Fausto Castilho interpreta o Brasil

Fundador do IFCH, filósofo será tema de congresso na Unicamp e terá textos inéditos editados pela fundação que se dedica a preservar seu legado

Um projeto nacional que se proponha a interpretar o Brasil e seu desenvolvimento econômico e social necessariamente precisa englobar a ideia de afirmação da língua portuguesa. Fausto Castilho (1929-2015), fundador da área de ciências humanas da Unicamp, defendia essa ideia e vinha trabalhando nos últimos anos de sua vida na elaboração de uma teoria do Brasil, de formação da sociedade e do Estado brasileiro. Alguns desses registros inéditos serão editados em publicações nos próximos anos pela Fundação Fausto Castilho, responsável pelo legado intelectual do filósofo.

Parte do seu importante trabalho foi fundamentada na defesa da criação do chamado léxico filosófico no vernáculo. “O Fausto queria que nós tivéssemos, em português, um léxico filosófico. Ele sempre dizia que a filosofia alemã é recente, se considerarmos a escala de tempo, com pouco mais de 200 anos. Mas o fundamental foi a tradução do léxico filosófico para o alemão. Para termos uma filosofia nacional forte, é necessário um trabalho de base para a tradução”, explica o filósofo Alexandre Guimarães de Soares, ex-aluno e membro do Conselho Curador da Fundação Fausto Castilho.

Para relembrar a influência e o papel de Castilho no estudo da filosofia, a Unicamp receberá na próxima semana um grupo de destacados pesquisadores. O 1º Congresso Fausto Castilho de Filosofia, de 2 a 6 de outubro, reunirá acadêmicos do Brasil e da Europa para colóquios e homenagens. Nas seis décadas em que atuou como professor e pesquisador, Castilho conviveu com amigos e alunos de diversas partes do mundo, que estarão representados no evento.

Paranaense de Cambará, Castilho se graduou em filosofia pela Universidade de Paris, Sorbonne, em 1953, tendo sido aluno de intelectuais como Jean Piaget (1896-1980), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) e Gaston Bachelard (1884-1962). Também foi aluno do alemão Martin Heidegger (1889-1976), de quem traduziria ao longo de décadas “Sein und Zeit” (“Ser e Tempo”), obra de maior destaque do filósofo, publicada em 1927. Lançado em 2012 em edição bilíngue pela Editora da Unicamp, em coedição com a Editora Vozes, o livro apresenta uma leitura de Heidegger sobre a história da filosofia.

Foto: Scarpa
O filósofo Fausto Castilho: tema de congresso internacional e inéditos editados pela fundação que leva seu nome

Professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Soares é um dos organizadores do 1º Congresso Fausto Castilho de Filosofia, com estudiosos de diversas partes do país e da França, Polônia, Itália e Bélgica. Segundo o docente, que foi aluno e orientado de Castilho na Unicamp desde o final da década de 1980, o evento será composto por três colóquios.

O primeiro para tratar da influência do fundador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp na formação acadêmica de seus discípulos, “Fausto Castilho e seus alunos – um aprendizado para a vida inteira” (dias 2 e 3). Outro encontro congregará colegas para abordar o trabalho de pensadores importantes na área de pesquisa do homenageado, como Husserl (1859-1938), Sartre (1905-1980) e Descartes (1596-1650), intitulado “Fausto Castilho e seus colegas – uma companhia para a vida inteira” (dia 6).

Finalmente, entre 3 e 6 de outubro, o Colóquio Internacional “Ensaios e Discurso do Método” marcará a conclusão da tradução para o português da obra de René Descartes, publicada originalmente em 1637, incentivada pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) e pela Fundação Fausto Castilho. “Discurso do Método” é uma espécie de prefácio de “Ensaios”, composto por ensaios científicos sobre geometria, meteorologia e óptica. Juntos, esses textos representam uma das bases da epistemologia do cartesianismo. Apesar de o colóquio celebrar a conclusão da tradução inédita, o lançamento somente ocorrerá em 2018.

