Nossa arma contra o vírus é a vacina

O Brasil conta hoje com apenas duas vacinas contra a Covid: a Coronavac, sob responsabilidade do Instituto Butantan, e a ChAdOx1, da Universidade de Oxford/AstraZeneca, em parceria com a Fiocruz. Segundo a ferramenta Our World In Data, da Universidade de Oxford, o Brasil aplicou até o dia 25/02/2021 o total de 7,8 milhões de doses de vacinas, com média de apenas 3,67 doses aplicadas a cada 100 habitantes.

Estas doses são contabilizadas como doses simples e não significam o total de pessoas vacinadas, mas estima-se que cerca de 6,2 milhões de pessoas já tomaram pelo menos uma dose. Precisamos vacinar o mais rápido possível, para combater o espalhamento da nova variante do vírus, cerca de 170 milhões de pessoas (~80% da população brasileira), então ainda faltam cerca de 164 milhões de pessoas para serem vacinadas. Claro, vacinar, mantendo as medidas não farmacológicas até pelo menos começarmos a observar queda acentuada na transmissão e infecção pelo vírus.

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Apesar de o Programa Nacional de Imunização (PNI) brasileiro ser considerado uma referência pela Organização Mundial da Saúde (OMS), estamos muito lentos. Não é culpa do PNI, faltam vacinas, falta planejamento, falta vontade política. Esta questão vem sendo amplamente discutida desde o ano passado.

Uma publicação na revista British Medical Journal  mostrava a quantidade de doses reservadas por cada país em relação à sua população e o Brasil estava no fim da fila e agora as vacinas chegam como conta-gotas. E como lá atrás o Brasil não fez acordos de compra, agora está tentando comprar, há maior procura, o custo será maior, gastaremos mais com transporte, que será feito em conta-gotas. Falta claramente uma estratégia e organização do Governo Federal com os estados buscando uma ação coordenada e estratégica para uma campanha de vacinação em massa.

O tratamento precoce é uma narrativa falsa que não funciona, o distanciamento físico e uso de máscaras nunca foi incentivado e não temos vacinas. O Brasil de hoje é tudo que o vírus sonhou, desejou e, para ser ainda mais feliz, ele conta com a falta de empatia de parte da população que ao se aglomerar com irresponsabilidade, o ajuda a sofrer mutações a rodo para se livrar da resposta imunológica e tentar se livrar da proteção conferida pelas vacinas. Nesta pandemia, só o vírus está sorrindo, em mais um 7x1 triste para este país. O Brasil não merece isto.

O que significa o Projeto de Lei 534/2021

Após decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o Plenário do Senado Federal aprovou no dia 24/02/2021, o Projeto de Lei PL 534/2021, que autoriza os estados, os municípios e o setor privado a comprarem vacinas contra a Covid-19, assumindo a responsabilidade civil pela imunização com segurança jurídica. Esta decisão permite a entrada de novas vacinas no país, como as da Pfizer, Sputnik V, Johnson & Johnson e a Covaxin, da empresa indiana Bharat Biotech, entre outras.

Caso o PL seja aprovado pela Câmara dos Deputados, os estados e municípios ficam autorizados a comprar vacinas caso o Governo Federal não cumpra o Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19 ou se a programação da União não for suficiente para imunizar a população de determinada região, mas não tira a responsabilidade do Governo Federal. Se os estados e municípios comprarem vacinas, deverão ser ressarcidos pela União.

No caso do setor privado, todas as doses de vacinas adquiridas deverão ser doadas para o Sistema Único de Saúde (SUS) enquanto a vacinação dos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde estiver em andamento. Concluída esta etapa inicial, o setor privado poderá ficar com metade das vacinas, mas estas devem ser aplicadas gratuitamente, enquanto a outra metade deverá ser doada para o SUS. Estas regras terão validade durante a pandemia de Covid-19. Desta forma, não se desrespeita o Plano de Imunização e a universalidade do SUS.

Vacinação em crianças e adolescentes: uma boa notícia

A Universidade de Oxford anunciou no dia 13/02/2021 que irá realizar ainda em fevereiro de 2021, o primeiro estudo mundial de fase 2, com a vacina ChAdOx1 nCoV-19 sendo aplicada em crianças e adolescentes na faixa etária de 6-17 anos, com o objetivo de verificar a segurança e a imunogenicidade. ensaio envolverá dois grupos, sendo que um grupo receberá a vacina ChAdOx1 nCoV-19, enquanto o grupo placebo receberá a vacina meningo ACWY, contra a meningite. Na sequência, o estudo de fase 3 vai avaliar a eficácia do imunizante nesta faixa etária.

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Variantes do vírus tem nomes

Nós já escrevemos sobre as mutações e variantes em artigo. Para evitar questões geopolíticas e que as novas variantes do vírus Sars-CoV-2 que ficaram mais contagiosas após sofrerem mutações estigmatizem os países em que foram encontradas, cientistas e políticos criaram apelidos como Nelly, Erick e siglas com números e letras.

