Pense em Mossul, reze por Mossul


Foto: Reprodução O portal jornalístico alemão Der Spiegel apresenta a seção Unispiegel, que cobre notícias sobre ensino superior. Na Alemanha e no resto do mundo. Nesse espaço chamou a atenção no final de agosto uma matéria sobre a Universidade de Mossul, a segunda maior do Iraque. Esta universidade foi notícia algumas vezes por aqui, mas a do sítio alemão faz um apanhado da história recente e coloca as perspectivas, segundo as vozes locais [1]. O Estado Islâmico chegou a Mossul em 2014 e, após a conquista da cidade, voltou-se contra a universidade. Os prédios foram bombardeados, a biblioteca foi saqueada, seus livros queimados, fecharam os cursos de arte e música e, por fim, até o de medicina. Os poucos docentes que permaneceram em atividade passaram a ser pagos pelo Estado Islâmico, os laboratórios de Física e Química tiveram suas linhas de pesquisa e projetos pedagógicos redirecionados para a fabricação de armas e munições. Enquanto a maioria dos estudantes ficou sem aulas, parte da universidade sobreviveu no exílio nas províncias de Kirkuk e Dahuk, ao norte, onde, respectivamente, 11.000 e 4.000 estudantes passaram a ter aulas ministradas por 1.400 docentes: “a guerra não deve ser o fim da formação”, nas palavras de Ubai al-Diwachi, um dos dirigentes da universidade. Com o Estado Islâmico acuado, a bbilioteca da universidade passa a ser reconstruída e as atividades de ensino voltam a essa cidade. Ainda nos arredores, pois o campus original continua um lugar perigoso.

         Navegando pelo sítio da universidade, à primeira vista não se percebe toda essa história, mas na seção “Leia também algumas notas reverberam a libertação da universidade e a campanha de reconstituição do acervo da biblioteca.

Foto: Reprodução
A Biblioteca Central da Universidade de Mossul antes e depois da invasão do Estado Islâmico

         Mossul lembra Aleppo, cuja universidade sofreu atentados com dezenas de mortos duarnte a guerra civil. Uma notícia que correu o mundo recentemente registra o medo de frequentar o campus e de como os estudantes recorrem ao ensino a distância [2]. O sítio da universidade de Aleppo, por sua vez, mostra uma imagem oficial e de tranquilidade, com uma aba exclusiva para o Ministério da Educação da Síria.

         As universidades de Mossul e Aleppo não estão no ranking das 1.000 melhores universidades do Times Higher Education, mas devemos prestar (muita) atenção às ausências nos rankings.  Essas não são as únicas universidades ameaçadas no mundo, mas parece não haver um ranking ou lista para elas. No contexto da crise mundial dos refugiados, existem poucos levantamentos sobre docentes universitários e pesquisadores ameaçados e refugiados.  Alguns dados podem ser encontrados em matéria recente sobre o tema [3] da Fundação von Humboldt, ilustrada por um infográfico mostrando os países “top 5 de origem dos refugiados acadêmicos, lista que é encabeçado pela Síria, seguida pelo Irã, Iraque, Turquia e Etiópia. Existe uma rede, “Acadêmicos em risco, que congrega mais de 500 universidades de 39 países com o objetivo de proteger pesquisadores ameaçados e promover a liberdade acadêmica. Não há nenhuma brasileira, mas vale lembrar que por aqui (Unicamp) teremos a Cátedra dos Refugiados, exatamente para “estimular o debate e a produção de conhecimento sobre o tema dos refugiados” [4].

         As ameaças ao trabalho e à liberdade acadêmicos não se resumem ao conjunto de horrores que as notícias de Mossul e Aleppo nos trazem. Outras ameaças existem, algumas muito perto de nós. Buscando de sítio em sítio para escrever esta coluna, deparei-me com as sugestões da Secretaria do Tesouro Nacional no parecer sobre o plano de recuperação fiscal apresentado pelo governo do Rio de janeiro. Segundo o sítio do Huffpost Brasil:

Em seguida, dizem que esta sugestão pode ser ampliada, ‘passando a abranger, inclusive, a revisão da oferta de ensino superior’. Embora este último trecho não tenha uma redação clara e não mencione a UERJ diretamente, o contexto em que está inserido permite afirmar que o parecer de fato defende o término do financiamento público para a universidade. Seria, na visão dos técnicos, uma forma de economizar recursos adicionais.” [5]

         O governo do Rio negou em nota que cogita privatizar a UERJ [6]. É mais um trágico capítulo numa história terrível sem alentos e que parece estar longe de terminar. Pelo que vemos, existem várias maneiras de desmantelar universidades. Lembro-me de Caetano Veloso e vale a paráfrase: “Pense em Mossul, reze por Mossul, Mossul é aqui, Mossul não é aqui.”

 


[1] http://www.spiegel.de/spiegel/unispiegel/mossul-im-irak-studenten-wollen-an-uni-zurueck-a-1161071.html

[2] http://www.dn.pt/mundo/interior/entre-bombas-e-fugas-estudantes-sirios-procuram-cursos-online-8590146.html

[3] https://www.humboldt-foundation.de/web/On-dangerous-paths.html

[4] http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2017/06/19/unicamp-tera-catedra-dos-refugiados-gt-comeca-trabalhar

[5] http://www.huffpostbrasil.com/2017/09/06/ministerio-da-fazenda-pediu-o-fim-da-uerj_a_23198969/?utm_hp_ref=br-homepage

[6] https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/apos-recomendacoes-da-fazenda-governo-do-rio-diz-que-nao-cogita-privatizar-uerj-21789826.html