Entre os nomes de destaque do congresso estão Igor Agostini, da Universidade de Salento (Itália); Jaime Derenne, da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica); Pierre Girard, da Universidade de Lyon (França); Pierre Guenancia, da Universidade da Borgonha (França); Laurence Renault, da Universidade de Paris-Sorbonne (França); e Wojciech Starzynski, da Academia Polonesa de Ciências. Compõem o grupo de colegas brasileiros Fátima Évora, Enéias Forlin, Oswaldo Giacoia Junior e Luiz Benedicto Orlandi, do IFCH, Pablo Ruben Mariconda e Franklin Leopoldo e Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Lia Levy, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Ulysses Pinheiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de vários que foram seus orientados.

Legado

Castilho, que não teve filhos, idealizou no fim da vida a criação de uma fundação que se dedicasse a apoiar eventos acadêmicos e traduções de grandes obras da filosofia universal que, apesar da importância acadêmica, não teriam apelo comercial no mercado brasileiro. No ano passado, a viúva do filósofo, Carmen Castilho, organizou com o apoio de amigos a criação da Fundação Fausto Castilho. Financiada por um fundo integrado pelos bens deixados pelo professor, a instituição empenha-se na preservação de seu legado. Além do material inédito sobre o Brasil, Alexandre de Soares informa que serão editados também textos sobre filosofia nunca publicados.

Sua produção intelectual resultou em textos como “O Conceito de Universidade no Projeto da Unicamp” (2008) e a tese de livre-docência “Husserl e a via redutiva da pergunta-recorrente que parte da Lebenswelt”. Escrita em 1971, na Unicamp, e defendida em 1974, na UFPR, a tese foi finalmente lançada pela Editora da Unicamp em 2015.

Na Editora da Unicamp, Castilho coordenava duas coleções, reunidas agora sob o nome de Coleção Fausto Castilho de Filosofia. Compõe a coleção a Série Multilíngues, com 13 títulos, que publica obras fundamentais da história da filosofia no idioma original, acompanhados de tradução em português. Desses livros, três foram traduzidos pelo próprio Castilho e seis tiveram a tradução apoiada financeiramente pela Fundação. Já a Série Estudos de Filosofia Moderna e Contemporânea publica autores contemporâneos, nacionais e estrangeiros, e totaliza cinco títulos, incluindo a tese de livre-docência.

Foto: Scarpa
Parte do acervo doado pelo intelectual à Unicamp: Biblioteca de Obras Raras levará o nome do filósofo

Um ano antes de morrer, Castilho doou para a Unicamp sua biblioteca com 10 mil volumes, amealhada ao longo de 70 anos. “Ela tem uma característica: as diversas disciplinas presentes no acervo bibliográfico têm sempre uma remissão ao fundamento filosófico que está subjacente a todas as partes deste acervo”, explicou o professor na assinatura da doação, em abril de 2014. Cerca de 60% do acervo é composto por coleções completas de grandes filósofos, reunindo exemplares raros em grego, latim, árabe, italiano, francês, inglês e alemão.

A coleção estará disponível futuramente para consulta na Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho”, cujo prédio, ao lado da Biblioteca Central Cesar Lattes, está em fase de conclusão. Dentro da programação do Congresso, no dia 2, haverá uma cerimônia que marcará a atribuição do nome do filósofo à nova biblioteca. “É um acervo que caracteriza a Unicamp, de filosofia, de ciências humanas e sobre o Brasil também. De certa forma, é um retrato da história da Unicamp”, afirmou Soares.

O linguista Carlos Vogt, ex-reitor da Unicamp, foi um dos amigos que auxiliou no processo de doação da biblioteca e criação da Fundação. “Acho que, de alguma maneira, o Fausto estaria muito contente com a efetivação da doação da biblioteca à Unicamp, ainda mais com a homenagem de ter seu nome inscrito na BORA [Biblioteca de Obras Raras]”, opinou Vogt, que é presidente do Conselho Científico-Cultural do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, órgão recém-criado na Reitoria e um dos organizadores do 1º Congresso Fausto Castilho.