A variante mais preocupante encontrada no Reino Unido foi batizada “Nelly” (N501Y), a mesma que aparece nas variantes encontradas na África do Sul e no Brasil. Nas variantes da África do Sul e do Brasil, os cientistas encontraram a variante apelidada como Erick (E484K), que ajuda o vírus a se espalhar. Estas mutações ocorrem na proteína Spike do Sars-CoV-2, a mesma que é responsável pela interação com a proteína ECA-2 em nosso organismo e facilita a entrada do vírus em nossas células.

Estes apelidos estão relacionados com as partes do vírus que sofrem mutações, sendo que N501Y significa que na posição de aminoácido 501, o aminoácido asparagina (representado pela letra N) foi substituído pelo aminoácido tirosina (representado pela letra Y). Confira as letras que representam códigos dos aminoácidos.

No caso da mutação Erick, ou E484K, o glutamato (representado pela letra E) foi substituído por lisina (representada pela letra K) na posição 484. O termo V1 (variante 1) no nome N501Y.V1 significa a primeira mudança a ser descrita, sendo que a versão identificada pela África do Sul, chamada de N501Y.V2, foi a segunda a ser descrita. O termo VOC significa Variant of Concern (Variante de Atenção) e o termo VUI é a abreviação de Variant Under Investigation (Variante sob investigação). A variante B.1.1.28 identificada no Brasil e que preocupa o mundo, ficou conhecida como N501Y.V3 e a variante da mesma linhagem, a B.1.1.28.1, recebeu o apelido P1.

Porque a Covid ressurgiu em Manaus?

Um artigo bem interessante publicado na revista The Lancet no dia 27/01/2021 abordou possíveis explicações sobre o ressurgimento de Covid-19 em Manaus apesar da alta soroprevalência. Em primeiro lugar, a taxa de infecção pelo Sars-CoV-2 pode ter sido superestimada durante a primeira onda e a população permaneceu abaixo do limite de imunidade de rebanho até o início de dezembro de 2020.

Em segundo lugar, a imunidade contra a infecção pode já ter começado a diminuir em dezembro de 2020, devido a uma diminuição geral na proteção imunológica contra o Sars-CoV-2 após uma primeira exposição. Terceiro, as linhagens do Sars-CoV-2 podem escapar da imunidade gerada em resposta à infecção anterior e quarto, as linhagens de Sars-CoV-2 que circulam na segunda onda podem ter transmissibilidade inerente mais alta do que as linhagens preexistentes que circulam em Manaus. Vale a pena conferir.

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Reinfecção - Um caso de reinfecção recente foi descrito envolvendo linhagens de vírus distintas no Brasil com a mutação E484K, uma variante associada ao escape de anticorpos neutralizantes.

Variantes de Atenção: uma preocupação - O Ministério da Saúde (MS) divulgou nota técnica com atualização dos dados sobre variantes de atenção do Sars-CoV-2 no Brasil, até o dia 20/02/2021. Nesta nota, o MS reconhece a preocupação com as Variantes de Atenção (Variants of Concern = VOC), que podem conduzir ao aumento da transmissibilidade e ao agravamento da situação epidemiológica e chama a atenção para a importância da vigilância genômica para a saúde pública no enfrentamento da Covid-19.

Vacinas: a distribuição desigual entre os países - Os países mais ricos, que detém 16% da população mundial, compraram a maior quantidade de vacinas (cerca de 60%) que serão produzidas neste ano, enquanto os países de baixa renda não terão doses suficientes para aplicar nem em suas populações mais vulneráveis. Neste cenário, cerca de 90% das populações vulneráveis em quase 70 países de baixa renda não serão vacinadas em 2021, o que pode levar o vírus a sofrer mutações que podem vir a tornar as vacinas menos eficazes.

Esta distribuição desigual de vacinas é perigosíssima e causará mais mortes nestes países de baixa renda e danos irreparáveis na economia, além de levar o vírus a se espalhar e sofrer mutações que trarão consequências graves para a população mundial.

Medidas não farmacológicas ainda são muito importantes - Um artigo muito importante publicado no dia 22/02/2021 na revista médica The Lancet ressalta a importância das medidas não farmacêuticas para prevenir a transmissão da Covid-19 e reduzir a suscetibilidade à infecção por SARS-CoV-2, sugerindo que as máscaras protegem o usuário ao filtrar o vírus de fontes externas.

O distanciamento social, a lavagem das mãos e a melhoria da ventilação também reduzem a quantidade de exposição às partículas virais provenientes de uma fonte infecciosa. O artigo defende que mesmo com vacinas seguras e eficazes sendo lançadas, as intervenções não farmacológicas continuarão a desempenhar um papel essencial na supressão da transmissão da SARS-CoV-2 até que a administração da vacina generalizada e equitativa seja concluída.

