De volta ao povo originário

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Quando Jamille Lima iniciou suas atividades de campo para desenvolver sua tese no Programa de Pós-Graduação de Geografia do Instituto de Geociências da Unicamp, ela não imaginava as mudanças no trajeto da história do povo Payayá que ajudaria a promover. A doutora é docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) em Jacobina, município da Chapada Diamantina. Seus alunos tinham nomes, como Yara, Iatita, Anairan. Ouvia a todo tempo expressões como “pega no laço” ou “no dente de cachorro”. Andando pela cidade, percebia prédios tombados com muitos referenciais indígenas. Mas ela se questionava: ‘onde estavam e quem eram essas pessoas?’. Levantando informações, descobriu que aquelas expressões remontavam ao passado colonial. “Pega no laço” era uma referência à forma como os colonizadores perseguiam as mulheres indígenas que tentavam se esconder em jabaquaras, termo usado para locais escondidos, comuns na Chapada Diamantina com seu relevo cárstico repleto de grutas. Após estupradas, surgia uma família miscigenada. “Entendendo essa problemática, tentei levantar essa história”, conta Jamille. 

A tese “O sentido geográfico da identidade – metafenomenologia da alteridade Payayá”, orientada pelo docente Vicente Eudes Lemos Alves, aborda o sentido geográfico da identidade desse povo indígena que, antes da colonização, ocupava na Bahia uma área estimada de 300 mil Km², especialmente os sertões da Chapada Diamantina. Com a chegada dos portugueses e consequente tomada da terra, esses índios foram praticamente dizimados. Jamille buscou problematizar as representações do que é ser indígena e, sobretudo, buscou repensar como a própria ciência tem concebido discussões sobre identidade no Brasil e sobre como isso repercute para os indígenas de maneira aquartelada. “Mesmo que não seja o propósito da ciência, há uma negação desses povos indígenas através de representações estereotípicas. Tensiono essa representação a partir da história e da geografia, mostrando outro sentido do ser indígena a partir da experiência com os Payayá”, diz. 

Para fundamentar sua tese, Jamille recorreu a atividades de campo junto aos indígenas. Ao longo dos quatro anos de elaboração da tese, esteve constantemente com os Payayá, acompanhando e participando de diferentes atividades e ficando períodos contínuos em sua aldeia, no povoado de Cabeceira do Rio, no município de Utinga, para entender um pouco mais de sua cultura e levantar dados de acordo com a memória oral dos remanescentes. A partir dessas conversas, a pesquisadora foi em busca de documentos oficiais da época da colonização que ajudassem a compreender a geograficidade e a historicidade dos Payayá, buscando dar atenção aos aspectos geográficos, aos lugares e à própria distribuição espacial nos movimentos de avanço e resistência do intento colonial. No levantamento, foram encontradas cerca de 30 mil páginas com muitas referências aos Payayá em documentos e manuscritos originados de museus em São Paulo, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e da Espanha. Tais registros são reminiscências que ajudam a entender o processo colonial e a própria história dos Payayá. “Eles ficaram surpresos, pois encontrei documentos e manuscritos da Espanha que mencionavam, desde o século XVII, o que é hoje a aldeia deles com o mesmo nome que usam atualmente. Há vários registros nesses documentos da aldeia de Utinga, que deu o nome ao município baiano e que significa água branca”, conta.  

Os Payayá que conseguiram fugir do processo de dizimação resistiram na tentativa de recuperar a identidade cultural e geográfica de seus antepassados. Um deles foi o cacique Juvenal Payayá, que veio à Unicamp para a defesa de tese de Jamille no final de julho. Essa pesquisa deu novo fôlego na reconquista do território de seu povo. O levantamento documental feito por Jamille, demonstrando a historicidade e a geograficidade dos Payayá, teve papel na decisão do governo da Bahia para negociar a cessão do Território Indígena Payayá, ratificando o seu reconhecimento pela Funai em 2012. No início de 2019 os Payayá receberam finalmente a concessão do uso de uma área de 45 hectares próximo a Utinga que pertencia a uma empresa baiana extinta, onde cerca de 100 indígenas vivem. Jamille teve voz ativa na cerimônia de transferência de posse do território, que reuniu secretários de estado, prefeitos e vereadores da região, lideranças, cooperativados e quilombolas. A solenidade integra um trecho da tese. 

 “Essa pesquisa tem um impacto positivo no grupo estudado que serve para nortear uma política pública voltada para um número maior de interessados. O papel da universidade vem sendo questionado e esse é um exemplo claro de como o conhecimento pode virar política pública. A universidade está produzindo pesquisa, mas está dando retorno para a sociedade, no caso específico de uma etnia que perdeu seu território durante o processo histórico”, comenta o orientador da tese Vicente Eudes. “Os Payayá foram violentados desde o início da colonização portuguesa. Perderam seu território. Agora, a pesquisa dá oportunidade de recuperá-lo graças ao trabalho de Jamille, que resgatou a história desse povo, sua área de abrangência e a presença desses povos”, complementou. Os Payayá têm concessão do Estado para usar as terras pelo período de 10 anos, como consta no documento assinado em janeiro. Nesse período, a Funai deverá reconhecê-las como território indígena. Caso isso não aconteça, a concessão será renovada pelo mesmo período até que o processo da Funai seja concluído.  

