado, o campo de estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade contribuiu para o questionamento da ciência como autônoma e absoluta, Monteiro é contrário à ideia de que o caminho agora seria negar seu relativismo. “Em um momento como o nosso, em que a verdade e as instituições que produzem conhecimento são colocadas em xeque, fica muito claro que a verdade é fugaz, construída, e que depende de legitimação constante”, pontuou.

homem fala ao microfone
Marko Monteiro,  coordenador do Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp

Segundo ele, órgãos como o Comitê de Ética, mais do que instâncias burocráticas, visam respaldar o trabalho científico e responder a demandas da sociedade sobre o que se faz nas universidades. “Queremos autonomia para pensar, para sermos críticos. Porém, temos que responder para a sociedade a respeito daquilo que fazemos. É uma relação muito complexa. Tem sido questionada há séculos. Nunca é fácil resolver”, afirmou.

Daniela Manica, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor), por sua vez, criticou o formato do sistema dos Comitês de Ética, que permanecem submetidos ao Ministério da Saúde por meio da Plataforma Brasil e circunscritos à lógica da bioética, mais ligada às pesquisas clínicas, e menos aos tipos de pesquisas que são feitas nas Ciências Humanas e Sociais. . “Precisamos transcender o formato burocrático que a discussão sobre ética tomou e enfrentar os desafios que vamos encontrar nos próximos anos nas nossas práticas de pesquisa e atuação científica. Precisamos, de uma forma mais ampla, expressar a função social da ciência e fazer com que seu sentido seja ressaltado para a sociedade”, destacou Manica.

mulher com laptop
Daniela Manica, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (LabJor)

Para ela, a autonomia universitária é um valor fundamental conquistado no processo de consolidação das universidades no Brasil e deve ser defendido por toda sociedade. “A ciência não é completamente autônoma. Temos processos regulatórios internos, acerca da forma como nosso conhecimento é produzido, que são feitos pelos nossos pares. Nosso trabalho é um processo de acúmulo de conhecimento, metodologias e práticas que vem sendo constituído há centenas de anos. Não pode ser cerceado por uma lógica que venha de fora”, enfatizou.

Assim como Monteiro, Manica ressalta a importância de defender a situacionalidade e o caráter político do conhecimento, ao invés de negá-lo. “A política está em todas as coisas. Está em nossos corpos, no desenho das nossas casas, das ruas, das grades, nas janelas, nas trancas. Está na forma como a tecnociência se constitui. Pedir para que a ciência seja apolítica é impossível. Ela nunca foi e nunca será”, afirmou. Para ela, mais do que uma crise de legitimidade, o que a universidade está enfrentando é uma “disputa política pelas narrativas sobre o mundo”. “Há vários projetos políticos sobre o mundo em embate e eles estão disputando o espaço da ciência e o direcionamento da ciência para determinados projetos”, pontuou.

Compartilhando práticas de pesquisa
O evento é organizado anualmente por estudantes de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), do Instituto de Geociências (IG), do Instituto de Estudos Linguísticos (IEL) e da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), que integram grupos de pesquisa interdisciplinares com diferentes abordagens sobre a temática da relação entre ciência, tecnologia e sociedade.

mulher e homem de boné
Luciana de Farias e Victor Chiodi, estudantes de doutorado de Política Científica e Ciências Sociais, contam sobre a organização do evento

Segundo Luciana de Farias, doutoranda do DPCT e integrante do Grupo de Análise de Política de Inovação (Gapi), os grupos envolvidos têm em comum uma perspectiva não determinista, que olha para além dos impactos da tecnologia na sociedade. Dentre os assuntos trabalhados, Luciana destacou a relação entre tecnologia e inclusão social,  segurança e vigilância na tecnologia, mudanças climáticas e a relação entre tecnologia e natureza.

Nesta edição, os organizadores se propuseram a romper com a estrutura tradicional das reuniões científicas de submissão e apresentação de trabalhos individuais. Os espaços do encontro foram compostos por oficinas, propostas pelos grupos de pesquisa envolvidos. “Esse formato é bem mais aberto. Ele permite que as pessoas dialoguem a partir de determinadas ferramentas ou determinados tópicos”, explicou Victor Chiodi, doutorando em Ciências Sociais e integrante do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia (GEICT).

Para Luciana, o novo formato visa atender o principal objetivo da reunião, que é estimular a sinergia entre os grupos. “É um espaço para a gente se conhecer, conversar e conseguir trabalhar junta, resultando em projetos de pesquisa e artigos. Os formatos anteriores não estavam possibilitando essa liga”, diagnosticou, justificando o subtítulo da reunião “compartilhando práticas de pesquisa”.

auditório com estudantes
Estudantes participam da oficina "Redes locais, livres e autônomas: porquê e como fazer"

Além do Gapi e o Geict, compõem a organização do evento os grupos: Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi); Laboratório de Pesquisas em Políticas Públicas, Geografia da Inovação e Governança (Lab-GOING); Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA); Grupo de Pesquisa Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CTeMe); Laboratório de Tecnologias e Transformações Sociais (LABTTS); Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia (ESCT); Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade (ICTS); e Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (Leve).

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Escritor e articulista, o sociólogo foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais no biênio 2003-2004