Não existe limite para o negacionismo e o charlatanismo no Brasil

O Presidente da República (PR) afirmou recentemente que o número de mortes de crianças pela COVID-19 é insignificante no Brasil. Esse argumento foi usado por ele e pelo Ministro da Saúde (MS) para justificar que não havia pressa em comprar as vacinas pediátricas da Pfizer, pois o número de óbitos de crianças estava dentro de um patamar que não implicava em decisões emergenciais. Infelizmente, estamos assistindo ao aumento no número de internações e óbitos de crianças não vacinadas no país inteiro, causado pela variante Ômicron. A demora na compra das vacinas pediátricas e para iniciar a imunização de nossas crianças certamente ajudou a agravar a situação.

Segundo dados dos boletins epidemiológicos 44, 92 e 97 do Ministério da Saúde, desde o início da pandemia, foram 2.664 mortes por COVID-19 na faixa etária 0-19 anos, sendo 801 óbitos na faixa etária menor que 1 ano, 402 na faixa de 1 a 5 anos e 1.461 na faixa de 6 a 19 anos (Tabela 1). Será que os pais, avós e familiares dessas 2.664 crianças e adolescentes concordam que esses óbitos são insignificantes?

Tabela 1: Óbitos COVID-19 – Período 2020-2022

Faixa etária

Óbitos

COVID-19

Óbitos SRAG causa

não especificada

<1 anos

801

1.379

1 a 5 anos

402

712

16 a 19 anos

1.461

1.261

TOTAL

2.664

3.352

Fonte: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/boletins-epidemiologicos/covid-19 SRAG = Síndrome Respiratória Aguda Grave

De acordo com os boletins, o total de óbitos por COVID-19 no período 2020 a 2022 até o momento é de 566.463. O total de óbitos levantados pelo consórcio de imprensa é de 627.365. A diferença de 60.902 sugere que o total de óbitos na faixa etária 0-19 anos é ainda maior. Há 3.352 óbitos registrados por SRAG com causa não especificada, o que pode incluir muitos por COVID-19.

Como urubus de olho na carniça

É curioso o fato de que um efeito adverso em uma criança após tomar a vacina da Pfizer, como o que aconteceu em Lençóis Paulista, levou dois Ministros de Estado a visitar a família da criança e também levou o mesmo Presidente, que afirmou que o número de óbitos de crianças e adolescentes por COVID-19 é insignificante, a ligar para os familiares da criança! A criança de Lençóis Paulista está bem, foi comprovado que o evento não teve relação com a vacina, mas os antivacinas de plantão aproveitaram a oportunidade. Eu não sou contra a visita ou a ligação do Presidente, mas espero que alguns dos familiares das mais de 627.365 vítimas da COVID-19 também tenham recebido alguma atenção por parte dos membros do atual Governo Federal (GF). Infelizmente, o número de crianças não vacinadas, contaminadas, hospitalizadas e vindo a óbito está aumentando no Brasil. É assustador que membros do atual GF espalhem mentiras sobre eventuais efeitos adversos causados pelas vacinas, mas se calem sobre mortes de crianças. É impressionante a postura negacionista, anticiência e antivacinas de membros do GF, começando pelo Presidente da República.

É lamentável também a postura de parte da mídia brasileira que, negacionista, dá mais importância a eventos adversos sem comprovação com as vacinas, na tentativa de criar uma relação causal, do que às mortes comprovadamente causadas pela COVID-19 em crianças e adolescentes. Essa mesma mídia valoriza mais os eventuais eventos adversos das vacinas do que os mais de 627 mil brasileiros e brasileiras que perderam a vida para a COVID-19.

O vírus já matou cerca de 5 milhões e 700 mil pessoas no mundo, provoca Covid longa, deixa sequelas cardiovasculares, neurológicas e respiratórias irreversíveis nas pessoas recuperadas e provoca casos de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) associada à COVID-19 em crianças. Nós temos que temer o vírus e suas variantes, não as vacinas, que estão salvando milhões de vidas.

