Mortalidade por suicídio: várias razões para prevenir


Foto: DivulgaçãoNeury José Botega é psiquiatra, professor titular da Unicamp e diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS). É autor dos livros Crise suicida: avaliação e manejo (Artmed, 2015) e A tristeza transforma, a depressão paralisa (Benvirá, 2018).

 

Artigo III - “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”
Artigo XXV - “Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis.”
(Declaração Universal dos Direitos Humanos)


Embora um único suicídio já implique um impacto emocional considerável para a família e a comunidade, quando olhamos os resultados dos estudos populacionais percebemos a magnitude do suicídio nos dias atuais. A agregação numérica das várias modalidades do comportamento suicida é fundamental em vários aspectos: sensibiliza a sociedade a respeito da magnitude de um fenômeno, inspira a formulação de hipóteses de compreensão e de abordagem clínica, bem como orienta políticas de saúde pública

Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é responsável por pelo menos 800 mil mortes anualmente. Estamos falando de um suicídio, em algum lugar do planeta, a cada 45 segundos, ou de um contingente de mais de duas mil pessoas que põem fim à vida diariamente. Jovens e adultos jovens são os mais afetados – é a segunda causa mais frequente de morte entre os que têm entre 19 e 25 anos de idade (WHO, 2014).

O coeficiente de mortalidade por suicídio representa o número de ocorrências para cada 100.000 habitantes ao longo de um ano. No Brasil, o coeficiente médio de mortalidade por suicídio gira em torno de 5,5. Essa taxa vem crescendo ao longo dos dez últimos anos, ao contrário da tendência observada na maioria dos países.

O coeficiente de mortalidade por suicídio no Brasil pode ser considerado relativamente baixo, quando comparado ao de outros países. A despeito disso, por sermos um país populoso, ocupamos o oitavo lugar entre os que registram os maiores números de mortes por suicídios. São 12.000 suicídios, o que resulta em uma média de 32 pessoas que, diariamente, tiram a própria vida. É a cifra oficial, do Ministério da Saúde, que estima que a magnitude do suicídio seja pelo menos 20% maior do que a oficialmente registrada.

No Brasil, até aproximadamente o ano 2000, o suicídio não era visto como um problema de saúde pública, ofuscado que era por doenças endêmicas ou por outras causas de morte violenta. Os condicionantes de uma violência intrínseca à nossa sociedade já eram discutidos, mas a violência silenciosa dos suicídios permanecia à sombra dos índices de homicídios e de acidentes de trânsito.

A discussão sobre a natureza e a prevenção da violência acabou por trazer à tona o problema do suicídio. Houve um número crescente de livros, de pesquisas e de eventos científicos relacionados ao assunto. Dados sobre o suicídio passaram a ser divulgados pelos meios de comunicação, em reportagens abrangentes e ponderadas. Além do impacto emocional do suicídio, passou-se a discutir a magnitude dos índices e a frequente associação do suicídio com transtornos mentais. Junto, cresceu a conscientização a respeito da necessidade de melhorar a qualidade do atendimento emergencial das tentativas de suicídio.

Podemos afirmar que se fortaleceu, no país, a percepção de que o suicídio, dentro de sua complexidade, também figura como um problema de saúde pública. Há maior consciência da população de que necessitamos de estratégias mais efetivas para a prevenção da violência, incluindo-se nesse esforço a prevenção do suicídio. 

Nos dias atuais, a internet tornou-se a nova ameaça a angariar jovens para a morte. O suicídio é assunto nas redes sociais virtuais, e um famoso seriado de TV – Por 13 razões – gira em torno do suicídio de uma adolescente. O que estaria acontecendo? Como compreender melhor esse fenômeno? Como evitar que jovens vulneráveis se entreguem para o suicídio? Precisamos conversar sobre isso, rompendo um tabu que fazia do suicídio uma tragédia silenciada.

No espectro do comportamento autoagressivo, o suicídio é a ponta de um iceberg. Estima-se que o número de tentativas de suicídio supere o de suicídios em pelo menos dez vezes. O grau variável da intenção letal é apenas um dos componentes da tentativa de suicídio. O ato também representa uma comunicação, que pode funcionar como denúncia, grito de socorro, vingança, ou a fantasia de renascimento. Por isso, ideias, ameaças e tentativas de suicídio - mesmo aquelas que parecem calculadas para não resultarem em morte - devem ser encaradas com seriedade, como um sinal de alerta a indicar sofrimento e atuação de fenômenos psíquicos e sociais complexos. Não devemos banalizá-las.