Amigo de Castilho desde o final dos anos 1960 – quando foi convidado para trabalhar na área de linguística da Unicamp a partir de uma indicação do crítico literário Antonio Candido –, Vogt destaca a empolgação do filósofo pelo trabalho intelectual até o final da vida. “Em nenhum momento ele deixou de ter ideias, o que é sempre fantástico, mas, além disso, de tentar colocar na prática essas ideias, dando-lhes formas institucionais.”

O evento é promovido pela Fundação Fausto Castilho, GT Estudos Cartesianos da Anpof e Instituto de Estudos Avançados da Unicamp. A realização do Congresso tem o apoio do IFCH, Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), Centro de Estudo da História da Filosofia Moderna e Contemporânea (Cemodecon), Instituto de Filosofia da UFU (Ifilo - UFU), Capes, Fapesp e Fapemig.


Relação com Zeferino Vaz foi de altos e baixos

Havia um histórico de atrito entre Fausto Castilho e Zeferino Vaz quando o filósofo foi convidado pelo reitor para organizar a criação do núcleo de ciências humanas da Unicamp, em 1967. Aos 37 anos, Castilho já tinha um currículo de peso. Depois de formado pela Sorbonne (1949-1953) e ter feito estágio em Friburgo (1952-1954) com Martin Heidegger (1889-1976), voltou ao Brasil e atuou como professor da Universidade Federal do Paraná, a UFPR (1957-1959), e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, a FFCLA (1959-1964). Nessa fase, foi cicerone dos franceses Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986) durante sua visita ao Brasil, em 1960.

Zeferino, que se vangloriava não só de ter apoiado o golpe militar de 1964 como de também ter atuado na sua preparação – durante a gestão como secretário de Saúde do governador Adhemar de Barros –, foi o responsável por assinar a cassação de Castilho da FFCLA. A demissão ocorreu quatro semanas depois da queda de João Goulart e foi firmada quando o reitor ocupava a presidência do Conselho Estadual de Educação. Esse episódio, que o filósofo fazia questão de deixar destacado em seu curriculum vitae, só foi superado em um jantar de “reconciliação” oferecido por Zeferino no começo de 1967.

Nessa época, Castilho tinha experimentado trabalhos na Prefeitura de São Paulo, primeiro como assessor e depois como secretário de Educação e Cultura do brigadeiro Faria Lima (1965-1966) e consultor na fundação da Universidade Federal do ABC (1963-1964). Foi durante essa consultoria que teve a ideia de criação do campus radial, aproveitada posteriormente por Zeferino na Unicamp.

Aparadas as arestas, o filósofo aceitou a empreitada na nova universidade paulista e apresentou ao Conselho Diretor, no segundo semestre de 1967, o plano de criação do Departamento de Planejamento Econômico e Social (DEPES), concebido como a primeira unidade do futuro Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Depois de uma estada de dois semestres na Universidade de Besançon, na França, Castilho voltou para Campinas, em 1968, e começou a recrutar o corpo docente e a estruturar os cursos de humanas, inicialmente economia, filosofia e linguística.

A relação entre Zeferino e Castilho, entretanto, seria novamente abalada com uma crise eclodida em 1972, desencadeada pela oposição do reitor à condução dos trabalhos à frente do IFCH e por divergências conceituais sobre a constituição da nova universidade, o que culminaria com a não renovação de seu contrato e afastamento de Campinas por mais de uma década. Castilho somente seria reconduzido ao cargo de professor da Unicamp no final de 1984, na gestão de José Aristodemo Pinotti. (Guilherme Gorgulho)

 

SERVIÇO

1º CONGRESSO FAUSTO CASTILHO DE FILOSOFIA

Data: 2 a 6 de outubro de 2017

Local: Auditório Fausto Castilho (IFCH - Unicamp) e Auditório da Casa do Professor Visitante (CPV - Funcamp).

Inscrições e programação:

https://www.ifch.unicamp.br/ifch/noticias-eventos/departamento-filosofia/1o-congresso-fausto-castilho-filosofia-inscricoes-abertas

Mais sobre Fausto Castilho:

 

Foto: Reprodução


http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/marco2009/ju422pdf/Pag04.pdf