É surreal, mas não para parte da imprensa que inclui jornalistas e ex-atletas que não entendem nada de ciência, que se uniram a pseudocientistas, médicos que não seguem a ciência, líderes religiosos e políticos negacionistas para criar fake news assassinas. Parece que tem gente torcendo para que alguma criança morra ao ser vacinada, para construir uma narrativa criminosa contra as vacinas e voltar a defender cloroquina, ivermectina e toda essa farsa de tratamento precoce com o kit Covid.

Certamente, esses episódios grotescos são planejados para encobrir a falta de vacinas para crianças, para alavancar a campanha antivacinação de crianças por parte do GF, para esconder a falta de testes e o apagão de dados no site do MS, que omite dados sobre óbitos, incluindo de crianças, desde a aprovação da vacina da Pfizer.

São mentiras que enganam, atentam contra a saúde e segurança da população brasileira e podem matar. Nós, cidadãos brasileiros, temos a obrigação moral de combater com firmeza esse enorme desserviço contra a população brasileira. Não podemos aceitar tamanho descalabro, nem que questões mesquinhas afetem as políticas de saúde pública nesse país.

Mesmo com esse tsunami de fake news e notícias assassinas, estamos observando uma boa adesão da população brasileira à vacinação. É muito importante que quem ainda não tomou nenhuma dose de vacina, que vá tomar a D1, quem tomou a D1, volte para tomar a D2 e quem tomou as duas doses, volte para tomar a dose de reforço, essencial para proteger contra a variante Ômicron. Quanto maior o número de vacinados, melhor é a resposta em termos de controle da pandemia, menos o vírus circula, menos ele sofre mutações. O vírus sofre mais mutações em pessoas não vacinadas.

As crianças precisam ser vacinadas para voltar para as escolas, ou poderemos ter uma explosão de casos entre crianças. Elas podem levar o vírus para casa, onde estão seus pais, irmãos e avós, algumas dessas pessoas com comorbidades. Precisamos evitar o surgimento de uma variante de preocupação mais perigosa para as crianças. Nós nunca tivemos campanhas contra a vacinação infantil no Brasil. Não podemos politizar a vacinação de crianças e envolve-las nessa disputa ideológica.

Crianças não são cobaias, assim como as vacinas não são experimentais, pois já passaram em todas as fases de estudos clínicos em humanos, quando a eficácia e a segurança foram demonstradas. A segurança continua sendo monitorada na fase de farmacovigilância, com a aplicação em milhões de crianças de vários países. Quem está participando de um experimento, são os adeptos do movimento antivacinas e os negacionistas, correndo o risco de serem infectados, sem a proteção que as vacinas oferecem.

Canetada na Conitec

A nota técnica nº 2/2022 - Fundamentação e Decisão Acerca das Diretrizes Terapêuticas para o Tratamento Farmacológico da Covid-19 (Hospitalar e Ambulatorial), assinada pelo Secretário de Ciência e Tecnologia do MS, publicada no Diário Oficial da União de 21/01/2022, rejeitou as conclusões do Grupo de Trabalho instituído pelo próprio MS, aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) no SUS, que traz orientações para o tratamento de pacientes não internados e contraindica o uso do kit Covid.

Uma comissão científica de alto nível mostrou que os medicamentos favoritos do GF, como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina não funcionam contra Covid. Inúmeros especialistas, que representaram sociedades científicas e universidades, elaboraram diretrizes para o tratamento da Covid-19, pautadas no conhecimento científico sólido e bem fundamentado nas melhores informações e recomendações internacionalmente aceitas.

Essa nota técnica vergonhosa afirma que a hidroxicloroquina funciona contra Covid e que as vacinas, que estão salvando milhões de vidas no mundo inteiro, não funcionam. É espantoso que o MS crie uma situação sem precedentes no País, divulgando diretrizes contra a vacinação e recomendando tratamentos para Covid-19 prejudiciais à saúde da população. Isso ofende os princípios de boa ciência, de ética, transparência e consolida uma prática de destruição do sistema de saúde no país e o discurso das bases negacionistas nas redes sociais.