Focalizemos a adolescência. O mundo psíquico de um adolescente está em ebulição, ainda não se atingiu a maturidade emocional. Há maior dificuldade para lidar com conflitos interpessoais, término de relacionamentos, vergonha ou humilhação e rejeição pelo grupo social. A tendência ao imediatismo e à impulsividade implica maior dificuldade para lidar com a frustração e digerir a raiva. Perfeccionismo e autocrítica exacerbada, problemas na identidade sexual, bem como bullying, são outros fatores que se combinam para aumentar o risco.

Um adolescente pode ter centenas de likes na rede social virtual, mas pouquíssimos, ou nenhum ser humano real com quem compartilhar angústias.  O mundo adulto, como um ideal cultural alcançável por pequena parcela de vencedores, fragiliza a autoestima e a autoconfiança de quem precisa encontrar o seu lugar em uma sociedade marcada pelo individualismo, pelo exibicionismo estético, pela satisfação imediata e pela fragilidade dos vínculos afetivos.

Quando dominados por sentimentos de frustração e desamparo, alguns adolescentes veem na autoagressão um recurso para interromper a dor que o psiquismo não consegue processar. Quando o pensar não dá conta de ordenar o mundo interno, o vazio e a falta de sentido fomentam ainda mais o sofrimento, fechando-se assim um círculo vicioso que pode conduzir à morte. Nos suicídios impulsivos, a ação letal se dá antes de haver ideias mais elaboradas capazes de dar outro caminho para a dor psíquica. O ato suicida ocorre no escuro representacional, como um curto-circuito, um ato-dor.

Há, também, os suicídios que se vinculam a transtornos mentais que incidem na adolescência, como a depressão, o transtorno afetivo bipolar e o abuso de drogas. Diagnóstico tardio, carência de serviços de atenção à saúde mental e inadequação do tratamento agravam a evolução da doença e, em consequência, o risco de suicídio.

Momentos de tristeza e pensamentos suicidas são frequentes na adolescência, principalmente em épocas de dificuldades frente a um estressor importante. Na maioria das vezes, são passageiros; por si só não indicam psicopatologia ou necessidade de intervenção. No entanto, quando os pensamentos suicidas são intensos e prolongados, o risco de levar a um comportamento suicida aumenta.

O quadro a seguir reúne alguns sinais que alertam sobre a existência de sofrimento psíquico e, também, de possível risco de suicídio. Muitos desses sinais são inespecíficos, pois também aparecem quando do surgimento de alguns transtornos mentais que podem ter início na adolescência (esquizofrenia, depressão, drogadição e transtorno afetivo bipolar).


SINAIS DE ALERTA EM RELAÇÃO A RISCO DE SUICÍDIO EM ADOLESCENTES

•    Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
•    Comportamento ansioso, agitado, ou deprimido
•    Piora do desempenho na escola, no trabalho, em outras atividades que costumava manter
•    Afastamento da família e de amigos
•    Perda de interesse em atividades de que gostava
•    Descuido com a aparência
•    Perda ou ganho inusitados de peso
•    Mudança no padrão usual de sono
•    Comentários autodepreciativos persistentes
•    Comentários negativos em relação ao futuro, desesperança
•    Disforia marcante (combinação de tristeza, irritabilidade, acessos de raiva)
•    Comentários sobre morte, sobre pessoas que morreram, interesse por essa temática
•    Doação de pertences que valorizava
•    Expressão clara ou velada de querer morrer ou de por fim à vida

 

 

Prevenção do suicídio entre os adolescentes não quer dizer evitar todos os suicídios, e sim uma só morte que possa ser evitada, a do adolescente que está ao seu lado. O que fazer? De modo simplificado, sugerimos três passos. Memorize o acrônimo ROC: reparar no Risco, Ouvir com atenção, Conduzir para um atendimento.

O primeiro passo é a própria suspeita do Risco de ocorrer um suicídio. Isso é muito perturbador, fere devoções e expectativas; a repulsa é automática. Se houver sinais – e nem sempre eles são dados! – não os reconhecemos como tais. Em uma conversa franca, pergunte ao adolescente sobre ideias de suicídio. Ao Ouvir a resposta, ouça com atenção e respeito, sem julgar ou recriminar, não se apresse em preleções morais ou religiosas. O terceiro passo é Conduzir o adolescente até um profissional de saúde mental, ou seja, não ficar paralisado. Uma pessoa fragilizada e sem esperança, como ocorre com quem se encontra deprimido, não tem a iniciativa espontânea de buscar ajuda.

A prevenção do suicídio, ainda que não seja tarefa fácil, é possível. Não podemos silenciar sobre a magnitude e o impacto do suicídio de adolescentes em nossa sociedade. Não todas, mas considerável porção de mortes pode ser evitada.