Expectativas e acolhida: os calouros indígenas estão chegando

Iaponâ está sentado sobre a placa de concreto com o nome Unicamp
O calouro do curso de Ciências Sociais Iaponâ Guajajara

Os vinte e três anos de Iaponâ Ferreira Guajajara, completados no mês de março, marcam uma reviravolta em sua vida. O rapaz indígena, morador de Marabá, no Pará, não teria imaginado que passaria seu aniversário em 2019 tão distante de seu povo, mas feliz. Iaponâ, que sempre quis estudar, vai cursar Ciências Sociais na Unicamp. Ele faz parte do grupo de indígenas de várias partes do Brasil que garantiram uma vaga no primeiro vestibular indígena promovido pela Universidade.

Foram 611 inscritos e 68 aprovados de 23 etnias diferentes, sendo a maior parte Baré, Tukano e Baniwa, da região do Rio Negro, no Amazonas. A maioria dos aprovados foi desse estado, sendo 36 estudantes de São Gabriel da Cachoeira e 11 de Manaus, segundo dados da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest).

Grupo de indígenas com malas e pertences
O maior grupo de calouros indígenas veio de São Gabriel da Cachoeira (Foto: Hugo Teixeira/Comvest)

Iaponâ foi um dos primeiros calouros indígenas a desembarcar no Aeroporto Internacional de Viracopos, na noite de segunda-feira, 11 de fevereiro.  Aos poucos outros estão chegando. Nesta segunda-feira, (18), o maior grupo, com 22 calouros, desembarcou no aeroporto de Viracopos, vindo da região de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Outros 10 indígenas estão em Campinas desde quinta-feira, dia 14.

 “Sou militante de movimentos sociais, gosto de ler e de criticar. Gosto de desafios e lutei muito para estar aqui”, diz Iaponâ Para o futuro cientista social o curso do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) será uma grande ferramenta para tentar compreender as realidades do País e dos povos indígenas.

Ele espera aprender a lidar com o contexto histórico e entende o vestibular indígena como uma conquista. Para Iaponâ a Unicamp está “quebrando um elo”, ao mudar seu vestibular para favorecer a entrada de indígenas e cotistas negros. Um elo com um passado difícil.

 “Quando fiquei sabendo do vestibular procurei conhecer mais sobre a Unicamp que eu já tinha ouvido falar pela mídia. Foi uma surpresa saber dessa oportunidade não só para nós mas para outras pessoas que necessitam desta chance para estar aqui estudando”, reflete.

O indígena Mawanaya segura o celular e olha para a câmera
Mawanaya, da etnia Waurá

Iaponâ tem a expectativa de trocar experiências durante o convívio com a comunidade universitária. “Eu sou da região amazônica, região norte do Brasil. Quem olha daqui para lá muitas vezes enxerga índios que vivem isolados, nus, sem acesso a comunicação”. E a maioria não é assim. Os calouros indígenas montaram um grupo no WhatsApp para facilitar a comunicação. “Estamos conversando, tirando dúvidas, falando sobre o motivo da gente estar aqui”.

Mawanaya Waurá, de 30 anos, deixou a aldeia para cursar Geografia na Unicamp. Os Waurá vivem no Parque Indígena do Xingu e a maioria não fala português. Mawanaya vai pouco às cidades mais próximas que são Canarana ou Gaúcha do Norte. São seis horas de barco e mais três de estrada. A poluição ambiental foi o que despertou o interesse dele para fazer a graduação em Geografia. Ele relata que as nascentes próximas à aldeia estão poluídas e que os peixes não estão resistindo.

Acolhida

Será na casa da funcionária Zilda Farias, ou Dida, professora da Divisão de Educação Infantil e Complementar (Dedic) da Unicamp, que Iaponâ e Mawanaya vão se conhecer melhor. Zilda é também de família indígena, da etnia Kariri Xocó e está abrigando temporariamente quatro calouros. Acostumada a participar de atividades e discussões relacionadas aos indígenas, ela chama a atenção para a heterogeneidade das etnias. “São povos distintos com hábitos diferentes. A alimentação, por exemplo, alguns não comem carne bovina, outros não comem carne de porco. Precisamos de uma formação para entender cultura indígena”.

Zilda caminha junto a Iaponâ e Mawanaya
Zilda Farias e os hóspedes Iaponâ e Mawanaya

Além da professora, muitos estudantes de repúblicas abriram um espaço em casa para receber os calouros indígenas. Reunidos em redes de apoio, os estudantes garantiram aos indígenas, por meio de doações, passagens e transporte, além da hospedagem. A rede de apoio Ubuntu reúne quase cem estudantes que se esforçaram para organizar a acolhida e levantar recursos de doações. 

A estudante de pedagogia Rafaella Ferrari conta que foram promovidas rodas de conversa com aqueles que estão disponibilizando hospedagens. “Nem todo mundo está preparado para receber os calouros”.

De acordo com Rafaella em um primeiro momento a preocupação maior da Ubuntu está sendo com os indígenas, pela urgência da chegada dos calouros. “Na rede de apoio damos preferência para os estudantes indígenas e cotistas negros, porém vamos atender todos os estudantes que precisarem na medida do possível”.

A Unicamp preparou um esquema de mutirão para a matrícula do grupo nesta quinta-feira, 20. (veja). A Calourada 2019 também fará uma programação especial voltada aos indígenas. 

Rafaela
Rafaella: esforço dos estudantes da Unicamp reunidos em redes de apoio aos indígenas e cotistas

 

Imagem de capa

Audiodescrição: em área externa, imagem frontal e em lano médio, homem em pé, ao centro na imagem, sorri e faz sinal de positivo com a mão direita, com braço em noventa graus. Ele usa camisa branca de mangas curtas onde se lê Amazônia, escrito em verde e na altura do peito. Às costas dele, uma enorme placa de concreto, que ocupa todo o fundo da foto, onde está escrito em baixo relevo Unicamp, com letras pretas, e com o logo da instituição à esquerda. Alguns galhos de árvores aparecem no alto. Imagem 1 de 1.
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