O que deu certo em Israel - O país está conduzindo uma campanha rápida e já vacinou cerca de 50% de sua população contra Covid-19, com ótimos resultados na prevenção de infecções, hospitalizações, doenças graves e óbitos. Mas estes resultados não podem ser atribuídos exclusivamente ao impacto da vacinação, pois Israel adotou medidas corretas de lockdown e conscientização da população para adoção das medidas não farmacológicas, como uso de máscaras, hábitos de higiene e distanciamento físico. Os dados sobre o total de vacinações e casos confirmados e mortes, conduzidos pela Universidade Johns Hopkins são atualizados diariamente. Isto é ciência.

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                                         ATUALIZAÇÃO VACINAS

Pfizer-Biontech: registro definitivo no Brasil - A Pfizer, um dos quatro laboratórios que desenvolvem estudos de fase 3 no Brasil, anunciou que sua vacina apresenta eficácia após a primeira dose e pode ser mantida em geladeiras comuns (com temperaturas na faixa de 2 a 8 graus Celsius) por até cinco dias, ou ainda em congeladores (com temperaturas na faixa de -25 a -15 graus Celsius) por duas semanas, não necessitando mais ser armazenada a -70 graus Celsius. Ótima notícia.

A Pfizer enviou os documentos dos estudos de fase 1, 2 e 3 e foi a primeira a ter o registro definitivo de sua vacina no Brasil aprovado pela Anvisa. A agência fez a avaliação completa de todos os dados dos estudos de qualidade, eficácia e segurança, bem como dos planos de mitigação dos riscos e de medidas de monitoramento e aprovou o uso do imunizante, que poderá ser distribuído amplamente para toda a população brasileira e comercializado no país. Vitória da ciência.

Agora precisamos cobrar do Governo Federal a compra de muitos milhões de doses desta vacina. O Governo Federal afirma que não fechou negócio por causa de cláusula que isenta a fabricante de responsabilidade por eventuais efeitos adversos. Segundo a Pfizer, as cláusulas não são exclusividade da empresa, mas de várias farmacêuticas e seguem um padrão internacional.

Lamentável a postura do Governo Federal, que não tem a mesma postura com o vírus, parece querer o vírus, este sim, que já tirou a vida de mais de 250 mil brasileiros, deixa sequelas, muitas delas irreversíveis e causa efeitos colaterais terríveis na saúde e na economia. Enquanto isso, a cada dia, morrem mais de mil brasileiros só de Covid-19.

Pfizer-Biontech (94% efetividade) - Um estudo realizado em Israel com a vacina da Pfizer aplicada em 1,2 milhão de pessoas (600 mil tomou a vacina e 600 mil no grupo placebo) mostrou eficácia real (efetividade) de 94% reduzindo os casos sintomáticos de Covid-19 em todas as faixas etárias (duas doses com intervalo de 7 dias entre as doses). A vacina mostrou 57% de eficácia contra casos sintomáticos no período de 14-21 após a aplicação da primeira dose, 92% de eficácia na prevenção de casos graves após duas doses e 62% depois de uma.

O estudo mostrou eficácia de 74% em prevenir hospitalizações após uma dose e 87% após duas doses. Esta é uma ótima vacina, reduz a carga viral de pessoas que se infectam em até quatro vezes e pode ajudar muito na redução de transmissão do vírus, pois está funcionando muito bem no mundo real. Os resultados deste estudo foram publicados no dia 24/02/2021 na revista científica New England Journal of Medicine.

O estudo sugere que a vacina da Pfizer é eficaz contra a variante mais contagiosa do Sars-CoV-2 identificada no Reino Unido e que era a variante dominante do vírus em Israel naquele momento.

Terceira dose como reforço - A Pfizer e a BioNTech comunicaram no dia 26/02/2021 que estão testando a aplicação de uma terceira dose de sua vacina com o objetivo de investigar a reação imunológica contra novas variantes do Sars-CoV-2, bem como testar uma vacina modificada contendo as informações genéticas das novas variantes.

A Pfizer pretende verificar a produção de anticorpos após a terceira dose de sua vacina, analisando se o sangue das pessoas que foram vacinadas com a terceira dose consegue neutralizar as novas variantes do Sars-CoV-2, além de investigar a segurança de uma terceira dose.

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Moderna - A empresa de biotecnologia Moderna anunciou no dia 24/02/2021 que vai realizar ensaios clínicos em humanos com uma nova versão de sua vacina contra a Covid-19, desenvolvida especificamente para a variante N501Y.V2 detectada na África do Sul. Apesar de que sua atual vacina mostra ótima resposta contra esta variante, a nova vacina significa uma possível estratégia como uma dose de reforço, combinada com as duas doses da atual vacina contra a Covid-19.

Oxford (ChAdOx1 nCoV-19) - Após análises exploratórias do impacto na imunogenicidade e na eficácia da ChAdOx1 nCoV-19, a Universidade de Oxford e a AstraZeneca divulgaram na revista médica The Lancet que a vacina pode ser aplicada em intervalo de 3 meses após a primeira dose. Além disso, os resultados mostraram boa imunogenicidade e proteção conferidas pela primeira dose, antes que uma dose de reforço seja oferecida.