Cerimônia de transferência de posse do território ao povo Payayá 
Cerimônia de transferência de posse do território ao povo Payayá 

Estereótipos e a metafenomenologia da alteridade Payayá 

A alteridade parte do pressuposto de que todo o ser humano social interage e é interdepende do outro. No entanto, na alteridade indígena, segundo Jamille, “é necessário nos despir das representações estereotípicas e dessa colonialidade de pensamento. Há uma desconstrução da representação utilizada como forma de negação do que é indígena. O estereótipo é o índio nu, com maçãs do rosto saliente, cabelos esticados e vivendo em ocas. No Brasil, hoje a maioria dos indígenas não tem essa condição”.  

A pesquisadora propôs-se a tratar os interlocutores da pesquisa não como objetos de estudo, comum na ciência. “A fenomenologia tenta destituir essa ideia de objetificação. O meta, que significa além, dá sentido a uma ética da alteridade, que é o outro no seu sentido mais radical em que não o posso compreender. Eles são os interlocutores que nos destituem de nossa própria egoidade. Há um traumatismo egológico que se reverbera no próprio modo de fazer pesquisa. Há uma ética em que não tento capturar o outro trazendo-o para nosso campo, mas de maneira em que se permita que eles nos mobilizem e criem um desembreagamento do nosso próprio ‘eu’”, explica Jamille. 

A perspectiva geográfica da pesquisa se manifesta através do Rio Utinga, que eles entendem como fonte de energia. “Essa relação deles com o lugar e com a geografia do semiárido é desconcertante. Não se ouve dizer que estão sofrendo com a seca. Eles estão buscando reflorestar a área com plantas nativas, lidando assim com a semiaridez”, impressiona-se.  

A memória como forma de documentar 

Jamille esteve em Utinga durante todos os anos da tese, que começou em 2015, por períodos longos sempre próximo ao final do ano. Ela conseguiu vivenciar alguns rituais, como os realizados na passagem de ano. “Não cheguei com referenciais teóricos prontos, porque não funcionaria. Eu ia a campo primeiro buscar a narrativa deles”, conta. Ela buscava a memória oral das pessoas. “Embora tivesse objetivos e pretensões, eu me permiti ser afetada, ouvir. Depois que os encontrei pessoalmente, minha pesquisa ganhou outro caráter”, comenta.  

“A dinâmica da pesquisa fez com ela tomasse caminhos diferentes a todo momento. É importante o pesquisador ter também essa sensibilidade. Foi um trabalho  que reuniu teoria e prática, mas sem impor uma a outra. Não colocamos a ciência acima do que está sendo estudado. Os Payayá contribuíram muito através da memória oral. Havia também a memória geográfica. Eles sabem, por exemplo, onde estão os cemitérios Payayá do século XVIII. Havia uma memória coletiva do grupo, mesmo que disperso”, menciona Vicente. Foi a partir dessas conversas informais que surgiu a necessidade da pesquisa documental.  

O cacique Juvenal Payayá e Jamille. Memória oral que colaborou para busca de documentos e manuscritos 
O cacique Juvenal Payayá e Jamille. Memória oral que colaborou para busca de documentos e manuscritos 

Onde estão os indígenas do Brasil? 

Imagina-se que a maior parte dos indígenas está na Amazônia, mas está, de fato, nas regiões Nordeste e Sudeste. “Os Payayá estão dispersos pelo Brasil. Estão em São Paulo e na Bahia em municípios como Morro do Chapéu, Porto Seguro, Salvador, Jacobina e Utinga. A partir da década de 50, vieram para o estado de São Paulo para trabalhar, morando em regiões periféricas e mantendo contato com os Guaranis. Vieram a pé da Bahia para cá”, conta Jamille. Segundo a pesquisadora, “quase metade da população indígena brasileira, que chega a 800 mil segundo o Censo, está em regiões urbanas e a maior parte deles não tem terra”.  

“O Brasil avançou muito pela própria luta desses povos que mora nas cidades porque foi desterritorializado. Esse processo é uma forma do estado brasileiro reconhecer que eles são indígenas e que é preciso criar políticas públicas próprias. Parte dos indígenas que entrou no primeiro vestibular da Unicamp não é de aldeia. Quando chegarmos ao ponto do estado brasileiro reconhecer essa população, teremos um passo importante para nossa história social, econômica, cultural”, avalia Vicente. 

DINTER 

Jamille faz parte de um grupo de oito docentes da Universidade do Estado da Bahia que integra o Doutorado Interinstitucional (DINTER) realizado em parceria com a Unicamp. As aulas foram ministradas na Bahia pelos docentes do IG que tiveram a oportunidade de conhecer a realidade desses alunos. O grupo está finalizando o doutorado em agosto através de uma sequência de defesas de tese.  “Essa é uma iniciativa importante de diálogo interuniverisdades. Os pesquisadores vêm para completar sua formação na Unicamp, que tem a área de pesquisa bem estruturada. Isso nos dá a possibilidade de dialogarmos com profissionais mais maduros, que em sua maioria já são docentes em instituições de ensino superior”, finaliza o orientador. 

Saiba mais sobre os Payaya: https://ige.unicamp.br/news/2019-08/em-palestra-no-ig-cacique-payaya-fala-sobre-dizimacao-e-reconquista 

Imagem de capa
Audiodescrição: em área de mata, imagem em perspectiva e plano médio, homem em pé, com olhar voltado para a direita da imagem, mantém o braço esquerdo esticado para frente e para cima, com a palma da mão aberta sobre a cabeça de uma mulher à frente dele, quase tocando-a. Ao fundo, área com capim e árvores. Ele usa óculos, camisa de mangas curtas e tem um colar no pescoço e outro na mão erguida, enroscada no punho. A mulher à frente dele, com olhar à direita, escreve com caneta em um caderno. Imagem 1 de 1.

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Escritor e articulista, o sociólogo foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais no biênio 2003-2004