É a opinião do Secretário contra as evidências científicas acumuladas com a vacinação no mundo real, com mais de 10.1 bilhões de doses de vacinas aplicadas, contra inúmeros estudos clínicos padrão ouro que mostraram a segurança e eficácia das vacinas em uso e a ineficácia e os efeitos adversos graves da hidroxicloroquina. É uma insanidade criada para defender uma bandeira política negacionista. Essa nota é um crime contra a saúde pública, viola princípios básicos de ética, transparência e a melhor ciência estabelecida e mostra um viés político, de interesses escusos. Isso é pseudociência assumindo o papel de espalhar ideias anticientíficas e uma sabotagem contra a população brasileira.

A Unicamp se manifestou aqui

A surpreendente medida do disque denúncia antivacinas

Mas o circo de horrores parece não ter fim. No dia 21/01/2022, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos divulgou nota técnica contra a criação do passaporte vacinal e contra a obrigatoriedade da vacinação infantil contra a Covid-19.

Nessa nota, o Ministério coloca o Disque 100, um canal do GF para denúncias de violações dos direitos humanos, à disposição para que pessoas possam denunciar situações de discriminação por não tomarem as vacinas contra a Covid-19. A nota afirma (para inglês ver), que o Ministério não é contra a vacinação, mas é contrário à obrigatoriedade.

O Ministério afirma que a vacina pediátrica autorizada pela Anvisa foi incluída no Plano Nacional de Operacionalização da vacinação contra a Covid-19 e não no Programa Nacional de Imunização, onde entraria no calendário básico de vacinação das crianças. Por esse motivo, a pasta defende a não obrigatoriedade e que essa medida não fere o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), onde consta que a vacinação seria obrigatória quando recomendada pelas autoridades sanitárias.

Mais uma vez, Ministros de Estado recomendam diretrizes de caráter ideológico. É mais um episódio irresponsável, um retrocesso que atenta contra a saúde da população brasileira. O atraso em vacinar nossas crianças é uma negação absolutamente inacreditável e inaceitável da ciência. As campanhas para desacreditar as vacinas são criminosas.

Passaporte vacinal

O passaporte vacinal é uma ferramenta importante para incentivar as pessoas a se vacinarem contra a Covid-19. É uma medida pedagógica necessária que ajuda a ampliar a cobertura vacinal, essencial para quebrar a cadeia de transmissão do vírus, evitando um crescimento acelerado da doença.

Mas a adoção do passaporte vacinal deve ser aliada a outras políticas públicas para conter a transmissão da doença, como testagem, uso de máscaras de boa qualidade (PFF2, N95), higiene das mãos e conscientização da população para evitar aglomerações, principalmente em locais fechados e com pouca ventilação.

É preciso ignorar o que defendem os membros do GF ou ficaremos muito mais tempo nessa pandemia, a um custo ainda mais alto. O fato é que estamos por nossa conta.

Desafios até o fim da pandemia

O avanço da vacinação se revelou fundamental para frear o rastro de destruição do novo coronavírus e evitar que a triste marca de mais de 627 mil vidas ceifadas pela Covid-19 fosse ainda maior. Em meio ao cenário de rápida disseminação da variante Ômicron, imunizar crianças e impulsionar as doses de reforço para quem tomou duas doses das vacinas são as principais medidas para controlar a pandemia no país. E, claro, é fundamental não esquecer das medidas não farmacológicas!

Nós precisamos vacinar mais rapidamente e superar o discurso negacionista, que também mata. Nós temos vacinas efetivas contra a Covid-19, mas não temos vacinas informacionais contra o vírus da desinformação e das fake news.

Leituras recomendadas

Para entender um pouco mais sobre negacionismo, a máquina de desinformação, movimento antivacinas e combate às fake news, seguem dois livros que são ótimas referências:

 

  1. Contra a realidade: A negação da ciência, suas causas e consequências

Autores: Natalia Pasternak e Carlos Orsi
Editora: Papirus 7 Mares, 2021

 

  1. Um tempo para não esquecer – a visão da ciência no enfrentamento da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde

Autora: Margareth Dalcomo
Editora: Bazar do Tempo, 2021

 

Observação: Os artigos publicados não traduzem a opinião do Jornal da Unicamp. Sua publicação tem como objetivo estimular o debate de ideias no âmbito científico, cultural e social.